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Larissa Cassiano

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O surto atípico de influenza: quem deve ficar mais atento e o que fazer

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Larissa Cassiano

Larissa Cassiano é médica ginecologista e obstetra, especializada em gestação de alto risco pela USP (Universidade de São Paulo). Fez residência médica na Maternidade de Vila Nova Cachoeirinha (SP), uma das maiores do Brasil, referência em parto humanizado no SUS e em gestação de alto risco.

Colunista do UOL

22/12/2021 04h00

Recentemente temos visto cenas atípicas nos prontos-socorros de São Paulo, filas de espera de 4 a 8 horas para atendimento, isso entre pronto-atendimento de adultos, crianças e obstétrico, tanto em hospitais públicos quanto privados, todos recebendo um aumento significativo no número de casos de infecções respiratórias.

O surto de influenza que assusta o Rio de Janeiro está se espalhando pelo país de uma forma inesperada e em um momento atípico. Conversando com profissionais de diversas especialidades, notei que a maioria tem visto esse aumento, mas com o contraponto de que felizmente a proporção de casos graves não acompanha o número de pacientes infectados.

Embora isso não signifique que não existam casos graves ou que eles não devam ser considerados, o que tem se observado é que parte dos casos leves, que talvez pudessem ser resolvidos em casa, tem ido ao pronto-socorro. Porque, afinal de contas, estamos em meio a uma pandemia de covid-19 que tem sintomas parecidos.

Ao longo da vida, as pessoas podem ser acometidas diversas vezes e de diferentes formas pelo vírus influenza. A transmissão pode ocorrer por secreções, gotículas ou por contato direto, com regiões como a boca. Quem se infecta pode apresentar febre (com duração de cerca de três dias), tosse, dores de cabeça e musculares, coriza e mal-estar.

Entre a população, alguns grupos possuem maior risco de doença grave e complicações: idosos, gestantes, puérperas e crianças menores de 5 anos. Como medida preventiva a vacinação é a forma mais efetiva, recomendada pela OMS (Organização Mundial da Saúde) para idosos, gestantes, crianças de seis meses a cinco anos, indivíduos com condições/doenças crônicas e profissionais de saúde.

Os sintomas podem levar a um mal-estar que impacta significativamente nas atividades do dia a dia, mas geralmente não são graves e duram aproximadamente uma semana. Os casos graves podem evoluir para pneumonia bacteriana, sinusite, otite, desidratação, piora das doenças crônicas preexistentes, em que a internação poderá ser necessária.

Para compreender um pouco mais sobre o surto de influenza, que talvez se intensifique em São Paulo, conversei com Fernanda Catharino, pediatra geral do Rio de Janeiro, e ela contou que o surto de gripe chegou ao Rio de forma completamente inesperada no início de dezembro.

Esse aumento levou a pesquisas que identificaram a variante darwin do vírus influenza A, que parece ter sido importada do Hemisfério Norte e causa febre, mialgia, cefaleia, coriza e prostração. Como medida preventiva, ela destaca que a pessoa deve ficar isolada por pelo menos 5 a 7 dias para não espalhar a infecção através de gotículas, tosse e espirros. Fernanda ressalta que tem visto febre alta e persistente por 2 a 3 dias, associada a tosse secretiva que pode persistir por até 2 semanas, entre as crianças.

De volta a São Paulo, a pediatra Danielle Vigiano conta: "Influenza A iniciou agora em surto, porém já estávamos vivendo um surto de mão pé boca e roséola (herpes vírus e Coxsackie) sendo vírus que cursam com febre alta. A sazonalidade viral este ano mudou de março para outubro, novembro e dezembro devido ao retorno ao convívio social, promovendo grande angústia às famílias dos bebês recém-nascidos. Aos que forem passar festas na casa dos familiares, os pais devem estar atentos."

E no meio de surto, como podemos diferenciar quadros de covid e influenza?

Ricardo Siufi, pneumologista, traz alguns pontos: "A covid-19 parece se espalhar mais rapidamente que a influenza, no entanto, com o avanço do esquema vacinal para covid-19 na população, observamos uma tendência a queda. Quando comparada à gripe causada pelo vírus influenza A, a covid-19 tende a causar doença grave em uma maior proporção dos pacientes infectados. Já o período de incubação é mais rápido, em geral, 3 dias. Por isso, os surtos pelo vírus influenza tendem a ter um comportamento explosivo. Na covid, temos um período de incubação um pouco maior."

Em meio ao medo de que muitas pessoas podem ficar, observar o quadro é fundamental, mas saber quando procurar atendimento médico também é muito importante e Ricardo destaca quando isso deve ser feito:

1. Pacientes com sinais de gravidade - febre persistente, tosse com expectoração purulenta, evidência de outras infecções bacterianas, falta de ar ou desconforto respiratório e pacientes com sintomas sugestivos de exacerbação da doença de base.

2. Pacientes dos grupos de risco, que estão sob risco de evolução para formas mais graves da doença e, eventualmente, os pacientes serão testados e avaliados e, de acordo com o julgamento clínico, medicados com tratamento antiviral —pacientes nos extremos de idade, gestantes, portadores de doenças respiratórias, cardiovasculares, nefrológicas e hepatológicas, entre outras.

Para evitar a infeção, os cuidados que aprendemos com a covid-19 devem ser mantidos: distanciamento social, uso de máscaras e álcool para higienização. Neste momento em que mais uma vez aguardamos por uma vacina, o cuidado é a melhor prevenção.

Gostou deste texto? Dúvidas, comentários, críticas e sugestões podem ser enviadas para dralarissacassiano@uol.com.br.

Referências:

Sato, Ana Paula Sayuri et al. Cobertura vacinal e fatores associados à vacinação contra influenza em pessoas idosas do Município de São Paulo, Brasil: Estudo SABE 2015. Cadernos de Saúde Pública [online]. 2020, v. 36, n. Suppl 2 [Acessado 20 dezembro 2021] , e00237419. Disponível em: doi.org/10.1590/0102-311X00237419>. Epub 31 Ago 2020. ISSN 1678-4464. https://doi.org/10.1590/0102-311X00237419.

Azambuja, Humberta Correia Silva et al. O impacto da vacinação contra influenza na morbimortalidade dos idosos nas regiões do Brasil entre 2010 e 2019. Cadernos de Saúde Pública [online]. 2020, v. 36, n. Suppl 2 [Acessado 20 Dezembro 2021] , e00040120. Disponível em: doi.org/10.1590/0102-311X00040120>. Epub 20 Nov 2020. ISSN 1678-4464. https://doi.org/10.1590/0102-311X00040120.