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Jairo Bouer

Mais uma batalha que vem pela frente: a resistência à vacinação

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Imagem: iStock
Jairo Bouer

Jairo Bouer é médico formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e bacharel em biologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Fez residência em psiquiatria no Instituto de Psiquiatria da USP. Nos últimos 25 anos tem trabalhado com divulgação científica e comunicação em saúde, sexualidade e comportamento nos principais veículos de mídia impressa, digital, rádios e TVs de todo o país.

Colunista do VivaBem

16/01/2021 04h00

Com a proximidade do início da vacinação contra o novo coronavírus no Brasil, possivelmente já na próxima semana, um novo obstáculo deve surgir pela frente das autoridades em saúde pública: a resistência de parte da população em se proteger por meio de um imunizante.

Reflexo do enfrentamento da pandemia (des)conduzido pelo Ministério da Saúde, sem uma coordenação cerebral de ações de mitigação e prevenção, a chegada da vacina vai deixar parte da população brasileira distante da proteção.

"Ineficaz, pesquisa feita às pressas, rabo de jacaré, homem que fala fino, mulher com barba", entre outras pérolas proferidas pelos arautos das fake news nas redes sociais e na voz de autoridades, acrescentam ainda mais ingredientes nesse caldo de hesitação e de resistência.

O fenômeno não é só brasileiro, diga-se de passagem, mas deve ser carregado de tintas mais fortes por aqui nos próximos meses, como vários outros fenômenos que pioraram nossa resposta à pandemia, como o desrespeito sistemático de parte das nossas lideranças e da população a medidas de distanciamento social e uso de máscara.

Na Austrália, por exemplo, pesquisa de dezembro de 2020 da Universidade Nacional Australiana (ANU), revelava que apenas 3 em cada 5 australianos (58,5%) tomariam certamente a vacina assim que disponível. Seis por cento não tomariam de forma alguma e outros 7% provavelmente não tomariam. Outros 28,5% possivelmente se vacinariam, mas não estavam certos.

De acordo com o trabalho, mulheres de baixa renda, pessoas com menor escolaridade, os mais jovens, quem acreditava que os riscos da covid-19 são superestimados e aqueles com visão mais populista e com maior religiosidade tendiam a estar mais hesitantes ou resistentes em se vacinar. Para os especialistas, uma campanha com as mensagens e informações corretas poderia influenciar parte dos indecisos, mas para aqueles com crenças mais enraizadas, isso pode não ser suficiente.

Uma outra pesquisa americana do início de 2019, portanto antes da pandemia, ajuda a entender que mudar essas crenças e a resistência a vacinas pode ser mais complicado do que se imagina. Os pesquisadores usam um fenômeno físico-matemático conhecido como histerese para explicar essa resistência. Em resumo, um sistema tende a conservar suas propriedades mesmo na ausência do estímulo que o desencadeou.

Assim, notícias falsas e desinformação sobre a vacina, com esse acréscimo pitoresco (para não dizer bizarro) de mentiras sobre efeitos colaterais, pode gerar uma "deformação" na compreensão das pessoas sobre a importância da proteção que, mesmo com uma campanha e uma articulação social muito bem-feitas, pode ser difícil e demorada para ser alterada. Basicamente, o estrago que vem sendo sistematicamente provocado nas medidas de prevenção e proteção contra o novo coronavírus pelas "fake news" pode dar um trabalho hercúleo para ser revertido.

Aqui no Brasil, os epidemiologistas têm apontado que com as vacinas possivelmente disponíveis mais imediatamente (CoronaVac e Oxford-AstraZeneca), com eficácias na casa dos 50%-60%, uma parte maior da população teria de estar imunizada para garantir uma imunidade coletiva e, portanto, uma queda impactante nas taxas de transmissão.

Pesquisa do Datafolha divulgada há cerca de um mês revelava que 22% dos brasileiros pretendiam não se vacinar e outros 5% estavam indecisos. Setenta e três por cento disseram que se vacinariam. A resistência à vacinação havia aumentado de forma importante em relação à pesquisa nacional feita em agosto de 2020 (apenas 9% informavam que não se vacinariam naquela altura). A maior resistência apareceu em relação a vacinas vindas da China (50% não tomariam), e 23% não receberiam vacinas americanas.

Fica evidente que estamos diante de um longo caminho para conseguir, além de estruturar e escalonar a vacinação para uma população gigantesca, conseguir mudar crenças, hesitações, resistências e mentalidades, para que a maior parte da população possa estar protegida e possa proteger "por tabela" aqueles que se recusam a participar desse esforço coletivo.

Temos muitas dúvidas, mas a certeza é que só a vacina vai conseguir nos tirar desse caos humanitário, sanitário, social e econômico que estamos vivendo. Por favor, assim como eu vou fazer, assim que chegar minha vez na fila, faça sua parte e vacine-se!