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Larissa Cassiano

Resiliência na obstetrícia: será que existe mesmo gestação perfeita?

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Larissa Cassiano

Larissa Cassiano é médica ginecologista e obstetra, especializada em gestação de alto risco pela USP (Universidade de São Paulo). Fez residência médica na Maternidade de Vila Nova Cachoeirinha (SP), uma das maiores do Brasil, referência em parto humanizado no SUS e em gestação de alto risco.

Colunista do UOL

22/12/2020 04h00

Em um ano de contratempos e surpresas como foi e está sendo 2020, na semana do Natal, momento que paramos para pensar sobre diversos sentimentos, gostaria de falar sobre esperança na gestação.

Quem engravida costuma fazer planos e idealizar como será a gestação, o bebê também está dentro destes planos, mas algo inesperado pode surgir e geralmente não são incluídas nas possibilidades dessa gestação.

Quando a vida surpreende com uma gestação em que bebê ou a mãe possuem alguma alteração é possível manter a esperança?!

Quando uma gestante recebe o diagnóstico de alguma alteração fetal, a grande maioria passa a ser acompanhada pela medicina fetal, área que tem como objetivo avaliar, através de ultrassom, possíveis alterações fetais e, se indicado, realizar procedimentos invasivos para diagnóstico ou tratamento.

Quem chega na medicina fetal se depara com um atendimento para gestante, porém com foco no bebê, encontra-se pacientes em acompanhamento por uma alteração leve e outras por alterações gravíssimas e isso pode assustar algumas pessoas.

Pensando nisso, a preparação para as gestantes que receberam diagnóstico com alguma alteração tem um valor importante, se preparar para as transições do corpo, da mente e da vida ajuda a vivenciar esses momentos de maneira mais leve.

Hábitos saudáveis, atividade física, vacinas em dia e suplementação de vitaminas são pontos iniciais para que o corpo comece a se preparar para abrigar uma vida nova. Toda essa preparação não garante a certeza de uma gestação sem surpresas, mas pode ajudar a evitar situações que exponham a gestante ou o feto a outros riscos, mas penso ser importante ressaltar que a maioria das alterações não tem um responsável.

Esse tema me fez recordar de duas histórias.

A primeira aconteceu anos atrás: recebi no plantão uma gestante cujo bebê possuía suspeita de diversas má formações, conversei com a paciente e optamos por realizar o parto naquele momento. O exame da frequência cardíaca mostrava que o bebê não tinha condições de esperar.

O parto aconteceu e assim que a pediatra encontrou aquele bebê todo indefeso e com o coraçãozinho fraquinho ela perguntou para a mãe se ela aceitaria que ele fosse batizado, ali na sala cirúrgica, sem uma religião apenas com fé.

Foi assim, com um lenço branco do hospital, compressas e soro fisiológico que o bebê foi batizado. Certamente foi um dos momentos mais suaves e humanizados que vivi. Nós sabíamos que ele iria partir e realmente partiu em seguida, mas por alguns minutos sua mãe pôde ficar com ele nos braços.

A segunda história é de uma paciente super querida que aceitou dividir um pouco da sua trajetória: "Com 12 semanas de gestação, fui fazer meu primeiro ultrassom morfológico, estava um tanto ansiosa para saber se estava tudo bem com meu bebê! Um misto de felicidade e ansiedade. A médica notou algumas alterações no meu bebê. Fiquei aflita com a notícia, lágrimas começaram a escorrer. Perguntei o que poderia ser essa alteração e ela disse que poderiam ser muitas coisas ou não ser nada.

Naquela mesma semana realizei coleta do líquido amniótico para ter certeza do diagnóstico. Senti-me segura para a realização do exame e perguntei ao médico se era possível o bebê ter Síndrome de Down, em resposta disse: 'Pelo que vi, acredito ser trissomia do 18, mas vamos aguardar o resultado para ter certeza'. Não fazia ideia do que aquilo significava, mal sabia eu que Down era o menor dos diagnósticos. O resultado sairia em 45 dias.

Ao sair da sala dele, em lágrimas, a primeira coisa que fiz foi pegar o celular e pesquisar a T18, Trissomia do 18 ou Síndrome de Edwards, uma síndrome rara. Foram semanas bem difíceis! Chorei muito. Num primeiro momento, os sentimentos ficam confusos, afinal quem não quer uma gestação perfeita? Será que existe gestação perfeita?

Enfim recebemos o diagnóstico, sexo masculino - trissomia do 18. Já havia tido tempo para refletir, aceitei sua condição e que seria muito amado.

Cada mês foi uma caixinha de surpresas, descobrimos uma má comunicação entre seus ventrículos, um aumento em um dos lados de seu coração, dificuldade de deglutição o que aumentou demasiado o líquido amniótico.

Em meio a lágrimas, conversando com meu marido, chegamos a conclusão que preferíamos que nosso pequeno tivesse mais qualidade de vida. Preferimos optar por cuidados paliativos no qual ele pudesse ficar mais tempo com seus pais, recebendo amor e carinho do que junto a máquinas e sozinho. Pelo tempo que Deus nos permitisse ficarmos juntos, nosso pequeno não sofreria.

Ele nasceu com 36 semanas e 1.336 gramas, e nos deu a honra de sua presença por pelo menos 20 minutos, os 20 minutos mais perfeitos da minha vida."

Essas histórias fora do programado mostram o quanto uma gestação pode ser inesperada, mas mesmo nas situações mais difíceis é possível acreditar e ressignificar o amor e o tempo.

Todos os dias a vida nos dá uma nova oportunidade, vamos acreditar, e que 2021 nos traga mais amor, esperança e capacidade de ver o melhor em todos os momentos.