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Blog da Lúcia Helena

A era dos psicobióticos: o uso de bactérias para melhorar a saúde mental

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Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

29/10/2020 04h00

Se parar para pensar um pouquinho, ninguém se espanta com a intimidade entre a cabeça e a barriga. Ora, no fundo todo mundo experimentou o que a Medicina chama de eixo cérebro-intestino. Você até já deve ter sentido na carne do que estou falando — talvez uma cólica fisgando o ventre em um momento de nervosismo, um abdomen queimando de preocupação. Ou, quem sabe, em certo dia se viu embrulhado de tanta tristeza.

Nos quadros psiquiátricos pra valer, essas reações tendem a se tornar mais intensas. "Todos eles dão sintomas gastrointestinais, como náuseas e diarreias", observa o psiquiatra Kalil Duailibi, professor da Unisa (Universidade Santo Amaro), em São Paulo. O aparelho digestivo parece ter de engolir as nossas emoções e, acredite, a recíproca é verdadeira: os quase 40 trilhões de micro-organismos que habitam o nosso intestino produzem substâncias que, de um jeito ou de outro, afetam a nossa saúde mental, criando então uma via de mão dupla.

Essa constatação, que é muito recente para a ciência, descortina uma nova possibilidade no tratamento de transtornos como estresse, ansiedade, depressão e outros. E, na rotina do consultório, os psiquiatras já começam a lançar mão dela, receitando psicobióticos, que nada mais são do que suplementos de micro-organismos vivos capazes de afetar o funcionamento do sistema nervoso central.

Foi esse justamente o tema da apresentação do professor Duailibi durante a primeira edição do Diacordis, evento médico digital com mais de 3,2 mil participantes, criado para estreitar a conexão entre a cardiologia e a endocrinologia. Em um dos estudos que o psiquiatra comentou na ocasião, foram oferecidas bactérias específicas a indivíduos que haviam infartado. "É que muitos pacientes desenvolvem depressão ou passam a sofrer de crises de ansiedade depois de um ataque do coração", justificou o médico. "Mas o psicobiótico prescrito conseguiu evitar uma boa parcela desses quadros."

Quais seriam as bactérias para equilibrar a cabeça?

Nem vou apelar para a frase batida de que essa seria a resposta valendo 1 milhão, sabe qual é? Em um cenário em que 6% da população brasileira padece de depressão — e olha que esse era o cálculo antes desta pandemia enlouquecedora —, qualquer reforço à saúde mental ganha um valor inestimável.

Além disso, entre os componentes da microbiota do intestino, não é tão fácil descobrir quem faz o quê — e, atenção ao detalhe, quem faz o que em quem! A resposta a um suplemento de probióticos, ou seja, de micro-organismos vivos, pode variar muito de pessoa para pessoa. Digo mais, a reação muda até mesmo conforme o clima de onde ela está durante o tratamento e o tipo de alimentação.

No caso da ansiedade, por exemplo, um dos psicobióticos mais prescritos atualmente combina uma dupla — a Lactobacillus helveticus R0052 e Bifidobacterium longum R0175. A razão é simples: essas duas bactérias inquilinas das paredes intestinais estão entre as mais estudadas e parecem agir mais ou menos da mesma maneira na maior parte dos pacientes, sem grandes discrepâncias nos efeitos esperados. Agem comprovadamente no estresse e na ansiedade e, como a pessoa ansiosa tende a ter insônia e a evoluir para uma depressão, elas acabam melhorando o sono e prevenindo a tristeza sem fim.

Talvez pense que eu poderia poupá-lo dos nomes tão longos da dupla que, ainda por cima, são complementados por números. Engano. "Um único algarismo pode mudar tudo", avisou aos seus colegas o gastroenterologista Ricardo Barbuti, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, que também participou da discussão sobre ouso de psicobióticos no Diacordis. "Seria como comparar um pastor alemão e um chiwawa", ele disse. "Ambos são cachorros, mas têm tamanhos, aparência e temperamentos bem diferentes."

Portanto, eu não posso publicar que quaisquer lactobacilos, nem que quaisquer bifidobactérias melhorariam o estado de quem se sente terrivelmente agitado. "Aliás, alguns autores dizem que, às vezes, comparar cepas diversas de uma mesma bactéria intestinal seria quase como colocar lado a lado um homem e um peixe", foi o que o doutor Barbuti me contou depois.

Nas entrelinhas, o recado está dado: a automedicação de um psicobiótico é capaz estraçalhar de vez com a paz de espírito ou com a alegria de viver. No mínimo, não vai funcionar. Na pior das hipóteses, as bactérias recém-chegadas ao intestino graças ao suplemento vão competir com outras que estavam ali, na tal conexão com o cérebro, ajudando o indivíduo a segurar a barra. Aí, será tiro no pé. Nem ouse!

Segundo Barbuti, para determinarem quais bactérias são as mais indicadas para cada perfil de paciente, os cientistas fazem testes na base de tentativa e erro, sempre que observam que pessoas com maior proporção de determinado micro-organismo são menos estressadas ou menos deprimidas, por exemplo.

Complemento da medicação convencional

"Mas é bom informar que, até o momento, nenhum psicobiótico substitui o remédio antidepressivo. Não se pode arriscar, já que a depressão é uma doença capaz de se tornar muito grave e perigosa", alerta o gastroenterologista. "Os suplementos de micro-organismos são um complemento para ou melhorar os resultados do tratamento ou, em alguns casos, permitir uma diminuição na dose da medicação, o que é bom, porque ela que sempre traz efeitos colaterais."

Diga-se de passagem que os dois médicos, Barbuti e Duailibi, lembraram durante a apresentação que 25% dos remédios que tomamos provocam alterações importantes na microbiota — e praticamente 100% deles, se olharmos só para os antidepressivos. "Ainda não sabemos detalhes sobre como cada medicamento afeta a microbiota, mas faz sentido a interferência. Alguns sabidamente secam o muco intestinal e isso deve atrapalhar os micro-organismos", explica o professor Duailibi.

"Não são necessariamente mudanças nocivas sempre", complementa o doutor Ricardo Barbuti. "Pode ser que parte do efeito de um antidepressivo venha do fato de ele mexer com a microbiota e, daí, ela também passaria a ajudar na melhora do ânimo e do humor", especula.

O professor Kalil Duailibi concorda que os psicobióticos não devem ser receitados sozinhos na maioria dos casos, mas é capaz de vislumbrar uma exceção: "Existem pessoas que precisam de tratamento para algum transtorno mental e, no entanto, não querem de jeito algum tomar medicação psiquiátrica. Nesses casos, podemos discutir se não topariam se tratar com psicobióticos", diz.

Os resultados, fique claro, demoram mais tempo para aparecer. Enquanto, em geral, um remédio contra a depressão ou contra a ansiedade começa a apresentar efeitos a partir da primeira ou da segunda semana, os psicobióticos costumam levar de duas a oito semanas para mostrarem sua ação no humor. "Os estudos, porém, demonstram que eles podem ser extremamente eficazes em determinados pacientes, mesmo quando comparados aos fármacos tradicionais", garante o professor Duailibi.

Por trás da mente abalada

O psiquiatra conta que a tão sonhada mente equilibrada é, na realidade, um equilíbrio de peças. A primeira delas seria o fator genético. Assim, quem vem de uma família com vários casos de transtorno de ansiedade, por exemplo, já nasce com uma vulnerabilidade maior a acabar com esse quadro também.

Outra peça seria tudo o que acontece ao longo do nosso desenvolvimento. "Alguém que passou por traumas na infância piora muito, por assim dizer, aquela fragilidade mental provocada pela genética."

A terceira peça seriam os malditos estressores do dia a dia — do trânsito ao saldo no banco, passando por conflitos no trabalho e tudo mais. "Quem não tem aquela tendência genética à ansiedade, provavelmente vai lidar com os problemas do cotidiano de uma maneira mais tranquila, enquanto quem tem as outras peças poderá explodir de nervoso", exemplifica o psiquiatra.

O quarto elemento poderia ser a microbiota. "Já sabemos que determinadas cepas de bactérias, em experiências em animais, aumentam a irritabilidade. Eles ficam agressivos, querendo comprar briga", descreve o professor. "Uma das metas de quem pesquisa psicobióticos seria descobrir micro-organismos capazes de neutralizar essas outras bactérias."

Um outro efeito desejável seria diminuir as inflamações. Sim, porque até nas questões emocionais existe muita inflamação por trás. "Em estudos clínicos com voluntários, depois de eles consumirem bactérias capazes de atenuar o estado inflamatório, notou-se menos hormônios relacionados ao estresse em circulação e uma menor ativação de áreas ligadas à ansiedade no cérebro", conta Kalil Duailibi.

Não caia na balela de examinar sua microbiota

Há gente por aí oferecendo testes para você saber a quantas anda sua microbiota. "Esses exames são interessantes para estudos. Mas, na prática clínica, são inúteis", afirma Ricardo Barbuti.

Para começo de conversa, os cientistas falam em disbiose quando encontram uma microbiota em desequilíbrio, com uma quantidade menor de bactérias ditas boas ou com menor variedade de micro-organismos.Tem isso, sim. Acontece que o conceito de disbiose também se aplica a quem tem uma microbiota não tão bem ajustada ao lugar onde vive. E, nesse sentido, o que seria desequilíbrio para uns seria perfeito equilíbrio para outros, o que nenhum teste nem especialista com o laudo na mão sabe diferenciar.

É possível que um africano vivendo no meio da savana tenha bactérias que o ajudem a obter o máximo de nutrientes das plantas. Para ele, isso é ótimo. Mas se as mesmas bactérias pudessem ser transferidas para alguém vivendo em uma metrópole, provavelmente essa pessoa iria engordar à toa. Nessa lógica, não tem como um exame afirmar que determinada microbiota não está adequada. Muito menos apontar que desequilíbrios favoreceriam os problemas mentais.

Uma coisa é certa: se você tem um transtorno mental, a sua microbiota está em disbiose. O que ainda não sabemos é se é a doença que está desequilibrando as populações de micro-organismos intestinais ou se esse desequilíbrio é que está causando a doença.

Para deixar tudo em ordem

Em tese, o psicobiótico equilibraria a situação dentro do intestino. Mas, para ter alguma certeza disso, só mesmo observando as reações paciente no dia a dia, já que — repito — nesse aspecto não serve para nada fazer exames na linha antes-e-depois. "E, por isso mesmo, os psicobióticos devem ser prescritos por médicos ou nutricionistas,que podem acompanhar as reações ", informa o professor Kalil Duailibi.

Ele lembra que há outros caminhos para ajustar os micro-organismos no intestino em prol da saúde mental. Um deles é ter uma dieta mais balanceada, com mais alimentos naturais no prato. "Há trabalhos mostrando que a alimentação não promove uma melhora da crise de depressão", ele dá o exemplo. "Mas, depois que o indivíduo se trata e sai dela, o consumo maior de alimentos integrais previne recaídas."

Outra boa medida é se dedicar à atividade física — sim, ela também mexe positivamente com as bactérias intestinais. "E tudo isso — o estilo de vida, a prática de meditação, o incentivo à espiritualidade, além dos próprios psicobióticos — deve ser considerado. Tratar os transtornos mentais só com remédios psiquiátricos, ao meu ver, é muito pobre", opina o médico. De fato, o ser humano é maior e mais complexo . E ainda carrega trilhões de inquilinos no intestino.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL