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Jairo Bouer

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Será que devo falar com meu filho sobre pornografia?

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Imagem: iStock
Jairo Bouer

Jairo Bouer é médico psiquiatra formado pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) e pelo Instituto de Psiquiatria do HC-USP. Bacharel em biologia pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e mestre em evolução humana e comportamento pela University College London (UCL). Nos últimos 30 anos, trabalha com comunicação em saúde e sexualidade nos principais veículos de mídia do país.

Colunista do VivaBem

23/06/2021 04h00

Você já imaginou a tarefa de falar com seu filho ou sua filha sobre o conteúdo erótico que ele pode estar consumindo no celular ou no computador? Para a esmagadora maioria dos pais essa ideia pode ser tão espinhosa que, talvez, eles prefiram deixar o papo de lado. Mas o tema parece ser cada vez mais importante e atual no processo de uma suposta "educação sexual" digital dos jovens.

Como a maior parte das escolas particulares e redes de ensino "desmontou" nos últimos anos seus projetos de discussão de sexualidade —e dentro de casa o assunto ainda é tabu para muitas famílias—, os mais novos estão aprendendo nas redes sociais e nos sites pornográficos a lidar com sua vida sexual. E o resultado pode não ser bom!

Um artigo publicado na última semana do jornal americano The New York Times discute um pouco mais a fundo a questão. Hoje, de acordo com o texto, virtualmente todos os adolescentes acessam conteúdo pornográfico na internet. Em 2008, um estudo já apontava que 90% dos garotos e 66% das garotas já tinham visto pornografia online antes de completar 18 anos. De lá para cá, esse processo ganhou escala.

Imagens e prazer

Muitos jovens começam a explorar o próprio corpo na puberdade assistindo pornografia e dificilmente imaginam a busca do prazer sexual na masturbação sem o uso de imagens. O problema é que essas imagens quase nunca traduzem o melhor das relações humanas.

A esmagadora maioria dos vídeos disponíveis tem conteúdo sexista, exploração do corpo feminino e reforçam estereótipos dos papéis masculinos e femininos --quando não esbarram em questões de submissão e violência. Sem contar as performances exageradas dos atores, a exibição de corpos perfeitos e a idealização de tamanhos, formas e duração do sexo absolutamente fantasiosas.

Será que os adolescentes, muitos dos quais mal deram os primeiros beijos na boca, sabem diferenciar e perceber que esses vídeos não traduzem exatamente a realidade? Será que a expectativa gerada pelas imagens não aumenta o risco de ansiedade e frustração nas primeiras experiências sexuais?

Não dá para cravar que assistir conteúdo pornográfico pode dificultar a vida sexual de todos os jovens, muitos deles talvez consigam descolar as performances filmadas da vida real, mas para alguns os filmes podem validar posições e fantasia sexistas e, muitas vezes, até violentas.

Aprendendo com a pornografia

Daí a importância de se discutir esse tema com filhos e filhas. Uma pesquisa nacional americana divulgada no começo do ano com jovens de 14 a 24 anos mostra que, no grupo de 14 a 17 anos, os pais eram a principal fonte de informação sobre sexo. Já no grupo de 18 a 24 anos, a fonte mais "confiável" de informações era justamente a pornografia.

Talvez aproveitar essa janela de oportunidade na puberdade para discutir com os adolescentes sobre sexualidade e sobre pornografia seja uma boa estratégia para que eles lidem melhor com essa questão ao longo da sua vida. Outro estudo recente mostra que as mães, de forma geral, estão muito mais sintonizadas com o tema e se sentem mais confortáveis do que os pais para essa missão.

Pais, mães e escolas

Seria importante que desenvolvêssemos estratégias para que pais e mães pudessem participar de forma equilibrada dessa tarefa —e para que ela pareça mais natural e menos espinhosa do que é hoje.

Outra ideia importante é trabalhar em paralelo com as escolas para que elas voltem a se tornar um espaço importante desse tipo de discussão. O que se vê hoje é que eventuais tentativas de professores de introduzir o assunto em sala de aula, sem os pais estarem envolvidos nos mesmos objetivos, acaba gerando uma série de desentendimentos e desconfortos, ainda mais em um Brasil tão polarizado em relação à pauta de comportamento.

Mas o recado das pesquisas e números é claro: independentemente de os pais e as escolas decidirem falar sobre sexualidade e pornografia e, apesar de todos os filtros e controles imagináveis que os pais possam tentar usar, os jovens vão continuar acessando esse tipo de conteúdo pornográfico nas redes. Portanto, melhor educá-los para esse consumo do que simplesmente ignorar o assunto e esperar que eles aprendam por conta própria.

Para saber mais sobre sexualidade e comportamento dê uma olhada em meu site: doutorjairo.uol.com.br

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL