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Lucas Veiga

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Qual a relação entre saúde mental e política?

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Lucas Veiga

Lucas Veiga é psicólogo e mestre em psicologia clínica pela Universidade Federal Fluminense.

Colunista do UOL

02/11/2021 04h00

Uma das coisas que o momento em que estamos vivendo deixou evidente é que o sofrimento psíquico é um problema político. Sintomas como ansiedade, depressão, compulsões, insônia e burnout estão cada vez mais presentes na clínica. Mas não podemos escutá-los como quadro de saúde mental de determinado/a paciente. Estes sintomas são produtos da situação que estamos vivenciando, efeitos diretos na saúde mental das pessoas provocados pelo contexto sociopolítico.

Se o adoecimento psíquico é efeito de como a sociedade é organizada e gerida, a promoção de saúde mental só é verdadeiramente efetiva quando novos modos de organização social e político são construídos. É neste ponto que a clínica e a política se encontram. Por mais fundamentais que sejam as terapias de cuidado como psicoterapia, ioga, meditação e afins, elas são insuficientes quando se trata, por exemplo, de pessoas em situação de extrema vulnerabilidade social. Não há terapia capaz de reduzir a ansiedade de uma mãe que não sabe se vai ter comida para dar aos filhos. Promover saúde mental no Brasil passa, necessariamente, por redistribuição de renda e justiça social.

De igual modo, para que mudanças profundas no cenário político venham a se dar, é necessário uma nova mentalidade por parte da população, um novo modo de subjetivação, quer dizer, maneiras outras de pensar, sentir, desejar e ser com o outro e com a coletividade. E para isso, sem dúvida, as terapias têm muito a contribuir.

Se entendemos que o sofrimento psíquico é um problema político, podemos canalizar as forças que temos para a resolução do mal-estar que nos assola. Direcionar nosso enfrentamento para resolver o que nos adoece coletivamente é importante também para não canalizarmos nossas angústias nas nossas relações afetivas. Mitigar nossas possibilidades de articulação e vínculo com o outro faz parte do projeto de poder dominante. Estejamos atentos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL