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Blog da Lúcia Helena

O urucum protege articulações e evita a perda de massa óssea e muscular

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Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

15/12/2020 04h00

O nome urucum vem do tupi guarani e é até fácil chutar o significado: vermelho. Por causa desse tom, se quer uma colheradinha de História, foi o primeiro corante vegetal comercializado das Américas para a Europa em larga escala, diretamente do México. Ah, sim, porque a Bixa orellana, encontrada na Amazônia, não é uma exclusividade da nossa floresta. É uma espécie latino-americana por excelência.

No México, aliás, há registros de que era usada pelos astecas para tingir uma bebida ritualística à base de cacau que, graças à mistura, enganava os olhos e ficava com aparência de sangue. Assim como a planta é muito presente em países da América Central.

Se a gente pensar em saúde — afinal, estamos aqui para isso! —, usando como referência as citações no Pubmed, que é a biblioteca nacional de Medicina dos Estados Unidos onde vão parar os artigos científicos do mundo inteiro, até agora o urucum foi tema de 168 deles. Um nadica. Mas considere que mais de 100 foram escritos na última década e, só neste ano complicado, saíram 16 pesquisas do forno.

Nota-se que o interesse da ciência pelo urucum cresce. E iria mais um artigo desses para a conta de 2020 se o texto a que consegui acesso, assinado por cientistas da Universidade Federal do Amapá e da Universidade Federal de Minas Gerais e aceito em um periódico internacional, já tivesse sido publicado. Ele fala dos benefícios da Bixa orellana para evitar um trio de encrencas que costuma afetar a população com o passar dos anos: a osteoporose, que é a perda de massa óssea; a sarcopenia, que é outra perda triste, a de massa muscular; e, finalmente, as inflamações articulares.

Do seu refúgio à beira do rio Vila Nova, cujas águas eu podia enxergar ao fundo na tela de Zoom assim como os inúmeros açaireiros — outra espécie nativa, outra história —, o professor Carlos Tavares Carvalho conversou longamente comigo sobre a ação do urucum que, segundo ele, ainda tem muito o que revelar.

Professor da Universidade Federal do Amapá e ex-reitor da mesma, farmacologista com passagens na Câmara Técnica de Fitorápicos da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e autor de diversas pesquisas publicadas lá fora, a maioria focando o poder antiinflamatório de espécies amazônicas, ele me conta que começou a investigar o urucum por outros caminhos — no caso, seus fabulosos efeitos no diabetes tipo 2 -, antes de se envolver também com os experimentos, por enquanto em ratos, do que poderia acontecer com o esqueleto de quem usasse suplementos do óleo extraído das sementinhas cor de fogo.

Um trio dentro das sementes

"Na região amazônica, as populações usam muito o urucum na alimentação", conta. "Com ele, fazem o colorau, um pó corante natural que se popularizou em várias partes do país, mas que por aqui é usado também para dar sabor, e não só cor, até a carnes. E, quando as pessoas trituram as sementes, delas sai um óleo que é aproveitado em receitas como a do arroz."

No entanto, o urucum começou chamando a atenção de pesquisadores longe da mesa, pela pintura corporal exibida pelos povos de diversas etnias indígenas. O que se notou, e já faz um bom tempo, é que os insetos não picavam as áreas do corpo tingidas. Então, claro, todos foram atrás do componente do urucum responsável por isso. "Encontramos a bixina, uma molécula que, de fato, é altamente repelente de insetos", diz o professor.

Foi aí também que os cientistas passaram a olhar com maior curiosidade para outras moléculas presentes no urucum. Guarde o nome de uma delas, embora ele seja complicado: geranilgeraniol. Muito dos efeitos da espécie na prevenção do envelhecimento do aparelho locomotor tem a ver com essa substância. E há uma segunda: o tocotrienol que, segundo o professor Tavares, é uma das formas mais potentes de vitamina E, com um papel antioxidante imbatível.

Na verdade, se for para eu ser precisa, deveria escrever tocotrienóis, no plural, porque há variações moleculares, por assim dizer. O urucum é abundante em todas elas. Portanto, se é para resumir o que nos oferece, ele é rico em bixina, geranilgeraniol e tocotrienóis. Não é pouca coisa.

Dentro dos ossos

Quando, há cerca de 15 anos, Carlos Tavares começou a estudar o urucum, seu maior interesse era pela bixina e seus efeitos no diabetes. Hoje, seu grupo tem investigações sobre o urucum em várias frentes. No caso da osteoporose, no trabalho que aguarda publicação, ele e seus colegas, primeiro, castraram ratos de laboratório. É que, sem uma boa produção natural de hormônios sexuais, o esqueleto enfraquece. As mulheres sabem disso, quando chega a menopausa e, com ela, a ameaça de ossos fragilizados.

Pois bem: "Os animais que receberam o óleo de urucum não sofreram uma perda tão grande de massa óssea, como seria o esperado", resume o pesquisador. Segundo ele, na Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, já estão sendo realizados ensaios clínicos, isto é, com seres humanos. Mas, no caso, em vez de usarem suplementos do óleo com todos os seus componentes agindo em conjunto, o grupo americano observa a ação de uma única daquelas variações do tocotrienol.

Quem esclarece a ação no esqueleto é nutricionista Vanderlí Marchiori, especialista em fitoterapia de São Paulo que vem revisando a literatura científica a respeito dos efeitos de suplementos de óleo de urucum sobre os ossos, a musculatura e as articulações: "Não é um mecanismo único. Mas, se for para eu citar o principal deles na minha opinião, seria inibir os osteoclastos, aquelas células encarregadas de reabsorver massa óssea, e na contrapartida estimular os osteoblastos, que usam o cálcio para formar novas células de osso."

Essa dupla, osteoclasto e osteoblasto, costuma trabalhar em perfeito equilíbrio na juventude: um destrói e o outro reconstrói, um tira e o outro põe. Por isso, nossos ossos estão longe de ser a matéria morta que vem à cabeça pela imagem de um esqueleto. Vivem em renovação. O problema é que a atividade dos osteoblastos despenca com a idade, enquanto seus parceiros destruidores continuam firmes e fortes. E essa atividade cai até porque boa parte dos tais osteoclastos vai desaparecendo, entrando em um processo chamado apoptose, uma espécie de suicídio celular — que, sim, os componentes do óleo de urucum conseguem reduzir.

A hipótese do professor Carlos Tavares para explicar o que ele observa pelas lentes de seu microscópio eletrônico é que a dobradinha geranilgeraniol e tocotrienol mimetize os hormônios sexuais no organismo. Isso compensaria, ao menos em parte, a derrocada dessas substâncias após a menopausa das mulheres e da andropausa masculina — sendo andropausa um termo controverso, mas usado para designar o declínio da testosterona nos homens maduros. E essa semelhança das moléculas do urucum com os nossos hormônios também faria os ossos captarem mais cálcio.

Nos músculos e nas articulações

O professor Tavares explica que, por ter ficado de olho nos ossos, seu objetivo não era ver o que exatamente acontecia nos músculos — algo que pretende investigar adiante, contando inclusive que está para ser iniciado um novo trabalho a respeito da suplementação alimentar com o óleo de urucum, mas aí feito com a participação de gente como a gente, com 400 voluntários.

Só que o fato é que seus ratinhos ficaram, sim, mais musculosos, inclusive aqueles que participaram de outros experimentos para compreender a ação do urucum no diabetes. Estes não só apresentaram níveis melhores de açúcar no sangue, como saíram fortalecidos ao pé da letra. E o mesmo ocorreu em seres humanos, de acordo com pesquisas realizadas no Exterior, principalmente pelo grupo da Califórnia.

A maior justificativa recai novamente na simulação dos hormônios sexuais pela dupla geranilgeraniol e tocotrienol presente nas sementes. Ela evitaria a sarcopenia, designação médica para a perda de massa muscular. "O efeito antioxidante nas fibras dos músculos também parece ser importante", complementa o cientista.

Mas atenção: o óleo de urucum não é uma espécie de bomba que faz a criatura ganhar bíceps do nada. Ele apenas ajuda a prevenir a diminuição da massa muscular com a idade. Vanderlí Marchiori ressalta ainda que o tocotrienol participa da síntese e da manutenção do colágeno, o que favorece não apenas a massa muscular, mas a manutenção das articulações em bom estado. "E temos de lembrar que esse óleo é extremamente anti-inflamatório, sendo esse mais um mecanismo para afastar ou atenuar as doenças articulares", afirma.

Outros efeitos do urucum

Um dos efeitos mais investigados na Universidade Federal do Amapá, pelo professor Tavares e seus colegas, tem a ver com o diabetes tipo 2, como já foi mencionado. "Parece existir, até certo ponto, uma regeneração das células-beta produtoras de insulina, provavelmente porque o pâncreas é um dos alvos das moléculas antioxidantes do óleo", diz

Em um experimento, o professor e seu time usaram esse óleo junto com a metformina, remédio tradicionalmente usado para tratar pacientes com diabetes tipo 2. "E, pelos dados preliminares que temos em mãos, parece haver uma potencialização do efeito do medicamento", revela. Segundo ele, isso significa que o jeito como o urucum atua no pâncreas é diferente do modo de ação da droga — ou os dois competiriam em vez de um reforçar a ação do outro.

Os pesquisadores brasileiros também notam que a suplementação à base de urucum — de novo, provavelmente pela ação contra os radicais livres, moléculas nocivas que sobem na mesma velocidade que o açúcar no sangue — foi capaz de aliviar alguns problemas que surgem no pacote do diabetes, como neuropatias e formação de placas nos vasos.

Por falar neles, especificamente algumas variações do tocotrienol encontradas nas sementes fazem o papel de um falso colesterol ruim, o LDL, uma vez dentro do organismo. Ocupando o seu lugar, o verdadeiro malfeitor não tem muita vez. "Seus níveis começam a cair rapidamente, cerca de dez ou 15 dias após o início da suplementação", afirma Carlos Tavares.

Na cápsula ou no prato?

Para os especialistas, a suplementação tem uma vantagem: o óleo seria padronizado e você teria a garantia de obter a quantidade certeira de seus componentes ativos. Se não encontrar uma marca confiável nas farmácias — por enquanto, é mesmo difícil —, você pode formular, nas dosagens indicadas por um nutricionista, de preferência que entenda de fitoterapia.

E na alimentação? "O problema é que, quando se trituram as sementes para fazer o colorau, sempre há um pouco de perda no óleo. Por isso todo mundo precisa ser orientado a usar quantidades um pouco maiores do que aquelas que a gente consome buscando apenas colorir a comida", dá a dica o professor Tavares.

O professor sugere o ingrediente para molhos de salada e explica a razão: "Dessa forma, ele não é submetido ao calor excessivo, que pode levar à perda de parte de seus princípios ativos". A alternativa seria acrescentar o famoso colorau ou o óleo de urucum bem na etapa final de preparação do prato.

Para a nutricionista Vanderlí, o ideal seria consumir 10 gramas diariamente de um bom pó de urucum para obter os benefícios elencados pelos estudos. Vamos combinar que é bastante: entre 3 e 4 colheres de chá. Se não conseguir chegar a tanto, ao menos inclua o urucum no cardápio do dia a dia. Sempre poderá ganhar uma pitada a mais de saúde.