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Larissa Cassiano

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Problemas de fertilidade são mais frequentes do que muitas pessoas imaginam

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Larissa Cassiano

Larissa Cassiano é médica ginecologista e obstetra, especializada em gestação de alto risco pela USP (Universidade de São Paulo). Fez residência médica na Maternidade de Vila Nova Cachoeirinha (SP), uma das maiores do Brasil, referência em parto humanizado no SUS e em gestação de alto risco.

Colunista do UOL

27/07/2021 04h00

Vivemos em uma sociedade em que uma das primeiras perguntas feitas a um casal recém-casado é: "Quando vêm os filhos?".

Mas e quando ele não vêm? Não por opção, mas porque eles simplesmente não vêm, para muitos casais isso os leva a um lugar de isolamento em que muitas pessoas próximas não compreendem e nem têm empatia para tentar compreender.

Quem embarca no mundo das tentativas para uma gestação descobre o quanto algo que parece tão natural pode ser complexo, solitário e demorado. Diferente do desejo um ciclo regular, espermatozoides e tentativas nem sempre resultarão em um bebê.

Problemas de fertilidade são mais frequentes do que muitas pessoas imaginam. Segundo dados da Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva (ASRM), cerca de 10% da população em idade fértil apresenta alguma dificuldade para engravidar.

Embora a infertilidade não seja uma patologia que gera riscos à vida, pode levar a questões familiares, psíquicas, emocionais e sociais, e não deve ser negligenciada. É considerado infértil o casal que após um ano de relações sexuais frequentes sem método contraceptivo não consegue engravidar.

Mas qual a causa?

Elas são divididas entre as questões femininas e masculinas, porém sempre devemos investigar o casal e considerar que a infertilidade é do casal, pois juntos eles não alçam a gestação.

Entre as principais causas temos: 35% de causas masculinas, 35% relacionadas a endometriose e alterações nas tubas, 15% causas ovarianas, 10% sem causa aparente e 5% outras causas.

Após esse período de tentativas, é importante realizar uma investigação completa, não apenas com exames de rotina básica. É muito frequente que casais busquem auxílio com profissionais que não são especializados em Reprodução Humana, façam pesquisas mais simples e não cheguem a uma causa, isso é recorrente porque infelizmente alguns desses exames não são cobertos por planos de saúde e pelo SUS.

Para pessoas ou casais que não chegaram a uma gravidez espontaneamente, as técnicas de reprodução assistida podem auxiliar.

Para tirar todas as dúvidas, Maitê Covas, ginecologista e obstetra com atuação em medicina reprodutiva e médica da Theia, clínica de atenção à gestante, responde as principais dúvidas sobre o tema:

Quando um especialista deve ser procurado?
Mulheres com menos de 35 anos que estejam tentando engravidar há mais de 12 meses, mulheres com mais de 35 anos com pelo menos 6 meses de tentativas, pacientes que serão submetidas a cirurgias pélvicas ou quimioterapia também se beneficiam de uma avaliação com o especialista antes destes procedimentos.

Vale lembrar que a reprodução assistida também é indicada para casais homoafetivos e pessoas sem parceiro que buscam uma gestação.

Quais as principais formas de tratamento?
Os principais tratamentos de reprodução assistida são: coito programado, inseminação intrauterina e fertilização in vitro.

Para deixar mais claro, dividimos os tratamentos em baixa e alta complexidade. Na baixa complexidade (coito programado e inseminação intrauterina) o encontro do óvulo e do espermatozoide vai acontecer no corpo da mulher (nas trompas). Na alta complexidade (fertilização in vitro) a fecundação ocorre em laboratório e o embrião formado é introduzido no útero.

No coito programado, é possível acompanhar a ovulação da mulher através de ultrassonografias em diferentes fases do ciclo menstrual para indicar ao casal o melhor momento para ter relações sexuais. É possível acompanhar um ciclo menstrual natural ou utilizar medicamentos para estimular a ovulação.

Na inseminação intrauterina também é feito o controle ultrassonográfico da ovulação (associado ou não ao uso de medicamentos para estimular os ovários). Em momento oportuno, injetamos o sêmen preparado em laboratório diretamente no útero, facilitando a chegada dos espermatozoides nas trompas.

No caso da fertilização in vitro, são usadas medicações para estimular a ovulação e o processo é acompanhado com ultrassons transvaginais para definir o momento da coleta de óvulos (procedimento realizado sob anestesia, guiado por ultrassom).

Após o procedimento, os óvulos maduros são fertilizados com os espermatozoides, no laboratório, formando os embriões que serão transferidos para o útero da paciente.

Os médicos orientam um limite de tentativas entre as técnicas principais?
Não existe um número limite de tentativas para as principais técnicas. Porém, nos tratamentos de baixa complexidade (coito programado e inseminação intrauterina), sabemos que as chances de sucesso após o 3-4º ciclos são muito baixas. Sendo assim, quando há falha nessa linha de tratamento, é indicado partir para a fertilização in vitro (alta complexidade).

Para os homens, o andrologista é o especialista que deve ser procurado. Andrologista é o urologista especializado na investigação e tratamento da infertilidade e disfunções sexuais masculinas abordando a saúde do homem de forma integral.

Jorge Mendes, andrologista e urologista, explica: "Existem diversas causas de infertilidade masculina. A varicocele, sendo uma dilatação das veias testiculares, é a principal delas. Alterações hormonais por uso de anabolizantes, estresse, consumo de drogas como maconha e cocaína, síndromes genéticas, infecções sexualmente transmissíveis e estilo de vida não saudável também diminuem a produção e qualidade dos espermatozoides dificultando que a gravidez ocorra."

Ele ressalta que quando a causa da infertilidade é masculina o tratamento pode ser feito com medicamentos, melhora do estilo de vida e cirurgia, nos casos de varicocele. Já para casos com alterações mais graves, as técnicas de reprodução assistida podem ser uma opção.

O que todos os profissionais reforçam é que neste período de tentativas a alimentação possui um papel muito importante. Segundo a nutricionista Juliana Dal Bom, se o estilo de vida ainda precisa de algumas melhorias, o período pré-concepção é o momento ideal para implementá-las.

"Hoje conhecemos o impacto que as condições de saúde e nutrição prévias à concepção exercem na gestação e programação de saúde do bebê, inclusive a longo prazo. Ajustes alimentares e suplementação adequada favorecem o restabelecimento e manutenção de boas condições de saúde, bem como a fertilidade do casal. Dentre os ajustes alimentares, o principal é a melhora da qualidade da alimentação.

Para alguns casais esse período pode ser mais difícil para a parceira que precisa fazer exames que podem ser desconfortáveis, além de ajustar a alimentação, praticar exercícios, utilizar vitaminas enquanto alguns homens apenas realizam o espermograma, mas os parceiros podem buscar formas de participar e deixar esse momento mais tranquilo para que juntos alcancem a gestação".

Para finalizar, quero deixar vocês com a história da Abigail Minucci: "Foram 10 anos... Vários exames e consultas médicas na esperança de concretizar o sonho da gravidez. E, apesar de os exames nunca acusarem nada, não acontecia... Durante esse tempo, foram muitos sentimentos envolvidos: impotência, culpa, cobrança e tem as piadas. Enquanto para alguns casais é tudo tão simples, outros enfrentam uma dura batalha, a ponto de um sonho virar um pesadelo.

Por fim, quando deixamos toda aquela busca para trás, o tão sonhado positivo chegou. Simplesmente aconteceu!"

Gostou deste texto? Dúvidas, comentários, críticas e sugestões podem ser enviadas para: dralarissacassiano@uol.com.br.

Referências:

Tratado de reprodução assistida / Editores Artur Dzik, Dirceu Henrique Mendes Pereira, Mario Cavagna e Waldemar Naves do Amaral- 3. Ed., ampl. e atual- São Paulo: Segmento Farma. 2014.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL