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Larissa Cassiano

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Preservativo interno: vamos mudar a forma de pensar sobre proteção?

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Imagem: iStock
Larissa Cassiano

Larissa Cassiano é médica ginecologista e obstetra, especializada em gestação de alto risco pela USP (Universidade de São Paulo). Fez residência médica na Maternidade de Vila Nova Cachoeirinha (SP), uma das maiores do Brasil, referência em parto humanizado no SUS e em gestação de alto risco.

Colunista do UOL

25/05/2021 04h00

Será que não devemos falar mais sobre preservativos e repensar nossa imagem sobre eles? Em meados dos anos 90 foi lançado o preservativo feminino, ou interno, nome mais adequado quando compreendemos que diversos corpos utilizam o preservativo, mulheres, homens, pessoas trans e pessoas não binárias.

E por que mudar essa forma de pensar sobre preservativo? Talvez porque nos últimos anos a prática sexual tenha mudado para algumas pessoas, relacionamentos foram abertos, "chemsex" (sexo químico) ganhou espaço, pessoas viram na PrEP (profilaxia pré exposição), medicamento utilizado para prevenção da infecção pelo HIV antes da relação sexual, uma nova forma de cuidado, além de outras pessoas que não viveram a era com tratamentos complexos, mortes secundárias ao HIV e as propagandas frequentes sobre preservativos.

Essas mudanças podem estar criando um ambiente em que todos parecem conhecer o preservativo, mas nem todos se dispõem a utilizá-lo com frequência.

As ISTs (infecções sexualmente transmissíveis) são uma questão de saúde pública, estando entre as doenças transmissíveis mais frequentes, elas podem causar alterações no feto, na fertilidade, na opção de parto, na amamentação, doação de sangue, ou seja, na saúde de maneira geral.

Assim, quando uma pessoa desiste de utilizar um preservativo, ela deixa sua própria saúde, em diversos níveis de gravidade, vulnerável. Talvez assim seja possível repensar o quanto é preocupante deixar o preservativo de lado pela sensação de prazer e conforto temporário.

Os preservativos têm um papel extremamente importante na prevenção de infecções sexualmente transmissíveis que vão além do HIV, inclusive vale destacar o aumento significativo de casos de sífilis.

Segundo dados do Ministério da Saúde, nos últimos 10 anos, houve um progressivo aumento na taxa de incidência de sífilis na gestação: em 2009, a taxa era de 2,1 casos por 1.000 recém-nascidos, e em 8,2 casos por 1.000 recém-nascidos em 2019.

As características anatômicas e fisiológicas dos genitais femininos aumentam a sua vulnerabilidade para infecções sexualmente transmissíveis, mas nem todas se sentem seguras para abordar o uso de preservativos com suas parceiras sexuais.

Em alguns relacionamentos, questionar o uso do preservativo pode significar uma traição ou desconfiança, quando deveria ser apenas um sinal de segurança e saúde, independente da confiança e do amor envolvidos na relação.

Em alguns desses casos, o preservativo feminino pode ser uma boa opção, ainda que com limitações de valor, acesso e conhecimento, mas com o benefício de dar mais autonomia e proteção.

Ele é um método contraceptivo composto por duas hastes plásticas, uma região fechada que deve ser introduzida na vagina ou nos ânus, para que ele não saia durante o ato sexual e outra externa que permite que ele seja penetrado sem se fechar. Ele é produzido em borracha nítrica, um material um pouco mais grosso e com um toque levemente mais seco que o preservativo externo (masculino).

Para quem nunca utilizou ou não sabe seguem alguns benefícios do preservativo interno:

  • Pode ser colocado até 8 horas antes da relação sexual;
  • Não necessita ser removido imediatamente após o fim do ato sexual;
  • Pode ser utilizado por pessoas alérgicas ao látex;
  • Quando comparado com o preservativo externo, protege mais, pois a região dos lábios vaginais, uretra e clitóris ficam cobertas;
  • Não aperta o pênis, sensação que é desconfortável para algumas pessoas;
  • Pode ser uma opção para pessoas com dificuldade de ereção e que não conseguem utilizar o preservativo externo;
  • Bom para pessoas com pênis em tamanhos difíceis de se adaptarem a preservativos externos;
  • Possui uma proteção contraceptiva de 95% se utilizada corretamente;
  • Mais autonomia, sem depender de outra pessoa levar o preservativo.

Se você se interessou ou tentou e desistiu, espero que esse texto te ajude a pensar novamente sobre os preservativos como uma forma de cuidado pessoal.

Se desejar utilizar o preservativo interno ele pode ser encontrado em farmácias online e presenciais. Nos postos de saúde e Centro de Testagem e Aconselhamento em IST/Aids, os preservativos podem ser retirados gratuitamente.

Gostou deste texto? Dúvidas, comentários, críticas e sugestões podem ser enviadas para: dralarissacassiano@uol.com.br.

Referências:

http://www.aids.gov.br/pt-br/noticias/brasil-avanca-no-enfrentamento-sifilis#:~:text=No%20Brasil%2C%20em%20geral%2C%20nos,1.000%20nascidos%20vivos%20em%202019

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL