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Larissa Cassiano

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Educação sexual não decide a sexualidade, mas traz conhecimento

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Larissa Cassiano

Larissa Cassiano é médica ginecologista e obstetra, especializada em gestação de alto risco pela USP (Universidade de São Paulo). Fez residência médica na Maternidade de Vila Nova Cachoeirinha (SP), uma das maiores do Brasil, referência em parto humanizado no SUS e em gestação de alto risco.

Colunista do UOL

31/08/2021 04h00

Sabemos que a educação sexual muitas vezes não é fornecida nas escolas e por familiares, atualmente existe uma corrente ideológica contrária a esse acesso de informação, com isso a "educação sexual" que as pessoas têm em seu primeiro contato é com filmes pornográficos.

Entretanto, os filmes pornográficos trazem aquela ideia de relações intensas, posições diferentes, pênis enormes, penetrações que chegam a 30 minutos de duração "ininterruptas", e que podem ser o gatilho para que muitas pessoas entendam que esse é o comum a toda a sociedade. Afinal de contas, mesmo sabendo que os filmes não expressam a realidade em diversas situações, muitas vezes faltam referências do que é fisiológico, o que é esperado e o que fazer diante, por exemplo, da dor durante a penetração.

Esse contexto de aprendizagem faz com que homens sejam mais agressivos nas relações e que mulheres tolerem mais essa forma agressiva na relação sexual, porém isso transcende a ideia de obter prazer. Isso gera um problema quando uma mulher está sendo violentada e não consegue sequer perceber o que está acontecendo.

Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), 1 a cada 3 mulheres já sofreram alguma violência sexual ou física. Uma das formas para que possamos combater tal problema de ordem mundial é a informação através da educação sexual, porém esta é combatida por alguns grupos chegando a criar notícias falsas com conteúdos absurdos, alegam que existem kits que induzem a sexualidade da criança.

Segundo Fabio Castro, psicólogo e professor, "a sexualidade, desde a infância, envolve o corpo e suas percepções sensoriais. As zonas erógenas (partes sensíveis do corpo) trazem prazer para nós e isso é parte do nosso desenvolvimento sexual. Ou seja, estamos falando de algo principalmente interno nesse momento, porém existem alguns ideais e fantasias que criamos sobre nós mesmos e que tentamos alcançar em nossas vidas, esses ideais nos fazem reprimir alguns desejos sexuais, pois acabamos entendendo que não seremos amados se não alcançarmos nossos ideais.

A partir das zonas erógenas e ideais que perseguimos vamos arranjando uma forma de existir assim reprimimos parte da nossa bissexualidade inata e nos identificamos com alguma forma de sexualidade. Nosso desenvolvimento sexual impossibilita afirmarmos que falar sobre qualquer tipo de sexualidade pode nos impor algo, como se fosse decidido pelo que está fora. Obviamente existe alguma influência ambiental, porém no final das contas todas as influências passarão por nosso crivo interno, que decidirá o que iremos reprimir ou nos permitir desfrutar em nossas vidas."

O que consigo perceber no contato com as mulheres é que a falta de uma educação sexual mais consistente em nosso país não é a preservação da sexualidade, mas, sim, a preservação de um estado machista onde o homem continua conseguindo promover formas de violência contra a mulher e ainda manipulando-a para que ela se sinta culpada pelo que houve, ou fazendo-a entender que se ela está casada tem obrigação de ter relações sexuais sempre que o marido quiser.

O sexo não consentido é uma violência em qualquer situação, mesmo que alguns ainda insistam em acreditar que no relacionamento exista algum tipo de obrigação de relações.

Educação sexual não serve para decidir a sexualidade de alguém, mas, sim, para orientar e trazer conhecimento para que a pessoa tenha compreensão sobre o que está acontecendo com ela nas suas relações sexuais e possa se defender, caso seja necessário.

Se alguém é contrário a isso devemos refletir sobre qual a real intenção de alguém não querer que as pessoas tenham ciência sobre o que está acontecendo com elas.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL