PUBLICIDADE

Topo

Jairo Bouer

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Campanha que proíbe encarar: pessoas deveriam saber quando passam do limite

GETTY IMAGES
Imagem: GETTY IMAGES
Conteúdo exclusivo para assinantes
Jairo Bouer

Jairo Bouer é médico psiquiatra formado pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) e pelo Instituto de Psiquiatria do HC-USP. Bacharel em biologia pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e mestre em evolução humana e comportamento pela University College London (UCL). Nos últimos 30 anos, trabalha com comunicação em saúde e sexualidade nos principais veículos de mídia do país.

Colunista do UOL

20/05/2022 04h00

Paquerar, trocar um olhar e demonstrar interesse pelo outro pode, mas como fica dar uma encarada? Será que as nuances e os limites que separam um flerte de um comportamento mais invasivo estão claros para todos, principalmente para a geração que trocou o olho no olho e a expressão corporal pelo olho na tela e pelos emoticons?

Essas questões parecem ainda mais relevantes quando se dá de cara com uma polêmica campanha que está rolando no metrô de Londres nas últimas semanas.

O objetivo da iniciativa na cidade britânica está bem claro: reduzir situações que tragam riscos de comportamentos impróprios, já que olhares fixos, insistentes, invasivos podem ser considerados uma forma de assédio sexual e, portanto, devem ser denunciados à polícia.

As vítimas mais frequentes desse tipo de importunação são as mulheres, mas os homens também podem ter que lidar com essas encaradas intimidadoras que trazem uma conotação sexual.

Muita gente defendeu a campanha (que faz parte de uma estratégia nacional mais ampla para impedir assédio e comportamentos indesejados), mas houve quem criticasse a criminalização do "olhar" para outras pessoas em um espaço público.

Reduzir risco de assédio

Se de um lado a iniciativa pode reduzir a exposição das vítimas a situações de desconforto, angústia e estresse, do outro ela poderia ameaçar a espontaneidade, a curiosidade do olhar, o flerte com o outro, embora o limite entre um tipo de olhar e o outro seja bem claro para boa parte das pessoas adultas.

Quem já foi vítima de um olhar impróprio, desproporcional, invasivo, obsceno pode experimentar uma sensação de intenso mal-estar e de ameaça. Esse olhar que passa do ponto pode abrir espaço para outros tipos de atitudes impróprias e até criminosas como assobios, exposição de partes íntimas e contato físico indesejado.

Segundo a TfL (Transport for London), a entidade que faz a gestão dos transportes na cidade, a ideia da campanha é enfrentar a normalização dos comportamentos indesejados. Recentemente, um homem chegou a ser preso e condenado a 22 semanas de prisão por olhar fixamente uma mulher e tentar bloquear a sua saída do vagão em um trem que ia para o sul da Inglaterra.

Uma investigação da TfL revelou que o olhar invasivo é o tipo mais frequente de comportamento sexual indesejado no espaço público. Olhar fixamente para alguém não é ilegal na maior parte dos países, mas se essa forma de olhar tem uma natureza sexual ou provoca impactos negativos no outro (como medo e ansiedade), eles podem configurar uma ofensa.

O limite do outro

A iniciativa de coibir essa invasão do limite do outro (já que essa "encarada descarada" pode gerar desconforto, medo e sofrimento) é uma estratégia importante. Mas para além dela, fico aqui pensando na necessidade de desconstruir alguns padrões de comportamento prevalentes em nossa cultura (principalmente entre os homens) em relação à mulher.

Não seria central que cada um pudesse perceber quando está cruzando a linha do que pode e do que não pode e aprender a respeitar esse limite? Um desvio do olhar da outra parte, a sinalização de que a pessoa não esta confortável com a abordagem não deveria ser suficiente para que o olhar fosse interrompido? Quem não topa uma olhada não está se fazendo de difícil, a pessoa simplesmente está sinalizando que a encarada está sendo imprópria, invasiva.

Essas noções equivocadas e o passar dos limites não são exclusividade da geração dos nativos digitais, mas a vida predominantemente online, segundo alguns estudos, pode estar dificultando ainda mais o registro das nuances do olhar e a interpretação das reações e emoções do outro.

Seria fundamental que os mais jovens (e o mais velhos também) conversassem e aprendessem sobre atitudes, emoções e comportamentos em casa (como parte do processo educativos orquestrado pela família, sobretudo pelos pais). E seria ainda mais importante que esse trabalho fosse continuado em projetos de educação em sexualidade nas escolas, palco principal de interação social entre crianças e adolescentes. Assim, quem sabe, as próximas gerações vão conseguir entender melhor suas emoções e limites e não precisarão de campanhas que os ensinem a cuidar do próprio olhar.