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Investigação da fertilidade pode ser jornada árdua, mas permita-se relaxar

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Imagem: Getty Images
Larissa Cassiano

Larissa Cassiano é médica ginecologista e obstetra, especializada em gestação de alto risco pela USP (Universidade de São Paulo). Fez residência médica na Maternidade de Vila Nova Cachoeirinha (SP), uma das maiores do Brasil, referência em parto humanizado no SUS e em gestação de alto risco.

Colunista do UOL

13/10/2020 04h00

Após sofrer um aborto, uma paciente me perguntou essa semana por que quem não deseja, engravida com facilidade, e ela, que desejava tanto, estava ali enfrentando um aborto depois de vários anos tentando engravidar.

No momento me veio uma frase do livro "A Culpa é das Estrelas", de John Green, que diz: "Aparentemente, o mundo não é uma fábrica de realização de desejos".

Por razões inexplicáveis, a gravidez segue este caminho inesperado e aleatório, um caminho sem regras e sem méritos, não existe uma gravidez que ocorra mais rápido para quem deseja e que não ocorra para quem não deseja.

Ela simplesmente acontece independentemente do desejo. E quando se deseja uma gravidez e o organismo não corresponde positivamente, isso se torna uma jornada árdua para muitos casais.

Com uma certa frequência recebo pacientes que agendam consulta no pré-natal de alto risco porque estão com dificuldade para engravidar ou com história de abortos prévios.

Fico triste quando vejo que muitas dessas mulheres já fizeram milhares de exames para pesquisar alterações do colo, trombofilia, alterações hormonais, alterações genéticas, mas em nenhum momento passaram em avaliação com um ginecologista especialista em reprodução.

Não que um ginecologista geral não tenha capacidade de cuidar de casais com dificuldade para engravidar, mas alguns desses casais precisarão de medidas extras que em um consultório de ginecologia geral não será possível fornecer.

Um dos motivos de não abordarmos a infertilidade é que parece um terreno proibido e que qualquer conversa sobre o assunto irá se tornar um gatilho para casais que passam por isso, mas não falar não irá deixar a dificuldade de lidar com isso menor.

A infertilidade é a diminuição na capacidade fértil de um casal e a ausência de gravidez após um ano de tentativas sem utilizar métodos contraceptivos. Não se trata a pessoa infértil, devemos olhar sempre para o casal, o casal que tem dificuldades para engravidar espontaneamente, isso não é uma questão de culpa dentro do casal, afinal de contas, independentemente se por um fator masculino ou feminino, juntos eles não engravidam e é junto que se deseja engravidar.

Pensando nisso, casais que tentam engravidar há mais de um ano sem sucesso podem procurar ajuda e essa primeira ajuda não precisa ser especializada, pode ser feita por ginecologista e urologista para investigar causas possíveis, se depois de um período de investigação ou se a causa for complexa, é recomendável seguir o acompanhamento médico com um especialista em reprodução.

O que é importante saber sobre infertilidade?

Cerca de 15% dos casais são inférteis, ou seja, no seu grupo de 10 amigos é possível que um deles tenha dificuldades para ter um filho.

Dentre as causas para infertilidade, 30% a 40% são relacionadas a fatores femininos, 25% a 30% por causas masculinas e 15% não possuem uma causa aparente, mesmo após extensiva investigação.

Casais que já tiveram um filho juntos ou em outro relacionamento podem, ao longo dos anos, desenvolver alguma patologia e não conseguir engravidar em uma nova tentativa.

O mito do parceiro que já teve um filho e agora não quer ser investigado não deve acontecer, pois, mesmo homens que já tiveram filhos anteriormente, devem realizar investigação para saber se ele se mantém com saúde para reprodução.

Essa investigação mais básica começa com espermograma, um exame que avalia o conteúdo do sêmen masculino, número de espermatozoides, entre outros detalhes. Embora muitos se sintam constrangidos, esse é um dos poucos exames que os homens precisam realizar se comparando com as mulheres e, além disso, pode já no primeiro momento auxiliar e eliminar diversas dúvidas.

Existem diversos tratamentos de reprodução assistidas que podem ser de baixa complexidade, orientações para os dias da relação sexual, tratamento hormonal, cirurgia e fertilização in vivo e in vitro.

Como ginecologista, minha mensagem para quem está neste caminho das tentativas para engravidar é investigar, buscar uma causa, mas saber que nem sempre existem causas.

Além disso, o tempo pode ser algo limitante para algumas mulheres, então investigue, mas também busque tratamento, não passe anos fazendo exames para depois chegar a conclusão de que uma fertilização é a melhor resposta.

E, por fim, se permita relaxar um pouco durante o caminho, não considere apenas o sexo como método para engravidar, lembre-se que esta poderá ser uma jornada árdua e o parceiro poderá ser seu melhor companheiro, e que a jornada fica mais leve se tiver amor envolvido.

Gostou deste texto? Dúvidas, comentários, críticas e sugestões podem ser enviadas para contato@larissacassiano.com.br.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.