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Jairo Bouer

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

A pandemia pode tornar as pessoas melhores? Até agora parece que não

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Jairo Bouer

Jairo Bouer é médico psiquiatra formado pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) e pelo Instituto de Psiquiatria do HC-USP. Bacharel em biologia pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e mestre em evolução humana e comportamento pela University College London (UCL). Nos últimos 30 anos, trabalha com comunicação em saúde e sexualidade nos principais veículos de mídia do país.

Colunista do VivaBem

24/03/2021 04h00

Quando a pandemia do coronavírus começou, já em um distante um ano atrás, muita gente dizia que sairíamos dessa experiência como seres humanos melhores. Será? Você sente que melhorou depois de tudo o que viveu? Percebeu alguma melhora na humanidade?

A premissa básica era que a tragédia, as privações pessoais e coletivas, o isolamento, a dor, o sofrimento, entre outras tantas experiências, seriam capazes de nos transformar, de nos fazer priorizar o que realmente importa, de nos tornar mais empáticos e solidários. Não é o que se tem visto!

Claro que há exceções, importantes e impactantes iniciativas de pessoas, grupos e movimentos sociais que arrecadam mantimentos, socorrem os mais vulneráveis, prestam apoio e solidariedade a quem está sofrendo uma perda ou um luto, mas infelizmente essa não é a regra.

Muita gente continua focada no próprio umbigo, preocupada com seu prazer e sua "liberdade pessoal", e incomodada com os limites impostos por autoridades em saúde. Até o mais óbvio é questionado e desafiado, como manter distanciamento social e usar máscara em espaços públicos.

Festas e encontros, até com finalidade religiosa, têm sido organizados de forma clandestina, burlando as restrições mais duras que passaram a valer nas últimas semanas em alguns municípios e estados, enquanto a coordenação central, que deveria vir de Brasília, insiste em mensagens dúbias e movimentos erráticos, quando não adota a contramão do razoável.

Claro que as pessoas têm que trabalhar, claro que o país não pode parar, mas há formas e momentos mais seguros para fazer isso. Não dá para deixar escola aberta enquanto os hospitais agonizam. Não dá para fazer balada enquanto faltam leitos, oxigênio e remédios para entubar quem precisa.

Na última semana, enquanto alcançávamos os piores indicadores na média móvel e nos dados diários de novos infectados e de mortes, e os sistemas de saúde colapsavam em boa parte do país, continuavam a circular frases descabidas e estúpidas nas redes sociais como essa: "Se há 2.000 mortes por dia, tem de haver 2.000 leitos por dia, não??? Ou o leito vai junto com o paciente???".

O oposto da ciência não é o negacionismo, é a burrice. O oposto das medidas de saúde pública necessárias para enfrentar a maior crise sanitária da nossa história não é a insensibilidade social, é a barbárie.

Parece que boa parte das pessoas segue com uma miopia voluntária para enxergar o que se passa à sua volta. Tem dificuldade em perceber ou até mesmo negam que podem fazer parte de uma cadeia de transmissão do vírus que coloca sua vida, da sua família e do resto da comunidade em risco.

Se você soubesse que o país está em guerra e que morrem quase 3.000 pessoas lá fora, todos os dias, sairia às ruas para ir na academia ou ao salão de beleza, ou faria apenas o mínimo e indispensável fora de casa? Se percebesse que as autoridades e o exército são incapazes de garantir sua segurança e sua vida nesse momento, frente a um inimigo potencialmente mortal, seguiria levando sua vida, alheio às balas e ao fogo cruzado? A notícia é que sim, estamos em guerra, o inimigo é invisível e parece estar mais eficiente e letal que há um ano, você só pode contar com você mesmo e com a ajuda dos seus vizinhos para se proteger e, caso você seja "atingido", há grande risco de não conseguir socorro médico no momento.

Dá um certo desalento perceber o tamanho da insensibilidade e da falta de empatia de atitudes e discursos como esses. Além de revelar uma falta de conexão com a realidade, sugerem uma distorção de fatos para alguma forma de ganho pessoal ou de determinado grupo. Negando, distorcendo, a pessoa adota um tom alternativo, que a deixa seguir em frente sem sentir culpa pelo seu individualismo, e ainda podendo influenciar a "turma" dela, em um momento em que criar versões da verdade parece ser mais fácil pelas mensagens dúbias das altas esferas do poder e pelo alcance que qualquer tipo de comentário pode alcançar nas redes sociais, que aceitam quase qualquer coisa.

Nesse sentido, nós, como sociedade, ainda teremos um longo e árduo caminho pela frente, desviado de egos, de achismos, de individualismos, de interesses pessoais, em detrimento de uma ação consciente e coletiva que possa nos tirar mais rapidamente da grave situação que enfrentamos.

Será que vamos ser melhores depois da pandemia? Talvez como indivíduos, alguns tenham aprendido (às custas de muitas perdas) e se tornado mais atentos e solidários, mais conectados com o coletivo, já infelizmente, como grupo, como humanidade, de uma forma mais geral, me parece até esse ponto que seguimos devendo, e muito!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL