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Lucas Veiga

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Último mês do ano: estamos todes exaustos?

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Lucas Veiga

Lucas Veiga é psicólogo e mestre em psicologia clínica pela Universidade Federal Fluminense.

Colunista do UOL

07/12/2021 04h00

Chegamos ao último mês do ano. O que mais tenho escutado na clínica é que a sensação de cansaço extremo tem prevalecido sobre outras sensações que a proximidade das festas de fim de ano costumam produzir. Estamos todes* cansados, e não é para menos. Desde março de 2020 estamos tendo de lidar com os efeitos da pandemia globalmente, nacionalmente e na nossa esfera íntima. Foi preciso tanto esforço emocional para atravessarmos este período que a sensação de não ter mais forças e precisar parar um pouco afeta a todes e a cada um de maneira própria.

Ao longo deste ano, em que toda a população adulta foi vacinada ao menos com uma das doses da vacina, pudemos respirar um pouco mais aliviados, com um pouco menos de medo de adoecer ou de vir a perder alguém. A diminuição do medo, produzida pela eficácia da vacina e pela sua distribuição em larga escala pelo país, nos possibilitou retomar algumas atividades interrompidas, a encontrar mais com pessoas queridas, a circular mais pela cidade sem tanto risco. Enquanto sentimos que a pandemia, em alguma medida, se aproxima do fim, os efeitos dela ainda perdurarão em nós por um pouco mais de tempo.

Um desses efeitos é a exaustão tanto física quanto mental. Tivemos de lidar com tantas notícias difíceis de digerir, com tantos lutos, tantas inseguranças sobre o futuro que, agora que o futuro parece se desvelar no horizonte de maneira menos trágica do que os últimos 21 meses foram, nos falta energia. Ficamos numa posição ambígua de, ao mesmo tempo, desejar viver coisas que até pouquíssimo tempo atrás não eram possíveis e de sentir uma indisponibilidade, um desejo de não fazer nada.

Ouvir nosso corpo para podermos negociar com essa ambiguidade vai ser uma ferramenta de cuidado importante nesta reta final do ano de 2021. A reabertura dos espaços de sociabilidade pode gerar em nós uma convocação para ir a todos os eventos disponíveis na cidade, a reencontrar todos os amigos, a não ficar em casa no fim de semana, já que passamos meses a fio fazendo isso.

Entretanto, junto dessa euforia, percebo uma baixa na energia da maioria das pessoas e nos forçar a fazer determinada atividade simplesmente porque agora podemos, mesmo sem nos sentirmos em condições físicas ou mentais para tanto, pode intensificar mal-estares, ansiedades e a própria sensação de cansaço.

Perceba do que você está precisando e perceba também quais são as atividades que tem efeito reparador para você, no sentido de que produzem sensações de relaxamento, de leveza, de descanso.

Permita-se a pausa, permita-se descansar, permita-se renovar as energias para o novo ano que está por vir. Pode ser que esta autopermissão ao descanso implique em termos de dizer alguns 'nãos' para pessoas e situações, e se assim o for, permita-se dizer o não para poder vivenciar o descanso merecido de que precisa.

*A linguagem neutra, ou linguagem não binária, propõe uma modificação na língua portuguesa para incluir pessoas trans não binárias, intersexo e as que não se identificam com os gêneros feminino e masculino.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL