PUBLICIDADE

Topo

Jairo Bouer

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Volta às aulas presenciais demanda atenção para saúde mental dos jovens

iStock
Imagem: iStock
Conteúdo exclusivo para assinantes
Jairo Bouer

Jairo Bouer é médico psiquiatra formado pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) e pelo Instituto de Psiquiatria do HC-USP. Bacharel em biologia pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e mestre em evolução humana e comportamento pela University College London (UCL). Nos últimos 30 anos, trabalha com comunicação em saúde e sexualidade nos principais veículos de mídia do país.

Colunista do UOL

27/10/2021 04h00

Muitas escolas no Brasil todo retomaram as atividades habituais, modelo 100% presencial, nas últimas semanas. No retorno, crianças e adolescentes têm experimentado reações e emoções diversas, o que pode deixar pais e educadores bastante surpresos e, às vezes, preocupados. A saúde mental deles é um ponto de atenção importante nesse momento.

Claro que comportamentos distintos eram esperados, já que cada jovem vem de um universo muito particular e funciona de uma maneira própria. Mas o leque de respostas tem sido, de fato, bastante variado.

Algumas instituições de ensino fizeram bem o "dever de casa" e, mesmo na pandemia, conseguiram evitar a evasão dos seus alunos, como mostra reportagem dessa semana do UOL com uma escola pública do DF.

Escuta ativa

A escola criou uma espécie de "call center" para se aproximar de pais e alunos e entender suas necessidades durante o período de estudo remoto. No retorno à sala de aula, iniciativas como essa podem fazer toda a diferença, e minimizar o sofrimento psíquico de crianças e jovens.

De uma maneira geral, os adolescentes ansiavam por essa mudança. O jovem em casa, sob os olhares mais vigilantes de pais e cuidadores, sentiu falta da sua autonomia e liberdade. Além disso, permanecer no mesmo cenário dia após dia, sem deslocamentos, sem mudanças, pode aumentar a sensação de tédio, em um momento de vida em que eles querem movimento e novidades.

A distância do outro, que muitos imaginaram que seria facilmente substituída pelas redes sociais, já que essa é a geração mais digital que já existiu, não foi suprida. Ficou claro para alunos (e para os pais) que a escola funciona não apenas como um espaço para a educação formal, mas também como o local para que as interações sociais, tão importantes para a construção da identidade, ocorram.

O papel do grupo

Os jovens precisam se enxergar no outro para poder entender quem eles querem ser nesse mundo. O processo de individualização passa por esse reconhecimento pelo grupo, e a escola é o espaço por excelência para que essas trocas aconteçam.

Se de um lado existia o anseio para a volta à escola (e, por tabela, para o retorno a uma desejada e aguardada "normalidade"), do outro ainda existe medo, insegurança e uma certa acomodação ao esquema anterior.

Agora é preciso se cuidar mais, se preparar para sair, estar pronto para ser visto ao vivo pelos colegas. E isso pode ser bom, mas também "difícil", ainda mais para jovens que podem estar com a autoestima comprometida depois de mais de um ano de isolamento. Eles fizeram menos atividades físicas, comeram pior, podem ter ganho peso e não ter cuidado da aparência como gostariam.

Habilidades sociais

Além disso, muitas crianças e jovens, em seu processo de desenvolvimento de habilidades sociais, precisam de uma certa regularidade de estímulos e aprendizados para superar a timidez e eventuais dificuldades de interação. Com o distanciamento, as barreiras a serem superadas parecem ter ficado maiores, sobretudo para alguns deles. Será necessário mais esforço para voltar a interagir, e isso pode ser custoso do ponto de vista emocional.

Nesse retorno os professores têm visto de tudo. Há desde jovens "subindo" pelas paredes, cheios de energia, inquietos e, muitas vezes, com dificuldade ainda maior de manter foco e atenção nas atividades formais, até outros mais calados, em seu canto, evitando exposição e temendo eventuais avaliações e julgamentos (principalmente em relação à sua aparência).

Radar mais sensível

Ansiedade de separação com crises de angústia e choro (para os menores), ataques de pânico, rituais exacerbados de limpeza e de checagem, quadros de depressão, aumento do abuso de substâncias, transtornos alimentares, fobia social, transtornos de imagem corporal, automutilação, entre outros, são algumas das situações relatadas pelos estabelecimentos de ensino.

O que muitos pais não conseguiram perceber durante o período de isolamento e reclusão, pode ficar muito evidente na volta à escola, no momento em que eles passam a viver mais em grupo. Assim, é essencial que escolas e pais estejam alinhados, que os educadores tornem seu "radar" ainda mais sensível para eventuais alterações de comportamento, e que para que haja maior possibilidade de escuta entre todos os envolvidos.

Com um olhar mais atento e uma intervenção mais rápida, esse retorno pode ter uma aterrissagem mais suave tanto para as crianças e os adolescentes, como para pais e educadores.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL