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Jairo Bouer

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Controlar os filhos, como Madonna, estimula ou inibe a autonomia?

Lourdes Maria falou sobre relacionamento com a mãe, Madonna, e disse que ela é maníaca por controlar tudo e todos - Reprodução/Instagram
Lourdes Maria falou sobre relacionamento com a mãe, Madonna, e disse que ela é maníaca por controlar tudo e todos Imagem: Reprodução/Instagram
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Jairo Bouer

Jairo Bouer é médico psiquiatra formado pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) e pelo Instituto de Psiquiatria do HC-USP. Bacharel em biologia pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e mestre em evolução humana e comportamento pela University College London (UCL). Nos últimos 30 anos, trabalha com comunicação em saúde e sexualidade nos principais veículos de mídia do país.

Colunista do VivaBem

20/10/2021 04h00

A modelo Lourdes Maria, 25 anos, filha da cantora Madonna, contou em entrevista recente à revista Interview Magazine que o principal motivo para ter começado a lutar muito cedo pela sua independência foi o fato de a mãe ser uma pessoa muito controladora.

Mas como funciona isso? Será que pais muito controladores podem estimular nos filhos uma busca precoce por sua autonomia? Ou será que, de forma oposta, podem inibir a procura deles por sua independência, tornando-os adultos mais inseguros?

Quanto mais a gente conhece os jovens e seus pais, mais percebe que não existe uma resposta simples e uma direção única nessa relação. Controlar em excesso pode tanto fazer com que os filhos lutem pela sua liberdade pessoal como pode dificultar essa busca.

Mesmos pais, filhos diferentes

O mais imponderável nessa equação é que os mesmos pais, seguindo o mesmo padrão de educação para os diferentes filhos, podem suscitar reações distintas dentro da sua própria casa. Alguns filhos podem querer voar longe o mais cedo possível, enquanto outros preferem ficar debaixo das asas o maior tempo que for permitido.

Será apenas uma questão de personalidade dos filhos? Em parte, sim! Mas também há inúmeros outros elementos que têm um papel importante no complexo processo de construção da identidade de cada um. Autoestima, influências dos amigos, maturidade, habilidades sociais, momento de vida dos pais e da família, contexto cultural, outras relações intrafamiliares, exposição a modelos distintos de funcionamento familiar (na escola ou nas redes sociais) são alguns desses fatores.

Pandemia intensificou controles

Com a pandemia, a relação pais e filhos mundo afora ficou mais estreita, já que eles tiveram que conviver mais tempo sob o mesmo teto. Muitos jovens se queixaram que estavam mais vigiados, e que essa proximidade estava interferindo diretamente em sua liberdade e autonomia.

As experiências na escola, fora de casa e com amigos foram substituídas pelo olho no olho com pai e mãe. Muitos jovens se incomodaram com essa troca. Há até quem defenda que esse longo período em isolamento vai moldar uma geração que funcionará de maneira distinta. Será?

Cuidando do futuro

De qualquer forma, sobrevivendo a uma mãe que, segundo Lourdes Maria, era maníaca por controlar tudo e todos, ela reflete que alguns ensinamentos ficaram e a ajudaram na sua trajetória. Cautela e preocupação em como a pessoa quer ser conhecida (ou reconhecida) parecem ter guiado a filha em suas escolhas pessoais. E que pai ou mãe não recomenda aos filhos exatamente isso: cuidado e segurança na luta pelo seu futuro?

A questão é a forma como isso é feito ao longo do processo de desenvolvimento dos filhos. Os exageros podem se tornar opressores, inibidores e gerar medo e insegurança para a vida toda. A ausência de controles pode desaguar na dificuldade de eles fazerem escolhas e trilharem seu próprio caminho.

O tempo de cada um

Outra confusão comum é não perceber o tempo dos filhos, entender que eles crescem e que, à medida que vão se tornando mais maduros, é importante ir afrouxando os nós de controle. É ir passando a bola quando fica claro que é importante que eles joguem por si próprios. É educar para que eles conquistem e mantenham sua liberdade e autonomia.

Erros no processo e na dosagem desses limites e dessas regras são comuns, mas quem é que nunca erra? Talvez a questão seja admitir que se errou (sem vergonha de falar sobre isso com os filhos) e sempre tentar genuinamente mais acertar do que errar.

Diálogo é o grande termômetro dessa relação e ele pressupõe sempre uma via de mão dupla: falar e escutar (não falar e fingir que está ouvindo!)

Pais aprendem com filhos da mesma forma que filhos aprendem com os pais. O manual de sobrevivência dessa relação, além da conversa, inclui paciência, tolerância, menos arrogância e mais humildade dos dois lados.

Que bom que mesmo tendo Madonna como mãe, Lourdes Maria se saiu bem! Sinal de que além de grande cantora, a musa do pop também foi uma supermãe. A meu ver, a entrevista da modelo só confirma que Madonna, mesmo sendo "maníaca por controle", fez bem a lição de casa.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do informado, a modelo Lourdes Maria tem 25 anos e não 24. A informação foi corrigida.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL