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Larissa Cassiano

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Palpites? Conselhos? Medo? Como lidar com a ansiedade na gravidez

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Larissa Cassiano

Larissa Cassiano é médica ginecologista e obstetra, especializada em gestação de alto risco pela USP (Universidade de São Paulo). Fez residência médica na Maternidade de Vila Nova Cachoeirinha (SP), uma das maiores do Brasil, referência em parto humanizado no SUS e em gestação de alto risco.

Colunista do UOL

09/02/2021 04h00

Como controlar a ansiedade durante a gravidez? A internet nos inunda de informações, as mídias sociais trazem milhares de sugestões e as gestantes, que naturalmente já precisam lidar com muitas incertezas, ficam com mais dúvidas ainda.

Você sabia que até alguns anos atrás o sexo do bebê só era descoberto no nascimento? Algo totalmente diferente de hoje. A sexagem fetal, exame para identificar o sexo do bebê a partir da oitava semana de gestação, tem se popularizado e já virou quase um item de rotina para o pré-natal de muitos casais.

Atualmente, existem os testes genéticos que se modernizam mais e podem responder as mais diversas dúvidas dos futuros pais, ultrassom 3D, exames bioquímicos para avaliação do risco de determinadas doenças, teste do pezinho ampliado, coleta de sangue do cordão umbilical, suplementos vitamínicos diferenciados e uma infinidade de opções que deixam a ansiedade a mil e aquelas dúvidas: será que devo fazer algo? E se não fizer? Estou fazendo mais do que deveria?

Lidar com a ansiedade diante das possibilidades na gestação, quando o corpo já não responde como de costume, e com uma bomba hormonal constante lembrando a todo instante que tem um ser humano crescendo e precisando da gestante, não é uma tarefa fácil.

Compreender essas mudanças e se preparar para o parto exige tempo e calma, algo que muitas vezes não é tão simples, mas saber que a ansiedade é uma resposta natural do corpo pode auxiliar em todo o processo, não banalizar nem desacreditar que sensações como medo, coração acelerado, insônia e agitação são parte dessa resposta.

Por que não se deve banalizar a ansiedade a durante a gestação?

Ansiedade pode trazer consequências devido ao aumento do hormônio cortisol, podendo ocorrer trabalho de parto prematuro, feto com baixo peso, menor tempo de amamentação, o que pode interferir no vínculo entre mãe e bebê, depressão durante a gestação e no pós-parto.

O psicólogo Fábio Castro traz mais informações sobre o tema: "A ansiedade é um misto de nervosismo, medo, apreensão e preocupação. Geralmente acontece próximo a algum evento que julgamos importante, como nesse caso durante a gestação, é comum que surjam diversas idealizações em relação a gestação e o bebê, com isso o medo de que algo dê errado se torna mais intenso.

Em essência a ansiedade é um medo pautado em uma fantasia catastrófica, de que nada irá dar certo, por isso é importante perceber que algo inesperado ou até mesmo uma intercorrência na gestação não anula todo o restante que vem dando certo.

Corpo e mente são interligados, um não vive sem o outro e ambos se influenciam. Assim como um sintoma psicológico, como a própria ansiedade, pode gerar um sintoma no corpo, as alterações que a gestação gera no corpo, como a alteração hormonal, influenciam intensificando as características da mente da gestante.

Pessoas ansiosas tendem a antecipar informações de forma fantasiosa, geralmente de forma negativa, uma dica para lidar com isso é tentar compreender quando seu pensamento está pautado em uma fantasia e nesse momento perceber que na verdade ainda não há uma informação, portanto não é o momento de lidar com um problema, se trata apenas de uma possibilidade entre tantas outras que podem ser boas notícias."

Infelizmente, não tenho uma receita médica pronta com dicas práticas de como fazer as melhores escolhas na gestação e nem como encontrar a melhor forma para lidar com a ansiedade, até porque algumas situações estão acima de tratamentos médicos, mas posso dizer que muitas vezes esse misto de medo e ansiedade não precisa bloquear e nem retirar o brilho de outros momentos da gestação.

Talvez não seja possível responder todas as perguntas, mas as dúvidas podem coexistir com a gestação e de alguma forma ajudar a buscar novos focos e pontos que tragam paz.

Está com medo e ansiosa? Você não está sozinha e neste barco sua mãe e muitas outras já estiveram, gravidez não segue regras, uma gestação não é igual a outra, o que uma amiga, ou vizinha e até você mesma já viveram em outra gestação não tem que ser igual.

Gostou deste texto? Dúvidas, comentários, críticas e sugestões podem ser enviadas para: dralarissacassiano@uol.com.br.

Referências:

O'Donnell, K. J., Glover, V., Barker, E. D., & O'Connor, T. G. (2014). The persisting effect of maternal mood in pregnancy on childhood psychopathology. Development and Psychopathology, 26(2), 393-403. doi: 10.1017/ S0954579414000029;

SCHIAVO, Rafaela de Almeida; RODRIGUES, Olga Maria Piazentin Rolim; PEROSA, Gimol Benzaquen. Variáveis Associadas à Ansiedade Gestacional em Primigestas e Multigestas. Trends Psychol., Ribeirão Preto , v. 26, n. 4, p. 2091-2104, out. 2018.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL