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Blog da Lúcia Helena

Respostas para dúvidas que você pode ter nessa confusão toda sobre vacinas

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Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

10/12/2020 04h00

Se, por acaso, a primeira pergunta que você tem na cabeça é aquela que também tenho na minha —"e, aí, quando finalmente teremos uma vacina para tomar?" —, ah, então esqueça...Nenhum dos quatro médicos que procurei sabe a resposta. Seria preciso descontaminar a ciência dos interesses políticos, acabando com a brincadeira fora de hora de cabo-de-guerra, para alguém esboçar com um mínimo de seriedade um calendário factível e acender a luz no fim desse nosso túnel.

No entanto, é possível desfazer outros nós que o assunto dá nos nossos neurônios e que notícias desencontradas ou falas distorcidas fazem o favor de apertar. Será que essas vacinas são seguras mesmo ou elas podem nos fazer algum mal? Será que vão funcionar para todo mundo ou haverá gente adoecendo mesmo depois de vacinada? Vamos precisar nos vacinar contra a covid-19 a cada ano? Se eu receber a vacina de um tipo, poderei tomar outro tipo depois? Entre as alternativas de imunizantes que estão nos noticiários, qual seria a melhor de todas?

Talvez não exista uma resposta fechada para tudo, na linha do sim-ou-não, do essa-ou-aquela. Mas dá para esclarecer a quantas anda o conhecimento sobre esses imunizantes que estão por aí.

1. A vacina da Pfizer provocou reações alérgicas fortes em duas pessoas no Reino Unido. É para a gente ficar com medo?

"A gente deveria era ter medo da covid!", responde, sem qualquer rodeio, o hematologista Cármino Antonio de Souza, professor titular do departamento de Clínica Médica da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, que está deixando o cargo de secretário da saúde de Campinas no final deste mês.

"Reações adversas assim podem acontecer com qualquer fármaco, provocadas por algum de seus componentes ou até mesmo sem razão que a gente possa entender. Às vezes, podem ocorrer dependendo da dose também. Mas vamos deixar claro: desde sempre, no caso de vacinas, esses eventos são raros e, se acontecem, costumam ser facilmente controláveis."

Tudo bem que, logo depois de a gente olhar com inveja para as imagens dos idosos britânicos tomando a tão sonhada injeção, o anúncio de que a agência regulatória deles pediu para que as pessoas com histórico de alergias graves não se vacinassem foi um banho de água fria na euforia.

Mas, para infectologista Marcia Garnica, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, embora o alerta faça sentido, vale lembrar que as duas notificações foram de pacientes que, por já terem tido choque anafilático em outras ocasiões, chegavam a andar com injeção de adrenalina para cima e para baixo para reverter esse quadro, caso ele acontecesse.

"Pessoas com esse perfil poderiam ter uma reação dessas com qualquer vacina, provavelmente até com medicamentos comuns e, quem sabe, com alguns alimentos também", informa. Ou seja, na opinião da médica, até o momento não há motivo para grande preocupação.

2. Se podia acontecer, por que esse alerta não foi disparado antes?

Nem a Rainha da Inglaterra deve saber o motivo. Segundo a imunologista Cristina Bonorino, professora titular da UFCSPA (Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre ) e membro do comitê científico da Sociedade Brasileira de Imunologia, toda vacina costuma ser testada em pessoas notoriamente alérgicas antes de ser distribuída para essa população. "No entanto, alergia a vacinas foi um dos critérios de exclusão do estudo da Pfizer. Ou seja, não havia entre os voluntários nenhuma pessoa com histórico de reações alérgicas a vacinas", diz ela.

Ninguém vai discutir as razões para essa gente ter ficado de fora, no passo acelerado imposto pela pandemia. Mas, sim, o aviso das autoridades britânicas cai bem. E vale para a gente ficar de olho nesse possibilidade também.

3. Então, toda vacina oferece o risco de alguém passar mal em seguida?

"Qualquer vacina é, de longe, a intervenção mais segura que existe em Medicina", diz o imunologista Luiz Vicente Rizzo, diretor superintendente do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein, em São Paulo, e um dos coordenadores da Covid Brasil, a coalizão de cientistas de diversas instituições do país que estudam quais seriam os melhores tratamentos para a infecção provocada pelo novo coronavírus. "O risco de alguém ter uma reação alérgica tomando antibiótico é bem maior", completa.

Saiba: nas vacinas existentes hoje para outras doenças, a probabilidade de você ter de uma urticária ao temido choque anafilático é de um caso para cada 30 mil, 200 mil, 1 milhão de vacinados, conforme o imunizante. "Até mesmo naquela velha história de que algumas vacinas contêm proteínas do ovo, cá entre nós, a maior parte das pessoas com alergia a esse alimento vai tomar e não sentir ter nada", garante.

4. A CoronaVac, por ser feita a partir de um vírus morto que não pode causar doença alguma, seria uma vacina mais segura do que as outras?

A vacina da Pfizer e outras que estão chegando agora usam novíssimas tecnologias — em vez de um vírus morto ou de um vírus atenuado, como a ciência fazia até então, elas lançam mão do RNA do vírus ou de partículas semelhantes às dele, por exemplo. E o fato é que essa nova geração, com uma estratégia diferente para despertar o nosso sistema imunológico, nunca foi usada em larga escala.

Ora, se você vacina 60 mil pessoas, a probabilidade de um ou outro indivíduo ter problemas é menor do que a de você encontrar encrenca entre 200 milhões de pessoas imunizadas. Ter surpresas isoladas ao aplicar algo pela primeira vez em uma quantidade enorme de criaturas faz parte. É do jogo.

"A CoronaVac, por sua vez, é uma vacina clássica. Portanto, ela não é necessariamente mais segura do que as outras. Por ser feita do jeito como sempre desenvolvemos vacinas no passado, eu diria apenas que ela tem uma segurança mais conhecida no momento", explica Rizzo.

5. Por outro lado, por ser criada com uma tecnologia mais antiga, a CoronaVac seria menos eficiente do que as outras que estão chegando por aí?

Luiz Vicente Rizzo deixa claro que se trata de uma impressão pessoal, compartilhada por um grupo de seus colegas, mas não por todos os médicos: "As novas tecnologias parecem ter maiores chances de induzir uma imunidade celular", diz. "Se for isso, elas serão mais eficientes, sim", aposta.

Isso porque um vírus não costuma ficar circulando solto pelo nosso organismo. Seu lugar de predileção é dentro de uma célula, na qual se replica sem parar. E, quando ela estoura de tão cheia de suas cópias, essas réplicas logo invadem outra célula, continuando o seu processo de multiplicação. E aí é que está: anticorpos só conseguem agir do lado de fora, literalmente pegando um vírus no pulo, entre sair de uma célula e invadir a sua vizinha. E essa tática de barrá-lo no caminho não parece ser grande coisa no caso da covid-19.

Mais importante para nos defender, no caso dessa infecção pelo novo coronavírus, parece ser de longe a ação de células imunológicas chamadas linfócitos T, que são matadoras. No caso, destroem as células invadidas pelo Sars-CoV 2, acabando com a festa. As novas tecnologias para fabricação de vacinas podem deixar esses linfócitos, digamos, mais preparados para a guerra.

"Já uma vacina clássica induz principalmente a produção de anticorpos. Será que isso será suficiente no caso da covid-19?", Rizzo deixa a pergunta no ar. A resposta, como ele próprio lembra, levará um bom tempo. Para você ter ideia, os cientistas consumiram dez anos até desvendaram todos os aspectos do funcionamento da vacina do sarampo em nosso organismo.

"A tecnologia de uma CoronaVac é antiga, mas consagrada. Ela é tudo o que a humanidade fez até hoje e que deu certo", comenta o professor Cármino de Souza, da Unicamp. "Não tenho dúvida de que nos ajudará bastante nesse momento. No entanto, fico fascinado olhando para o futuro. Penso que as tecnologias que estão sendo testadas agora para combater a pandemia, como a do RNA mensageiro da Pfizer, irão possibilitar vacinas contra outras doenças e aperfeiçoarão as já existentes."

6. Para ser aprovada, uma vacina precisaria ter acima de 50% de eficiência. Isso não é muito pouco?

"Não existe uma vacina que proteja 100% uma pessoa", esclarece o professor Cármino de Souza. "E, de todo modo, não temos que pensar só na proteção individual, mas na coletiva", ele lembra. O que ele quer dizer: mesmo que a imunidade não ocorra em todos os indivíduos vacinados, aqueles em que o imunizante agir como esperado deixarão de transmitir a covid-19 para o outro, que eventualmente não saiu da vacinação assim tão protegido.

Ou seja, no final, esse número de corte mágico dos 50% é o mínimo para garantir que quase todo mundo sairá ganhando, direta ou indiretamente. Desde que, claro, a população compareça aos postos de vacinação quando as campanhas começarem. "E não é hora de a gente esperar mais", afirma o médico.

Segundo o hematologista, o ponto crítico seria a segurança. E disso podemos ter certeza: até o momento, todas as vacinas que estão em fases mais avançadas de estudos se mostraram seguras. "Não existe relato nos experimentos de um único paciente que tenha morrido por causa delas. É muito mais para isso que temos de olhar e não para eventuais diferenças de eficiência", opina o professor.

7. Já que a eficiência nunca é de 100%, é possível que uma pessoa já vacinada, se por acaso se infectar, desenvolva formas mais brandas da covid-19?

Luiz Vicente Rizzo conta que os dados sobre eficiência de uma vacina apontam a porcentagem de quem adoece e de quem não adoece. "E não dá para saber se os quadros são mais graves ou não." Mas a professora Marcia Garnica, da UFRJ, lembra que dá para ter um mínimo de esperança de que um medicamento menos eficiente poderia, ao menos, reduzir a incidência de casos graves. "Isso foi observado na vacina de Oxford e pode acontecer com outras", diz ela.

Para refrescar a memória, já que vivemos atordoados com notícias sobre vacinas e misturando todas elas na cabeça, os testes apontam que a tal vacina de Oxford tem uma eficiência média de apenas 70%. No entanto, ninguém do grupo que recebeu esse imunizante e que mesmo assim ficou doente chegou a morrer. Se foi coincidência ou não, só o tempo dirá.

8. É possível que uma vacina contra a covid-19 não funcione igual para todo mundo?

Não só possível, como o mais provável "Seres humanos são extremamente diferentes em suas respostas imunes. Por isso, algumas pessoas reagem melhor do que outras a determinadas infecções. E isso vale para as vacinas também", explica a professora Cristina Bonorino, da SBI.

Os especialistas chegam a dizer que a sua resposta imune é tão particular quanto a sua impressão digital. "A minha é diferente da sua, dependendo inclusive dos lugares onde vivi e das doenças que já tive. Existe uma espécie de assinatura única das células de defesa", explica o professor Rizzo.

Essa assinatura pode estar por trás inclusive de problemas ligados às vacinas em geral. "Uma em cada 1 milhão de pessoas que se vacinam contra febre amarela morre e até hoje não sabemos o porquê. Provavelmente tem a ver com isso", diz o imunologista do Einstein.

Apesar desse risco, continua compensando tomá-la, se alguém vive ou vai para alguma uma região onde há casos dessa doença. Simples: em um hospital de primeiríssima linha, uma pessoa com febre amarela tem 30% de probabilidade de morrer. E, se for internada em um lugar com menos condições, essa ameaça subirá para 90%. "Enfim, todo medicamento tem um risco embutido, que deve ser superado pelo risco de não usá-lo", nos ensina Rizzo.

9. Sem contar a questão da assinatura imunológica por trás de diferenças entre as pessoas, em tese os idosos responderiam pior a uma vacina contra a covid-19?

"Induzir a imunidade em idosos é sempre mais difícil, porque a capacidade das nossas defesas vai diminuindo com a idade", responde Rizzo. Claro que pode existir um senhor de 90 anos com células defensoras tinindo, mas é exceção.

E, como os idosos são justamente o principal grupo de risco, notícias assim deixam todo mundo ainda mais preocupado com seus pais e avós. "Não vale perder o sono por isso. Se as pessoas mais jovens ao redor de quem está na terceira idade forem vacinadas, essa pessoa acabará protegida", tranquiliza o doutor Rizzo.

De qualquer modo, fica a reflexão sobre a estratégia adotada no Reino Unido e em outros lugares que, sortudos, já planejam pra valer a vacinação em massa. Ninguém discute que os profissionais de saúde devem ser os primeiros na fila da injeção — não só porque são mais expostos, mas também porque, se caírem doentes, aí mesmo é que estaremos lascados.

Mas há quem pense, como o próprio Rizzo, que na sequência seria melhor vacinar os idosos profissionalmente ativos, isto é, mais, sujeitos à infecção nas ruas, deixando os aposentados para depois e priorizando em seu lugar, por exemplo, os cuidadores, a fim de criar em torno deles uma espécie de bolha. Um plano de vacinação exige inteligência.

10. Como saber se determinado grupo está respondendo bem à vacina?

O jeito será apostar e esperar. Pacientes imunossuprimidos por causa de uma doença ou do uso de certos medicamentos, por exemplo, em geral precisam de doses extras de imunizantes. E essa resposta — se serão necessárias ou não doses extras para eles, no caso da covid-19 — só teremos lá pelo final de 2022.

"Não adianta examinar a soroconversão, isto é, a produção de anticorpos para saber se a vacina funcionou", explica a professora Marcia Garnica. "Isso, aliás, só é feito para a vacina de hepatite B. Nas outras, o jeito é observar se as pessoas ficam doentes ou não com o tempo para ajustar os reforços " E, em uma pandemia, sem prazo para uma fase 3 com duração de longos anos, vamos apertar os parafusos do avião com ele em pleno voo.

O que já adianta outra discussão: não vamos nos livrar da covid-19 do dia para a noite a partir da aprovação de vacinas confiáveis. Viveremos uma transição. E, com a diminuição dos casos por causa dos imunizantes e dos cuidados de sempre no dia a dia, daremos um fôlego para a ciência acertar cada vez mais.

11. Se eu tomar uma vacina para a covid hoje, poderei tomar outra melhor amanhã?

Não dá para saber com segurança, como aponta Luiz Vicente Rizzo: "Afinal, nenhum estudo até o momento avaliou a combinação de vacinas para saber se, agindo juntas, elas produziriam reações adversas". Essa é mais uma resposta que só teremos em dezembro de 2022.

"Mas é provável que seja dê para tomar vacinas diferentes, sim, porque elas têm tecnologias diversas entre si e não agem nos mesmos pontos do sistema imunológico", especula o professor Cármino de Souza.

A professora Marcia Garnica concorda, porém acha que tomar uma segunda vacina está longe de ser uma opção no mundo real. "Até porque a pessoa não terá como saber se a primeira está agindo em seu organismo ou não. E o ideal é que sobrem doses desse ou daquele imunizante para a gente vacinar o maior número de pessoas", ela fala. Ou seja, na prática, ao chegar uma vacina aprovada até você, entregue o braço à picada e bote fé.


12. É possível que a gente precise tomar novas doses da vacina de ano em ano, como acontece com a da gripe?

A visita regular ao posto de vacinação a fim de reforçar as defesas contra o novo coronavírus é quase certa. Zebra será se for diferente. Primeiro porque já existem mais de dez cepas do maldito Sars-CoV 2 e ninguém tem bola de cristal para saber se uma delas irá sofrer mutações mais intensas no futuro.

"O vírus influenza, por exemplo, muda tanto de um ano para o outro que, se fosse um homem, passados 365 dias teria se transformado em um orangotango", compara Cármino de Souza. Ok, mas sejamos justos: não parece ser o caso do culpado pela covid-19. Ele é relativamente estável.

O problema, aqui, é mais outro. "A nossa memória imunológica não dura muito para quase todas as doenças respiratórias, mesmo que os vírus causadores delas não sofram mutações significativas", afirma Rizzo.

Marcia Garnica complementa contando que, nesse aspecto, os coronavírus são até piores: passado um prazo, é como se o organismo guardasse só uma leve memória deles. Então, melhor a gente aceitar desde já que teremos de nos vacinar de novo. Contudo, só depois de uns dez meses da estreia de uma vacinação em massa é que os cientistas terão maior noção do intervalo necessário, se será anual ou não.

13. Qual seria a vacina ideal para a covid-19?

"A vacina ideal para qualquer doença seria segura, barata, fácil de armazenar, em dose única, de preferência oral — e ela não existe", afirma o professor Rizzo. Portanto, minha gente, no perrengue que enfrentamos, nada de buscar a perfeição. Quando chegar a sua vez, não faça beicinho querendo a vacina do vizinho e pegue o seu lugar na fila. Mal essa atitude não lhe fará — lembrando que todas as vacinas aprovadas são seguras. E, se todo mundo tomar, a eficiência do imunizante em uns poderá compensar a sua ineficiência em outros.

Agora só falta a gente acabar com aquela brincadeira sem graça, a do cabo-de-guerra. Porque quem perde somos nós.