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Jairo Bouer

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Jogos perigosos: você educa seu filho para o uso das redes?

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Jairo Bouer

Jairo Bouer é médico psiquiatra formado pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) e pelo Instituto de Psiquiatria do HC-USP. Bacharel em biologia pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e mestre em evolução humana e comportamento pela University College London (UCL). Nos últimos 30 anos, trabalha com comunicação em saúde e sexualidade nos principais veículos de mídia do país.

Colunista do UOL

29/12/2021 04h00

Na última semana, os pais de uma menina norte-americana de 10 anos que morreu após participar do "blackout challenge" (desafio do apagão), uma arriscada brincadeira digital que voltou a circular pelas redes sociais, fizeram um alerta sobre a importância das famílias estarem atentas a esse tipo de ameaça cada vez mais comum.

O desafio do apagão não é exatamente uma novidade. Ele encoraja crianças e adolescentes a segurarem sua respiração até que desmaiem, e está ligado a vários casos de morte nos últimos anos. O CDC (Centro de Controle de Doenças) dos EUA, por exemplo, relacionou em 2008 prováveis 82 mortes de crianças por causa desse jogo, no intervalo de 1995 a 2007. Volta e meia ele volta a "viralizar" nas redes sociais.

A grande questão é que os pequenos, influenciados por conteúdos digitais cada vez mais acessíveis e populares, têm poucas condições de avaliar riscos e impactos. Tudo vira uma grande brincadeira. Dessa vez, o TikTok teria sido a fonte da exposição, mas o perigoso jogo já circulou por várias das redes sociais mais populares.

Controle total é inviável

Mesmo com um controle cada vez mais ativo de conteúdos que ameaçam a saúde a a integridade das crianças, as redes sociais nem sempre conseguem barrar todo o fluxo de informações que os menores acessam. Nem mesmo pais atentos e vigilantes para o uso que seus filhos fazem das redes alcançam 100% de sucesso. Tudo isso reforça a importância da educação digital dessas crianças, começando em casa e seguindo na escola e nas próprias plataformas digitais.

Em 2018, o desafio que circulou nos EUA foi o de ingerir cápsulas de sabão em pó usadas em máquinas de lavar, o que levou ao envenenamento e morte de pelo menos 10 crianças. Em 2019, foi a vez da exposição ao sal e ao gelo, que levou a queimaduras importantes na pele dos jovens. Em 2020, foi o jogo da inserção parcial de plugs nas tomadas e a colocação de uma moeda nas partes expostas, o que poderia causar faíscas e até provocar um incêndio. No mesmo ano, o desafio do fogo ganhou força nas redes. Os jovens colocavam um líquido inflamável na pele e ateavam fogo em si mesmos.

O adulto que lê sobre esse tipo de desafio muitas vezes não consegue levar a sério a ameaça. Parece absurdo imaginar que uma criança (principalmente seu filho) se engajaria nesse tipo de atividade. Mas acontece que, nesse limiar do jogo e da realidade, no calor do momento, na busca de ser valorizado e reconhecido pelo grupo e até mesmo no desejo de se superar e se provar capaz, esse jovem pode encontrar motivações suficientes para seguir em frente. E aí que mora o perigo!

O desafio do tiroteio

Na última semana, um novo jogo (desafio do tiroteio) teria surgido no TikTok nos EUA. Ao menos uma dúzia de estudantes teriam sido detidos depois de terem feito ameaças de ataques a escolas, tudo isso depois do massacre real que aconteceu em um estabelecimento de estudo em Michigan no mês passado.

Várias escolas nos EUA chegaram a cancelar suas aulas em função das ameaças. Na última semana Meisha Porter, Secretária de Educação de Nova Iorque, enviou uma carta aos pais dos alunos alertando sobre esse desafio que estimula crianças a fazerem ameaças de bombas e tiroteios nas escolas de todo ao país.

Na carta, Porter explica que está trabalhando em conjunto com a polícia da cidade, a NYPD, para investigar qualquer tipo de ameaça, pede a atenção dos pais para denunciar qualquer suspeita e diz que não tolerará qualquer forma de incitação à violência na comunidade escolar. Mais importante, ela encoraja os pais a conversarem com os filhos sobre uso responsável das redes sociais e as consequências de se fazer qualquer tipo de ameaça.

Por aqui, o desafio mais popular nas redes nos últimos anos talvez tenha sido o jogo da baleia azul, que estimulava os jovens a seguirem uma série de etapas, que poderiam inclusive culminar com uma tentativa de suicídio. Já que esses jogos e ameaças devem se tornar cada vez mais comuns seria importante que pais, escolas, autoridades e plataformas digitais operassem em conjunto.

Importância do diálogo

Começar desde cedo a trabalhar com os jovens sobre importância de comportamentos éticos e seguros nas redes, ajudá-los a criar filtros sobre os diversos tipos de conteúdo acessado e ensinar a identificar e comunicar emoções negativas que podem aparecer com o uso das redes seria um bom começo.

Controlar o uso (sobretudo dos mais novos), denunciar ameaças e trabalhar de forma mais próxima com as escolas também é uma trilha importante. Já a área da educação precisaria investir em estratégias que confiram mais autoridade e autonomia para que os jovens possam identificar riscos nas mídias sociais e para que consigam discutir com seus pares e professores sobre o que está acontecendo. Não existe um caminho único, nem óbvio, mas esse trabalho em rede tem o potencial de atingir melhores resultados.

Aproveito essa última coluna do ano para desejar mais saúde e felicidade para todos em 2022. Feliz ano novo!