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Jairo Bouer

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Como encarar a "volta" à casa dos pais de forma positiva?

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Imagem: iStock
Jairo Bouer

Jairo Bouer é médico psiquiatra formado pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) e pelo Instituto de Psiquiatria do HC-USP. Bacharel em biologia pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e mestre em evolução humana e comportamento pela University College London (UCL). Nos últimos 30 anos, trabalha com comunicação em saúde e sexualidade nos principais veículos de mídia do país.

Colunista do VivaBem

28/05/2021 04h00

Nos últimos meses, muitos adultos brasileiros podem ter feito o movimento de voltar a viver na casa dos seus pais. Em um país profundamente desigual e em crise econômica há anos, essa tendência não é exatamente uma novidade. Tem gente que nunca conseguiu, de fato, morar sozinha. Mas a perda da independência e autonomia para muitos, com certeza, se agravou durante a pandemia.

A falta de dinheiro, a perda do emprego, a interrupção das aulas na universidade, a economia de recursos, a necessidade de ter que cuidar de forma mais próxima de pais mais velhos, tudo isso pode ter contribuído para essa onda de "volta ao antigo lar".

A questão é que para muita gente, esse momento pode soar como uma espécie de derrota. Assim, uma sensação de estranheza, de "falha", de vergonha e de desconforto podem estar acompanhando a mudança. Mas será que não é possível encarar a situação de uma forma mais construtiva?

Um passo à frente, não um retrocesso

Um estudo publicado na última semana, realizado nos EUA, país onde quem volta a morar com a família (ou até mesmo quem vive na mesma cidade dos pais) pode se ver como uma grande "perdedor", investigou o que pode ser tirado de positivo dessa fase.

Os entrevistados na pesquisa (feita antes da pandemia) reconheciam o "estigma" desse retorno, mas aqueles que percebiam o passo como um investimento no futuro tendiam a encarar a experiência de forma mais positiva, além de falar do assunto de maneira mais otimista.

A pandemia pode ter ajudado a reduzir o tabu sobre esse retorno, já que por si só ela justificou mudanças de rotina e de destino de boa parte da população. Mas isso não aliviou a realidade das pessoas que se viram trancadas entre quatro paredes com a família, "mais "vigiadas" pelos pais o tempo todo e com menor liberdade de movimentos e de hábitos.

Essa pesquisa me fez lembrar também de algumas décadas atrás, quando na transição da residência médica para minha vida fora da universidade, precisei recuar e passar um ano na nova casa dos meus pais, juntando economias para minha autonomia futura. Olhando por esse viés, quais seriam as melhores estratégias para passar de forma mais tranquila pelo momento? Que aprendizados dá para tirar desse momento? Vamos a algumas dicas práticas...

1- Defina limites

Importante que pais e filhos conversem sobre horários, funções em casa, contribuição financeira e negociem uma certa liberdade e autonomia para todas as partes envolvidas.

2- Tem que participar

Não é porque seus pais cuidaram de você a vida toda que você vai se encostar neles e deixar que façam tudo por você. Sua participação nas tarefas de casa (e até nas contas) deve ser feita de forma sistemática.

3 - Hora de partir

Para que não se crie ilusões de ambos os lados (muitos pais adorariam ter os filhos embaixo das asas para sempre) é essencial que todos entendam que a situação é transitória e tem prazo de validade.

4- Você cresceu!

Pois é, aquele jovem que passou a vida ao lado dos pais, com seus traumas e conflitos, cresceu. E essa volta não deve dar espaço para que o "seu eu do passado" ressurja das trevas e você volte para o berço. De um adulto se espera atitudes maduras.

5 - Respire fundo

Por mais que você sinta vontade de gritar, confrontar, tirar a limpo questões mal resolvidas, esse certamente não é o melhor momento. Respire fundo, entenda que você possivelmente mudou muito mais do que eles e é de bom tom que você tente preservar seus velhos o máximo possível, mesmo que não concorde com diversos pontos de vista e comportamentos deles.

6 - A casa é deles

E lembre-se, você é agora um hóspede. A casa continua a ser deles e você deve fazer o máximo possível para evitar desgastes. A ideia é que o momento seja o melhor para todos os envolvidos. Concorda?

Se tudo isso acontecer, é bem possível que esse momento de volta seja muito mais leve do que você imagina e que, de quebra, você consiga perceber que cresceu, mudou e se tornou uma pessoa mais madura. Que tal?

Se você quiser ler mais sobre saúde e comportamento dê uma checada em meu site: doutorjairo.uol.com.br.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL