PUBLICIDADE

Topo

Jairo Bouer

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Maconha mais potente e cigarro eletrônico trazem riscos adicionais a jovens

iStock
Imagem: iStock
só para assinantes
Jairo Bouer

Jairo Bouer é médico psiquiatra formado pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) e pelo Instituto de Psiquiatria do HC-USP. Bacharel em biologia pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e mestre em evolução humana e comportamento pela University College London (UCL). Nos últimos 30 anos, trabalha com comunicação em saúde e sexualidade nos principais veículos de mídia do país.

Colunista de VivaBem

01/07/2022 04h00

Mudanças na forma de consumir cigarro e maconha —duas das drogas mais comuns entre os adolescentes— podem impactar mais severamente a saúde dos jovens. O modismo no uso de dispositivos eletrônicos que permitem a vaporização da nicotina e da cannabis, além de concentrações mais elevadas de THC (componente que causa o "barato" da maconha), estão potencializando riscos e escalando problemas.

Na última semana, a FDA (agência norte-americana que regula alimentos e drogas) ordenou que a empresa Juul, muito popular entre os adolescentes, seja proibida de vender cigarros eletrônicos.

Cartuchos e cápsulas com sabores adocicados utilizados em vaporizadores tecnológicos e atraentes podem servir como uma armadilha para que os jovens comecem a consumir nicotina mais cedo e, rapidamente, tornem-se dependentes.

Vaporizar é tendência

Vaporizar em vez de fumar é uma tendência entre os jovens. Só que o hábito, considerado por eles como mais moderno, mais "limpo" e menos poluente, também traz riscos.

Especialistas não endossam a teoria de que o cigarro eletrônico e o "vapor" sejam uma alternativa mais segura que a fumaça dos cigarros comuns, apontam doses até mais altas de nicotina e afirmam que várias das substâncias liberadas pelos dispositivos podem ser tóxicas para os pulmões e aumentar o risco de câncer. Além disso, muitos jovens podem começar com o eletrônico e, depois, migrar para o tabagismo.

A FDA vem apertando o cerco contra a indústria do tabaco: anunciou que vai proibir cigarros com sabor mentol, apresentou planos para redução dos níveis de nicotina dos cigarros tradicionais e vai determinar quais cigarros eletrônicos atendem os padrões esperados de saúde pública. No Brasil, os dispositivos eletrônicos para fumar (DEFs) são proibidos, mas mesmo assim os jovens conseguem comprá-los facilmente, principalmente pela internet.

Maconha mais forte

Cigarros eletrônicos também têm sido utilizados pelos jovens para vaporizar maconha. Com menos cheiro, essa é uma estratégia que ajuda a disfarçar de pais e professores o consumo da substância. E, apesar de o uso recreativo de cannabis (da mesma forma que o álcool) ser proibido para menores de 21 anos nos EUA, ela ficou muito mais acessível para os jovens nos estados em que foi legalizada.

Matéria do jornal The New York Times da última semana mostra que o problema é que muitas das "maconhas" disponíveis hoje nos EUA, na forma de óleos, ceras e cristais, têm concentração de THC de até 90%. Uma maconha "comum" (prensada), atualmente, tem cerca de 15% de THC. Na década de 1960, esse índice era de 4% a 5%.

Além da concentração muito mais alta de THC, houve uma queda importante dos níveis de CBD (componente que leva ao alívio de convulsões, dor, ansiedade e inflamação e, por isso, muito utilizado nos tratamentos à base de derivados de maconha). Esse desequilíbrio entre as duas substâncias aumenta problemas.

Riscos aumentados

Dependência, transtornos de depressão e ansiedade, piora da memória, ideação suicida e quadros psicóticos (alguns deles para a vida toda) são alguns dos riscos aumentados pelo uso de maconhas mais potentes.

Ainda de acordo com o The New York Times, em 2020, 35% dos alunos do último ano do ensino médio e 44% dos universitários norte-americanos haviam consumido maconha nos 12 meses anteriores, ou seja, um padrão de consumo bastante prevalente.

Outros estudos sugerem que usuários de maconha de alta potência têm cinco vezes mais risco de desenvolver um quadro psicótico do que pessoas que nunca usaram esse tipo de produto. Na Dinamarca, em 1995, 2% dos diagnósticos de esquizofrenia foram associados ao uso de maconha. Quinze anos depois, esse número saltou para 6% a 8%, possivelmente pelo aumento de consumo e potência da droga.

Doses mais altas, uso de vaporizadores, baterias dos dispositivos mais potentes e temperaturas mais elevadas do vaporizador podem aumentar a velocidade e a quantidade de THC que chega ao cérebro, trazendo maior risco de agitação, ansiedade e paranoia. Em adolescentes, o cérebro que ainda passa por importantes mudanças estruturais, está mais vulnerável.

Moral da história: é importante que pais, educadores e profissionais da área da saúde estejam atentos para esse tipo de comportamento, que também pode estar se tornando mais frequente por aqui.

Orientar, explicar, discutir riscos e entender motivações são passos importantes para estabelecer uma melhor estratégia de comunicação com os jovens sobre experiências e excessos. Melhor estar atento e enfrentar eventuais dificuldades do que não querer saber o que pode estar acontecendo quando você não está por perto, certo?