PUBLICIDADE

Topo

Larissa Cassiano

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Entenda como funciona e as vantagens da cirurgia robótica para endometriose

A endometriose é caracterizada pela presença de tecido endometrial (conteúdo da menstruação) fora da camada interna do útero - iStock
A endometriose é caracterizada pela presença de tecido endometrial (conteúdo da menstruação) fora da camada interna do útero Imagem: iStock
Conteúdo exclusivo para assinantes
Larissa Cassiano

Larissa Cassiano é médica ginecologista e obstetra, especializada em gestação de alto risco pela USP (Universidade de São Paulo). Fez residência médica na Maternidade de Vila Nova Cachoeirinha (SP), uma das maiores do Brasil, referência em parto humanizado no SUS e em gestação de alto risco.

Colunista do VivaBem

06/04/2022 04h00

A endometriose é uma doença ginecológica crônica, caracterizada pela presença de tecido endometrial (conteúdo da menstruação) fora da camada interna do útero, o local que habitualmente o tecido deveria estar.

Há várias teorias sobre a causa exata da condição e como ela acontece, mas sabemos que é uma doença intimamente ligada ao hormônio estrogênio. Essa ligação hormonal é, sem dúvida, um dos motivos pelos quais a endometriose é uma doença tão complexa e diversa. Isso porque, quando falamos de alterações hormonais, sabemos que isso é algo que pode acometer e alterar todo o organismo, não apenas um único órgão.

Para algumas pessoas, os sintomas da endometriose podem iniciar ainda na adolescência, com queixas que muitas vezes são desconsideradas: cólica menstrual, dor durante a penetração vaginal, dor pélvica crônica fora da menstruarão, alterações intestinais (como prisão de ventre) e dor para urinar.

O diagnóstico pode ser feito com ultrassom transvaginal com preparo intestinal, que facilita a visualização de focos de endometriose. Esse exame é diferente do ultrassom transvaginal de rotina que, por não ser específico, pode não diagnosticar a endometriose. A doença também pode ser identificada pela ressonância da região pélvica e a laparoscopia, procedimento cirúrgico que visualiza diretamente os focos da endometriose.

A definição do tratamento está ligada a diversos aspectos, como os sintomas, grau de acometimento e desejo de engravidar. Após analisar tudo isso, o profissional de saúde, em conjunto com a paciente, pode escolher a melhor opção, com o objetivo de reduzir a dor, controlar o surgimento de novos focos e possibilitar a gestação para quem a deseja. Dentro dessas opções é possível utilizar hormônios, ajuste de dieta, terapias alterativas como o uso do canabidiol e cirurgia.

Cirurgia robótica

Dentre as possibilidades de cirurgia, hoje sabemos que a cirurgia que chamamos de minimamente invasiva, realizada por vídeo com pequenas incisões (que até uns anos atrás parecia coisa de seriado médico), é considerada a melhor opção de acesso, seja por via laparoscópica, seja robótica. A plataforma robótica é a tecnologia mais nova e tem alto custo —assim com a cirurgia laparoscópica.

Segundo o médico Rodrigo Fernandes, ginecologista, obstetra e embaixador da Sociedade Mundial de Endometriose, "o robô tem a possibilidade de anular movimentos bruscos, levando a maior estabilidade das pinças. O cirurgião trabalha sentado num console, dentro da sala cirúrgica, controlando pinças e câmeras. A equipe permanece ao lado da paciente, realizando trocas de pinças e algumas outras funções. Essas características dão mais conforto para a equipe, que pode permanecer sentada durante o procedimento, aguardando comandos do cirurgião principal. Esse fator é um diferencial em cirurgias longas e complexas."

A primeira cirurgia robótica no Brasil foi realizada em 2008, no Hospital Israelita Albert Einstein. De lá para cá, muitos profissionais foram treinados e a técnica tem sido cada vez mais utilizada.

Fernandes destaca que "a cirurgia robótica, que é uma forma de videocirurgia, divide muitos pontos semelhantes com a laparoscopia. Ambas são realizadas por pequenas incisões, por onde passam câmera e instrumentais. A visão aumentada e de altíssima qualidade permite ao cirurgião enxergar melhor, o que tornou a cirurgia minimamente invasiva padrão ouro para tratamento cirúrgico de endometriose profunda.

A cirurgia robótica evoluiu muito nos últimos anos. Algumas vantagens em cirurgias de endometriose em relação à laparoscopia convencional são a visão 3D. Outra característica é a possibilidade de articulação dos movimentos, semelhante ao punho da mão, facilitando o acesso a locais mais difíceis. A diminuição de tremores pode ser fator diferencial quando o cirurgião está trabalhando em regiões delicadas e profundas. Vale ressaltar que nas mãos de equipes experientes, ambas as técnicas trazem excelentes resultados, deixando a preferência a critério do cirurgião durante a avaliação individual de cada paciente".

É possível fazer cirurgia robótica na rede pública?

Para as pacientes que desejam realizar o procedimento por cirurgia robótica, Rodrigo Fernandes ressalta que, no Brasil, alguns serviços públicos já possuem plataformas instaladas, e isso vem se tornando cada vez mais comum, por meio de doações de entidades privadas e/ou vinculadas a projetos de pesquisas fomentados por instituições governamentais.

Para quem tem convênio médico, vale saber que ainda não existe registro na ANS e a cobertura pelos planos de saúde ainda não é feita, mas os médicos solicitam aos planos de saúde a cirurgia laparoscópica com adendo ao hospital, solicitando o uso da plataforma robótica. Toda plataforma robótica tem alto custo de aquisição e manutenção anual. Para cada cirurgia existe uma taxa extra que é repassada para as pacientes antes da cirurgia. Alguns hospitais isentam as pacientes da taxa de uso dependendo do porte da cirurgia.

Gostou deste texto? Dúvidas, comentários, críticas e sugestões podem ser enviadas para: dralarissacassiano@uol.com.br.

Referências:

Podgaec S, Caraça DB, Lobel A, Bellelis P, Lasmar BP, Lino CA, et al. São Paulo: Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO); 2018. (Protocolo FEBRASGO - Ginecologia, no. 32/ Comissão Nacional Especializada em Endometriose).