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Larissa Cassiano

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Gravidez associada ao lúpus pode ocorrer e não deve ser motivo para pânico

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Larissa Cassiano

Larissa Cassiano é médica ginecologista e obstetra, especializada em gestação de alto risco pela USP (Universidade de São Paulo). Fez residência médica na Maternidade de Vila Nova Cachoeirinha (SP), uma das maiores do Brasil, referência em parto humanizado no SUS e em gestação de alto risco.

Colunista do UOL

18/05/2021 04h00

Dia 10 de maio é considerado o Dia Mundial do Lúpus, uma das doenças autoimunes mais frequente entre as mulheres.

Doenças autoimunes são aquelas em que o organismo ataca o próprio sistema imunológico. O lúpus pode acometer diversos órgãos e se manifestar de muitas maneiras, motivo pelo qual algumas pessoas levam muito tempo para confirmar o diagnóstico e motivo para sempre que possível associar os sintomas e não considerar apenas um ou outro que possa parecer mais relevante.

O lúpus pode afetar pele, rins, coração, articulação, entre outros órgãos, causando dor, inchaço, elevação da pressão, queda de cabelo, anemia, sangramento na urina e manchas na pele.

Por se tratar de uma doença frequente em mulheres jovens, a gestação associada ao lúpus é algo que pode acontecer e não deve ser motivo para pânico. As gestantes devem receber cuidado especializado com vigilância tanto para as crises quanto para o feto, pois possuem risco maior de abortamento, pré-eclâmpsia, parto prematuro, restrição de crescimento fetal, hemorragia pós-parto, trombose e síndrome de lúpus neonatal.

Porém, este não deve ser um motivo para desistir da maternidade ou se desesperar, pois, com acompanhamento adequado e uso correto da medicação, muitas gestantes têm uma gestação tranquila.

Não existe uma indicação absoluta de cesárea para as gestantes com lúpus, pelo contrário, as mulheres com lúpus possuem mais benefícios em um parto vaginal, pois a cesárea aumenta o risco de tromboembolismo venoso, hemorragia e infecção

Um medo entre as gestantes lúpicas é referente ao uso da medicação e é extremamente importante passar por avaliação médica antes da suspensão de qualquer remédio, pelo risco de crises e complicações.

Algumas medicações utilizadas fora da gestação podem ser mantidas na gestação como é o caso da prednisona, hidroxicloroquina, azatioprina, tacrolimus e ciclosporina. Elas reduzem o risco de atividade da doença e podem reduzir o risco de lúpus no recém-nascido, já medicações como ciclofosfamida, metotrexato e micofenolato mefetil não devem ser utilizadas.

Sabendo que o risco de restrição de crescimento fetal (quando o feto está abaixo do peso esperado) é uma complicação associada ao lúpus, durante o pré-natal os exames de ultrassom têm um papel fundamental para identificar alterações de crescimento ou vascularização.

Para reduzir os riscos da doença, programar a gestação é um dos pontos-chave, a gestação não deve ocorrer antes de dois anos do diagnóstico da doença e pelo menos 6 meses após a última crise. Esse controle tem um impacto significativo na concepção reduzindo risco, por exemplo, de um abortamento e melhorando a evolução da gestação e do parto.

Para otimizar ainda mais o cuidado, pedi a contribuição de Ana Luisa Souza Pedreira, reumatologista e professora universitária em Salvador: "A gestação pode propiciar ou agravar um quadro de atividade do lúpus, por isso as pacientes são orientadas a engravidar em remissão de doença.

O tratamento com hidroxicloroquina deve ser mantido mesmo durante a gestação, assim como proteção solar, alimentação com redução de industrializados e moderada em sal e açúcar, além de prática de atividade física quando não existir alguma contraindicação.

Se a paciente tem alguns exames laboratoriais positivos deve ser dada uma atenção maior ao acompanhamento fetal com realização de ecocardiograma fetal pelo risco de bloqueio cardíaco congênito. Além disso, outro ponto importante é avaliar a presença da Síndrome do Anticorpo Antifosfolípide, que pode estar associada ao lúpus eritematoso sistêmico, pois pode aumentar o risco de abortos e partos prematuros. O reconhecimento precoce desses casos requer tratamento anticoagulante adequado e melhora os desfechos maternos e fetais."

Embora tenhamos conhecimento sobre o lúpus, essa é uma doença que ainda surpreende. Para evitar surpresas e ter uma gestação segura, busque informação e acompanhamento médico.

Referência:

PASTORE, Danilo Eduardo Abib et al . A Critical Review on Obstetric Follow-up ofWomen Affected by Systemic Lupus Erythematosus. Rev. Bras. Ginecol. Obstet., Rio de Janeiro , v. 40, n. 4, p. 209-224, Apr. 2018 . Available from www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-72032018000400209&lng=en&nrm=iso>. access on 22 Apr. 2021. http://dx.doi.org/10.1055/s-0038-1625951.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL