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Jairo Bouer

Tomar antidepressivo ou ter orgasmos: será que é preciso escolher?

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Jairo Bouer

Jairo Bouer é médico formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e bacharel em biologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Fez residência em psiquiatria no Instituto de Psiquiatria da USP. Nos últimos 25 anos tem trabalhado com divulgação científica e comunicação em saúde, sexualidade e comportamento nos principais veículos de mídia impressa, digital, rádios e TVs de todo o país.

Colunista do VivaBem

19/10/2020 04h00

Quem toma ou já tomou antidepressivo sabe que esse papo de "droga da felicidade" é puro mito. Nem todo mundo responde aos medicamentos da mesma forma, mas, para muita gente, eles são essenciais para controlar quadros de ansiedade e depressão. E, embora essas doenças afetem muito a vida sexual, não dá para negar que alguns antidepressivos também podem atrapalhar.

Veja o depoimento de uma amiga, que toma antidepressivos há muitos anos, sobre o assunto:

"Quando você está mal, tudo o que você quer é ficar bem. Mas, depois que os sintomas diminuem, certos efeitos colaterais começam a incomodar muito. No meu caso, os orgasmos viraram miragem. Como meu quadro é crônico, tive que trocar de medicamento diversas vezes até encontrar um que funcione sem atrapalhar tanto o sexo, e ainda associar outra substância que ajuda nessa parte. Infelizmente, nem todo mundo tem a sorte de contar com uma psiquiatra como a minha, que valorizou a minha queixa e me ajudou a encontrar uma solução."

Mulheres e antidepressivos

O Brasil é o país com mais ansiosos do mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), e o que tem mais casos de depressão em toda a América Latina. As mulheres são duas vezes mais propensas a sofrer de depressão e ansiedade e, como o tratamento de ambos pode envolver o uso de antidepressivos, dá para concluir que o número de usuárias é alto. Nos EUA, a proporção é de uma em cada seis mulheres.

As queixas mais comuns na esfera sexual entre as mulheres que tomam antidepressivo são redução do desejo, falhas na excitação ou dificuldade para alcançar o orgasmo. Esse último efeito colateral costuma ser o que gera mais revolta entre as mulheres e seus parceiros. No livro "Depois a Louca Sou Eu", a escritora Tati Bernardi dá uma ideia do perrengue: "Não é que você não goze, mas pode demorar tanto que o sexo fica com cara de 'fila para tirar visto'."

É bom avisar que a frequência desses efeitos sobre a sexualidade varia muito entre os diversos tipos de antidepressivo. Também depende da dose utilizada e do tempo de uso. Além disso, o mesmo remédio pode ter impactos distintos em cada pessoa. Os maiores vilões, segundo uma revisão de estudos feita há algum tempo pela Clínica Mayo, nos EUA, são as drogas que atuam sobre a serotonina (como fluoxetina, paroxetina, sertralina, citalopram, escitalopram e venlafaxina, entre outras). Há até alguns casos raros de mulheres que perdem a sensibilidade na região genital com essas drogas. Alguns antidepressivos mais antigos, como a clomipramina, também podem atrapalhar o sexo, bem como outras classes de medicamentos usados na depressão bipolar ou em quadros psicóticos.

Os homens também reclamam desses efeitos colaterais? Com certeza. O problema é que muitos dos fatores que tornam as mulheres mais suscetíveis à depressão e à ansiedade também fazem com que elas sejam mais propensas a relatar redução do desejo, dificuldades para manter a excitação e incapacidade de chegar ao orgasmo. Variações hormonais, história de abuso, sobrecarga de funções e pressão para ter um corpo perfeito são "ótimas" sementes para transtornos mentais e disfunção sexual.

Os homens ainda têm outra vantagem: medicamentos para problemas de ereção (como sildenafil, vardenafila e tadalafila) costumam funcionar como antídotos para parte das queixas contra os antidepressivos. As mulheres não respondem a essas substâncias.

O que fazer?

A primeira providência é conversar com o psiquiatra. Isso é mais fácil para quem vai com frequência às consultas, mas pode ser um desafio quando o atendimento é mais esparso ou quando a paciente tem vergonha de falar sobre sexo.

Saiba que há muitos antidepressivos com mecanismos diferentes de ação, e alguns deles têm menos efeitos sobre o sexo (como bupropiona, mirtazapina e trazodone, este último mais usado contra insônia). Em alguns casos, quando a medicação não pode ser substituída, pode-se pensar em reduzir um pouco a dose e associar outra substância.

A psicoterapia também é fundamental tanto para o tratamento dos transtornos como para lidar melhor com os problemas sexuais. O terapeuta pode ser útil, por exemplo, quando há dificuldade de se comunicar com o parceiro —lembre-se que eles são parte da solução! Como muitas celebridades têm dito por aí, "vibrador é vida", mas trazer o apetrecho para a cama pode exigir um certo jogo de cintura com o parceiro ou a parceira.

Por último: o estilo de vida também interfere no humor e no sexo. A atividade física regular pode ser uma estratégia para reduzir a dose do antidepressivo, e seus benefícios para a circulação têm reflexo tato na cabeça como "ali embaixo". Muitas mulheres também relatam melhora nos orgasmos com a fisioterapia para o assoalho pélvico. Malhar ainda melhora o sono, que por sua vez favorece a libido. Até quem não toma remédio nenhum tem transado menos por falta de descanso durante essa pandemia que parece não acabar nunca.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL