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Larissa Cassiano

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Só engravida quem quer? Contracepção deve ser compartilhada pelo casal

Media for Medical
Imagem: Media for Medical
Larissa Cassiano

Larissa Cassiano é médica ginecologista e obstetra, especializada em gestação de alto risco pela USP (Universidade de São Paulo). Fez residência médica na Maternidade de Vila Nova Cachoeirinha (SP), uma das maiores do Brasil, referência em parto humanizado no SUS e em gestação de alto risco.

Colunista do UOL

20/07/2021 04h00

Essa ideia de que apenas mulheres que não se "protegem" engravidam está errada. Sim, algumas pessoas engravidam porque querem, tanto mulheres que não utilizam métodos contraceptivos quanto homens que se recusam a utilizar preservativo ou retiram-no durante o ato sexual sem o consentimento da parceira.

Mas existem outras que utilizam o método corretamente e engravidam, porque os métodos contraceptivos podem falhar e não engravida só quem quer, muito pelo contrário, a gravidez não está relacionada a desejo ou mérito, se fosse assim, clínicas de reprodução não teriam clientes.

A alta disponibilidade de métodos contraceptivos para utilização feminina faz com que muitas mulheres vivam o prazer associado a responsabilidade de utilizá-lo, sentindo o medo da falha, como se fosse responsabilidade feminina unicamente.

Anticoncepção são métodos ou técnicas criados com o objetivo de impedir que a relação sexual leve a uma gravidez, embora divididos entre itens para homens e mulheres eles dizem respeito a prática sexual, não devendo ser vistos como uma obrigação ou função de um ou outro, afinal de conta, as gestações que poderão ocorrer na ausência do método ou falha serão de responsabilidade de ambos.

Como alternativa à vasectomia e como forma de ampliar a disponibilidade de métodos contraceptivos masculinos, o RISUG (reversible inhibition of sperm under guidance) que traduzindo significa inibição induzida reversível de esperma, está sendo desenvolvido pelo Indian Institute of Technology.

Trata-se de um método contraceptivo masculino de longa duração, de uso interno em forma de gel, que pode ser aplicado com anestesia local no pênis alterando o esperma e com possibilidade de retorno da fertilidade em 2 meses.

Outra opção masculina é o undecanoato de dimetandrolona (ou DMAU, na sigla em inglês), uma pílula anticoncepcional masculina em análise que reduziu os níveis hormonais. Ambos se mostram promissores nos primeiros testes, porém ainda seguem sem data para lançamento.

Com esse cenário em que a camisinha masculina e a vasectomia são métodos masculinos de maior utilização, trazer os métodos femininos para a conversa e deixar todos juntos como métodos contraceptivos independentes de gênero pode auxiliar na compreensão geral sobre a falha deles sem a busca por um culpado.

Todos os métodos contraceptivos possuem taxas de falha, mesmo com seu uso correto, e essa falha é conhecida como índice de Pearl, que avalia o número de gestações em 100 mulheres que utilizaram determinado método por um período de um ano.

Entre os métodos mais seguros temos o implante, com taxa de falha de 0,05; vasectomia 0,1; DIU hormonal 0,2; laqueadura 0,5 e DIU de cobre 0,6.

Esses são os métodos com menores taxas de falha, porém pensando no número significativo de pessoas que utilizam é possível compreender, porque nos deparamos com histórias de pessoas que engravidaram após inserção do DIU ou laqueadura, a possibilidade de falha é baixíssima, mas possível.

Entre os outros métodos é possível destacar a pílula contraceptiva feminina, com taxa de falha de 0,3 casos em 100, a camisinha masculina 2 casos e o coito interrompido 4 casos se utilizados corretamente.

Neste grupo, a possibilidade de falha é maior, porém a camisinha feminina ou masculina podem ser uma opção de associação aos outros métodos, além do uso correto que é essencial para a eficácia.

Contraceptivos são seguros, porém, podem falhar, saber dessa possibilidade, conhecer as opções e possibilidade de associação entre os métodos, sem deixar a responsabilidade da contracepção com um único parceiro, pode ser importante e libertador para muitos casais que não desejam uma gestação em um determinado momento.

Gostou deste texto? Dúvidas, comentários, críticas e sugestões podem ser enviadas para: dralarissacassiano@uol.com.br.

Referências:

Khilwani B, Badar A, Ansari AS, Lohiya NK. RISUG®? as a male contraceptive: journey from bench to bedside. Basic Clin Androl. 2020; 30:2. Published 2020 Feb 13. doi:10.1186/s12610-020-0099-1

1.WHO Medical Eligibility Criteria for Contraceptive Use, 4ª ed, 2009. Disponível em: http://whqlibdoc.who. int/publication/2009/9789241563888_eng.pdf.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL