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Jairo Bouer

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Pandemia força solitários a rever escolhas

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Imagem: iStock
Jairo Bouer

Jairo Bouer é médico psiquiatra formado pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) e pelo Instituto de Psiquiatria do HC-USP. Bacharel em biologia pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e mestre em evolução humana e comportamento pela University College London (UCL). Nos últimos 30 anos, trabalha com comunicação em saúde e sexualidade nos principais veículos de mídia do país.

Colunista do VivaBem

31/03/2021 04h00

Será que as medidas de distanciamento social impostas pela pandemia pesaram menos para os solitários convictos, aqueles que em algum momento da sua vida decidiram viver sozinhos, em uma tentativa de se tornar mais independentes e de se reconectar com eles próprios? A lógica apontaria nessa direção, mas a realidade não tem sido bem assim!

Diferentemente dos solitários por conta de circunstâncias da vida (homens e mulheres mais velhos que ficam viúvos, por exemplo), os solitários por escolha estariam mais acostumados a ficarem sós e até apreciariam o seu status de isolamento voluntário e sua autonomia habitacional.

Só que o "estar só" do período pré-pandemia se resumia a momentos, partes do dia, em que essas pessoas não precisavam se preocupar em dividir a pasta de dente ou a mesa do café na padaria com ninguém. Não era uma situação permanente, sem escapes possíveis!

Realidade mais dura do que o previsto

Afastados do trabalho presencial e do contato com os colegas do escritório, sem os encontros com amigos, festas, baladas, academia, aulas na universidade, almoços de domingo na casa da mãe e as sucessivas viagens, a vida da turma que amava ser solitária também ficou mais dura. E eles sentiram na pele e nas emoções essas mudanças!

Mais de um ano depois do início da pandemia, não há pessoa em sã consciência, embora sanidade seja um artigo difícil de ser encontrado nesses dias, que não esteja sofrendo com a distância dos amigos e familiares. A solidão bateu forte na porta da casa de todos.

Um excelente artigo do El País da última semana discute essa questão. Hoje, na Espanha, de acordo com o jornal, cerca de 5 milhões de pessoas vivem sozinhas. Esse número equivale a quase 11% da população. A previsão é que, nos próximos 15 anos, o número de lares unipessoais aumente em 1,1 milhão, número maior do que o de nascimentos previstos para o mesmo período. E esses solitários em expansão estranharam esse novo momento do mundo.

Negacionista também sofre

Por mais que negar talvez seja uma estratégia psíquica para "burlar" as frustrações e a dureza do momento, mesmo os negacionistas e os egoístas mais ferrenhos, que insistem em socializar e aglomerar sem se cuidar e sem se importar com a saúde dos outros, sofreram algum tipo de impacto provocado pelas medidas sanitárias impostas pelo momento.

Do ponto de vista prático, não há muito o que fazer. Na vida real, negar não resolve a pandemia! No pior momento da covid-19 no Brasil, só nos resta ficar em casa, evitar encontrar parentes, "ficantes", colegas e amigos, não aglomerar e usar sempre a máscara, tudo isso enquanto a vacina não vem!

E segue um "spoiler" para quem ainda espera a imunização: mesmo protegido, a gente vai precisar continuar se cuidando e se mantendo mais isolado, pelo menos enquanto o vírus não diminuir sua circulação, ou seja, enquanto parcelas significativas da população não receberem a vacina.

Fadiga digital

Quando tudo começou e a gente precisou se trancar em casa, a grande saída foi o avanço das interações via telas. Zoom para trabalhar, telemedicina, terapia e aulas online, happy hour com amigos no computador, smartphone para tudo o que é canto, "papos" com a família pelas vídeo chamadas etc. Um ano depois, ninguém mais aguenta lives! É a fadiga das tecnologias de imagem.

Alguns trabalhos tentam até destrinchar o fenômeno, explicando que as telas aumentam a percepção das nossas imperfeições físicas, demandam uma maior concentração para captar intenções e expressões emocionais dos interlocutores e levam a um nível crescente de estresse.

Os solitários, sem poder contar com os alívios que tinham em seu cotidiano e sobrecarregados com a nova rotina digital, também estão pagando o alto custo emocional dessa pandemia. Para piorar, eles ainda veem os "fura-filas" das medidas sanitárias ignorando as restrições e tocando sua vida como se não houvesse amanhã, afinal de contas, para os negacionistas "ninguém aguenta mais ficar em casa, e para manter minha saúde mental eu faço qualquer coisa".

Crise da solidão voluntária

Millenials e jovens que escolheram viver sozinhos em suas casas estão, sim, penando também. Mais uma prova que tudo na vida, inclusive as decisões de ficar mais tempo com a gente mesmo, que parecem as mais acertadas em determinados momentos, são também transitórias e passíveis de interferências externas, sujeitas ao imprevisível e ao imponderável.

Para tentar atravessar essa turbulência é preciso, além de mergulhar dentro de si, olhar em volta para aprender a criar novas estratégias para lidar com o afastamento social. Buscar inspiração em como nossos avôs e avós se adaptaram à solidão, adotar um bichinho de estimação, ir morar sozinho em outro canto e até usar o telefone para ouvir a voz de quem faz falta (em vez de ficar só teclando) são possibilidades.

Mais radical para um solitário convicto pode ser a ideia de rever a exclusividade do tubo de pasta de dente, pelo menos momentaneamente, para dividir a casa com um amigo ou com alguém com quem uma interação social seja possível. Mesmo sem abandonar os princípios da independência e autonomia, talvez no outro a gente consiga se enxergar melhor e se sentir menos só, pelo menos enquanto a pandemia não acaba. Depois, como diria o colunista do UOL Ricardo Kotscho, vida que segue. Será que funciona?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL