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Jairo Bouer

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

É possível ter um orgasmo só com a mente, sem fazer sexo ou se masturbar?

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Jairo Bouer

Jairo Bouer é médico psiquiatra formado pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) e pelo Instituto de Psiquiatria do HC-USP. Bacharel em biologia pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e mestre em evolução humana e comportamento pela University College London (UCL). Nos últimos 30 anos, trabalha com comunicação em saúde e sexualidade nos principais veículos de mídia do país.

Colunista de VivaBem

14/04/2022 03h58

Já imaginou "chegar lá" sem ter que fazer sexo ou se masturbar? Aparentemente, a força da mente poderia ajudar você a alcançar um orgasmo sem a necessidade de nenhum estímulo adicional. Surpreso? Não parece ser um fenômeno comum, nem para todos, mas um novo artigo publicado no periódico Sexual Medicine aponta que essa pode ser uma possibilidade concreta para algumas pessoas.

Pensando sempre que o orgasmo é resultado de uma complexa e multimodal integração de estímulos, experiências e pensamentos, gosto de lembrar que nosso principal órgão sexual não é o pênis, nem a vagina, nem o ânus e, sim, nosso cérebro.

É ele que tem um papel central na integração de nossos estímulos sexuais e que dispara o processo que dá origem ao orgasmo, quer seja na relação sexual, quer seja na masturbação. Só que nessas situações, o cérebro é uma espécie de maestro e condutor de toda uma orquestra, não o solista.

Sexo tântrico

Esse novo trabalho, na verdade um estudo de caso, mostra uma mulher de 33 anos que consegue alcançar e manter orgasmos sem nenhuma forma de estimulação genital, apenas usando o poder da sua mente, depois de um longo treinamento em sexo tântrico.

O uso de marcadores (nível de prolactina no sangue) foi medido antes e depois dos orgasmos sem estimulação genital. Escalas subjetivas, que medem as experiências sensoriais provocadas pelos orgasmos, também foram usadas. Os resultados obtidos mostram níveis semelhantes aos dos orgasmos alcançados por meio de sexo ou masturbação.

A mulher estudada tem mais de uma década de treinamento em ioga e meditação tântrica. Ela buscou as técnicas por uma dificuldade em alcançar orgasmos vaginais, já que sofria de vaginismo (contração dolorosa e intensa dos músculos durante a relação) e de outras dores provocadas pela penetração.

O poder do cérebro feminino

Os resultados sugerem que, apesar do orgasmo ser tipicamente alcançado por estimulação genital, o cérebro tem uma função central nesse processo e que ele poderia ser o único responsável por todo o processo, sendo ativado por experiências, memórias, imagens eróticas, fantasias e sonhos, especialmente nas mulheres.

Nesse sentido, orgasmos sem sexo ou sem masturbação não seriam "fakes" ou parciais e, sim, parte possível da experiência sexual feminina, inclusive com alterações hormonais típicas dos orgasmos obtidos de forma mais convencional.

Só um recado final: embora o trabalho seja animador, é importante lembrar que, como em toda boa ciência, ele precisa ser replicado por outros pesquisadores e, de preferência, com um número maior de pessoas envolvidas, já que até esse ponto ele é apenas uma descrição de caso.

Outro ponto que merece atenção é que a própria mulher descrita, Karolin Tsarski, é uma das autoras da pesquisa, o que pode introduzir um viés no estudo.

Tsarski vende cursos online para mulheres sobre como estabelecer uma conexão mais profunda com a própria energia sexual. Caso você queira entender melhor a pesquisa, há um vídeo em que ela mesma explica todo o processo. Alerta de spoiler: em uma parte do vídeo ela está tendo um orgasmo. Melhor ver em casa! O link do vídeo no YouTube é este.