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Jairo Bouer

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Quero ir aonde não tem ninguém

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Imagem: iStock
Jairo Bouer

Jairo Bouer é médico psiquiatra formado pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) e pelo Instituto de Psiquiatria do HC-USP. Bacharel em biologia pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e mestre em evolução humana e comportamento pela University College London (UCL). Nos últimos 30 anos, trabalha com comunicação em saúde e sexualidade nos principais veículos de mídia do país.

Colunista do VivaBem

14/04/2021 04h00

Pense em você há um pouco mais de um ano, antes da pandemia. Qual seria um dos principais critérios de escolha para passeios e programas? Talvez, optaria por um lugar badalado, onde houvesse muita gente interessante, para ver e ser visto —principalmente se você tem menos de 40 anos e está solteiro (embora casados também curtam agitos e encontros com amigos).

Corta para abril de 2021. Mais de 50% das vagas de UTIs em todo o país ocupadas por pessoas jovens e mais de 355 mil vítimas fatais da covid-19. Se você pensa com a cabeça, certamente seu lugar de escolha para dar aquela escapada de casa são os locais tranquilos, onde de preferência você não vá encontra ninguém ou, pelo menos, a menor quantidade possível de gente.

Seres sociais

Nossas escolhas mudaram em função dos cuidados com a saúde e das medidas de distanciamento social. Não que essa seja uma opção (ou uma obrigação) fácil de ser seguida. O ser humano, desde os primórdios do nosso processo de evolução, é um animal social. A gente precisa do outro, e ficar isolado, em geral, é um caminho muito duro.

Nossos parentes vivos mais próximos, chimpanzés, bonobos e gorilas, também são seres sociais, embora as formas de se relacionar com os outros sejam distintas das nossas. Já o orangotango é um primata que escolhe a solidão e busca parceria apenas nos momentos de encontros sexuais. A fêmea cria sozinha seus filhotes.

Mas nós, humanos, dependemos do olhar do outro, da presença do outro, do toque do outro. Ficar sozinho é um poderoso fator de estresse, inclusive para os pequenos núcleos familiares que se isolaram em busca de segurança nesse momento tão complicado da pandemia.

Não é à toa que estamos sofrendo mais do ponto de vista da saúde mental e que enfrentamos um aumento significativo dos casos de transtornos de ansiedade e de depressão. Com esse agravamento das nossas condições emocionais, questões como abuso de álcool e um maior risco de suicídio passaram a exigir atenção de profissionais da saúde no mundo todo.

Mesmo com pubs fechados, abuso de álcool foi frequente

Novas pesquisas divulgadas nas últimas semanas ajudam a entender um pouco melhor esses fenômenos. Dados do sistema de saúde pública do Reino Unido (NHS) revelam que 100 pessoas foram internadas a cada hora no país durante os primeiros meses da pandemia, totalizando mais de 750 mil internações por problemas relacionados ao consumo de álcool em 2020.

A faixa etária mais acometida estava acima dos 50 anos, com 75% dos casos. Entre os mais jovens, na faixa dos 20 aos 30 anos, o número de casos foi relativamente baixo. Apesar de esses dados terem sido menores do que nos mesmo período do ano anterior (pré-pandemia), ele revela que, mesmo com os pubs fechados, o abuso de álcool e os acidentes relacionados a essa condição foram bastante frequentes.

Queda no número de suicídios nos EUA

Já os casos de suicídio, que os especialistas esperavam que aumentassem em função das dificuldades econômicas, dos maiores índices de depressão e ansiedade, do abuso de álcool e de mais gente isolada, caíram para o menor patamar em 40 anos nos Estados Unidos.

A queda de 6% nas taxas de suicídio em 2020, quando comparadas ao ano anterior, foi a mais importante nas últimas quatro décadas. O suicídio passou a ser a 11ª causa de morte nos EUA em 2020 (foi a 10ª em 2019), com quase 45 mil casos, de acordo com dados preliminares do CDC (Centros de Controle de Doenças).

Segundo especialistas, é difícil explicar essa queda, mas ela parece ser um fenômeno recorrente em momentos históricos de grande número de mortes e de intensa mobilização emocional, como no caso das guerras e de desastres naturais. Talvez uma fase inicial de "heroísmo" nacional, com muitas mensagens de apoio e de suporte social, possa trazer alguma forma de suporte e conforto para quem está sofrendo.

O maior número de serviços de saúde mental, disponíveis por conta da pandemia, também pode ter facilitado o acesso às pessoas que têm ideação suicida.

A grande preocupação é que o retorno gradual a uma situação mais próxima às condições de antes da pandemia, com as elevadas taxas de depressão e ansiedade que vêm sendo observadas, aliadas a uma espécie de estresse pós-traumático coletivo (com dificuldades de ajuste às novas rotinas), além da crise econômica e do desmonte dos serviços de suporte em saúde mental, possam levar a um aumento desses riscos.

Nesse sentido, fica clara a importância de ir na direção do contato humano que tanto evitamos nesse último ano, e poder contar com redes de apoio bem estruturadas, em que a presença do outro faz toda a diferença, pode ser o melhor caminho para uma aterrisagem mais suave, depois que tudo isso passar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL