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Gustavo Cabral

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Vacina para crianças de seis meses a cinco anos 'está a caminho'

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Gustavo Cabral

Gustavo Cabral é imunologista PhD pela USP (Universidade de São Paulo), pós-doutorado pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e pela Universidade de Berna (Suíça), e pesquisador da USP/Fapesp

Colunista do UOL

20/06/2022 04h00

Depois de quase dois anos e meio de pandemia e tanta luta para orientarmos a sociedade quanto às estratégias de proteção individual, coletiva, por exemplo com a vacinação, chegamos a um momento em que estamos cansados, principalmente pela série de agressões que temos sofrido nesse período de pandemia, vindo de seguidores do governo federal, negacionistas, antivax etc.

Mas não podemos baixar a guarda, pois estamos voltando a crescer no número de casos de covid-19 no Brasil, assim como o número de mortes, enquanto a vacinação estacionou na casa dos 50% para pessoas elegíveis tomarem a terceira dose, ou chamada dose de reforço.

Quando falamos de pessoas elegíveis, vacináveis, estamos cintando pessoas de cinco anos ou mais. Porém, isso deve mudar em breve, pois as vacinas da Pfizer, assim como a da Moderna, já estão sendo licenciadas para aplicar em crianças de seis meses até cinco anos. Dessa forma, o caminho natural é que a Pfizer encaminhe a documentação para a Anvisa e esta vacina seja licenciada em breve.

Com isso, o cálculo de doses aplicáveis vai levar em consideração a população quase total, pois menores de seis meses não recebem vacinas contra a covid-19 e, consequentemente, o percentual de vacinados com três doses será em torno de 45%.

Deixando essa numeração de vacinados de lado —embora seja o principal fator que condena o crescimento de picos de morte pela covid-19—, vamos falar da vacina para crianças menores de cinco anos.

Primeiro, como já escrevi aqui, esse é o grupo de maior risco entre crianças e adolescentes, e o único grupo desprotegido pela vacina. Levando em consideração que o vírus voltou a circular consideravelmente, concomitante às ações irresponsáveis de flexibilização total, temos que imunizar nossas crianças o mais rápido possível, assim que a Anvisa licenciar a vacina.

Claro que sempre temos a possibilidade de ações irresponsáveis, como aquelas feitas pelo Ministério da Saúde, que adiou a vacinação das crianças de cinco a 11 anos com a desculpa de que precisaria fazer uma consulta pública. Imagine seu familiar passando por uma situação grave, e o médico vir perguntar se você quer que ele seja levado para uma cirurgia e se deve aplicar uma anestesia X ou não, antes do procedimento. Fazendo com que você, que não é um técnico da ciência médica, decida isso, enquanto o profissional foge da responsabilidade e seu familiar possa ter sérias complicações.

Bom, como supracitado, as vacinas da Moderna e da Pfizer estão em processo de licenciamento pela agência reguladora americana, a FDA. Mas vamos dar atenção principal para a vacina da Pfizer, pois dessas duas, a da Pfizer é a única aplicada aqui no Brasil.

O que aconteceu semana passada foi que o painel consultivo da FDA aprovou essas vacinas por unanimidade. Mas vale ressaltar que houve observações quanto ao número de doses da vacina da Pfizer, por necessitar de três aplicações para gerar uma alta eficácia. Lembrando que a concentração dessa vacina é de 3 microgramas, ou seja, um décimo da aplicada em adultos.

Mas qual o problema disso, o caro leitor pode questionar.

Problema com a vacina não há. Mas, em termos de logística, precisamos de uma campanha de vacinação muito bem feita, pois nem em adultos nós estamos conseguindo avançar com a dose de reforço, apesar de falarmos tanto que após a ômicron o esquema completo de vacinação é com três doses.

Dessa forma, a gente pode levar uma ou duas vacinas para as crianças (de seis meses a quatro anos) sem conseguirmos a devida proteção, ao mesmo tempo que muitos venham a relaxar com os cuidados. Ou seja, consequentemente, esse grupo continua exposto.

Com certeza teremos muito mais informações em breve sobre os dados dos estudos e a decisão final da FDA, mas nunca acontece do corpo técnico consultivo da FDA aprovar algo e a agência reguladora negar. Além dos votos finais e decisão da agência, muito mais informações serão disponibilizadas e nos darão melhores condições para nos aprofundarmos com isso.

Por fim, precisamos ficar de olhos abertos para exigirmos que as vacinas sejam levadas para a população infantil o mais rápido possível, assim que a Anvisa aprovar, para não chegarmos a uma situação de lermos denúncias sobre vacinas prestes a vencer, enquanto diversos lugares no planeta sofrem por falta de imunizantes. Assim como devemos exigir campanhas de vacinação e orientação social, pois o que temos é um programa federal de desorientação social.