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Larissa Cassiano

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Gestantes podem comer peixe cru? E ter gato?

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto
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Larissa Cassiano

Larissa Cassiano é médica ginecologista e obstetra, especializada em gestação de alto risco pela USP (Universidade de São Paulo). Fez residência médica na Maternidade de Vila Nova Cachoeirinha (SP), uma das maiores do Brasil, referência em parto humanizado no SUS e em gestação de alto risco.

Colunista do UOL

30/03/2022 04h00

Provavelmente você já ouviu histórias que gestantes não podem ter gato e comer peixe cru. É muito comum ouvir isso, mas você sabe por que isso é tão falado?

Antes de tudo, preciso ressaltar que gestantes podem ter gatos e podem comer peixe cru, o ponto é que os gatos realizem acompanhamento veterinário de rotina e que os alimentos sejam bem acondicionados, preparados e, no caso das carnes, de preferência que elas sejam congeladas antes do consumo.

Todo esse medo e histórias estão relacionados com a toxoplasmose, uma das zoonoses mais conhecidas no mundo e com potencial para causar alterações fetais. É causada pelo Toxoplasma gondii, um parasita de dentro da célula que acomete homens e animais.

Nas pessoas sem doenças ou condições que alterem a imunidade, não costuma trazer consequências, porém, quando afeta uma gestante, pode causar infecção com acometimento fetal.

A transmissão pode ocorrer por água, vegetais, frutas, alimentos contaminados pelas fezes de gatos infectados, ingestão de carnes cruas ou malcozidas e da mãe para o feto, ou seja, não são só as fezes do gato e nem é só a carne crua.

As frutas, verduras e legumes também podem ser uma fonte de contaminação, por este motivo é importante manter todo cuidado e higiene ao manipular os alimentos, principalmente os que são comidos com casca e a água deve ser sempre potável.

Dicas para evitar a possibilidade de contaminação:

- Não beber água não filtrada;

- Lavar corretamente frutas, legumes e verduras antes de consumir;

- Congelar carnes antes do consumo reduz a viabilidade do toxoplasma na carne;

- Lavar as mãos após manipular carne crua e verduras;

- Evitar produtos embutidos e carnes curadas que também podem conter o parasita

- Usar luvas para mexer na terra;

- Para quem possuir gato evitar que o mesmo coma carne crua ou tenha contato com gatos de rua;

- Se forem manusear os locais com fezes do gato, usar luvas durante o processo e após lavar bem as mãos.

As gestantes frequentemente não possuem sintomas ou apresentam sintomas leves, apenas 10% apresentam sintomas como linfonodos aumentados (conhecidos como ínguas) que costumam desaparecer espontaneamente, sintomas gripais, febre e dor no corpo.

Alguns sintomas que podem facilmente passar desapercebidos ou que muitas vezes são tratados como um quadro gripal.

A possibilidade de transmitir toxoplasmose para o feto aumenta com o avançar da idade gestacional, antes da 15ª semana, a taxa de transmissão é em torno de 5%, podendo chegar a 80%, próximo do final da gravidez, porém quanto mais precoce, mais grave pode ser.

A infecção do feto ocorre após o acometimento da placenta, por este motivo infecções mais tardias tendem a ser mais brandas, pois o tempo entre a infecção materna, acometimento da placenta e depois do feto é menor.

Quando o feto é acometido pode ocorrer abortamento, óbito, alterações cerebrais, hidrocefalia, peso abaixo do esperado, prematuridade, alterações na retina e alteração do desenvolvimento neuropsicomotor.

Sabendo que os sintomas podem ser leves ou não aparecerem, é recomendado que todas as gestantes realizem a pesquisa para toxoplasmose na primeira consulta de pré-natal com pesquisa de anticorpos IgG e IgM.

A gestante que apresenta somente anticorpos da classe IgG é considerada imune, ou seja, ela já foi infectada anteriormente e nesta gestação não tem indicação para outros exames.

Já as que apresentam os anticorpos IgM positivos tem a possibilidade de infecção recente, mesmo sabendo que a presença de IgM não é diagnóstico definitivo de infecção aguda é necessário a realização de novos exames na tentativa de estimar o momento da infecção.

Como se trata de exames que consideram diversas variáveis, como tempo, valor e idade gestacional, é recomendado sempre a conversa com um profissional de saúde para elucidar de forma correta o diagnóstico.

O tratamento da toxoplasmose na gestação envolve a espiramicina, que tem ação na placenta e reduz a taxa de transmissão para o feto e é feita nos casos em que o feto não foi infectado ou até que se faça investigação mais específica. Já quando a infecção fetal é confirmada, está indicado o tratamento com sulfadiazina, pirimetamina e ácido folínico.

Gostou deste texto? Dúvidas, comentários, críticas e sugestões podem ser enviadas para: dralarissacassiano@uol.com.br.

Referências:

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Abamecha, Fira. and Awel, Hasen. Seroprevalence and risk factors of Toxoplasma gondii infection in pregnant women following antenatal care at Mizan Aman General Hospital, Bench Maji Zone (BMZ), Ethiopia. BMC Infectious Diseases (2016) 16:460.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Gestação de alto risco: manual técnico / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. - 5. ed. - Brasília : Editora do Ministério da Saúde, 2012;
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Montoya, J. G.; Remington, J. S. Management of Toxoplasma gondii infection during pregnancy. (S.l.), v. 47, p. 554-566, 2008.