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Gustavo Cabral

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Quando e como haverá vacina segura contra a dengue? A que temos não serve?

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Gustavo Cabral

Gustavo Cabral é imunologista PhD pela USP (Universidade de São Paulo), pós-doutorado pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e pela Universidade de Berna (Suíça), e pesquisador da USP/Fapesp

Colunista de VivaBem

23/05/2022 04h00

Uma das coisas que mais precisamos melhorar na comunicação científica é a forma que levamos as informações para a sociedade, seja na simplicidade das palavras (tornar as informações técnicas acessíveis), seja na veracidade do que é passado, pois não podemos simplificar sem manter os rigores do conhecimento científico.

Acrescento a esses pontos o compartilhamento de responsabilidades, pois precisamos ser conscientes de que a ciência tem por objetivo servir à vida, mas quando não há suporte político, social e financeiro, o conhecimento produzido será para servir ao capital financeiro, pois geramos muitos conhecimentos que são compartilhados por publicações, mas são pouco usufruídos socialmente. Isso se encaixa perfeitamente nessa situação do desenvolvimento de vacinas para doenças emergentes e negligenciadas, como a dengue.

Entendam, essa é uma doença causada por um vírus de regiões tropicais e subtropicais, que precisa de vetores para sua transmissão, como o famoso mosquito Aedes aegypti. Portanto, é um problema "só nosso". Países ricos, como Estados Unidos, Canadá e da Europa, só irão se preocupar quando houver interesse econômico e/ou de suas populações.

Por exemplo, quando há financiamentos exclusivos para o desenvolvimento dessas vacinas, por fundações multibilionárias como a Fundação Bill Gates (Bill & Melinda Gates Foundation), todos aparecem como salvadores da sociedade. Ou,

Países dominantes cientifico e financeiramente só passam a ter ações para desenvolver estratégias de combate ao problema quando acontece algo que deixa a sociedade "aterrorizada" —por exemplo, quando reemerge um vírus como o zika e ele é associado com o desenvolvimento de problemas neurológicos nas pessoas infectadas, ou que é capaz de induzir microcefalia em bebês e possível transmissão sanguínea ou sexual.

Agora, quando não preocupam os países ricos e seguem periféricas, essas doenças são "esquecidas", tratadas como se nunca tivessem existido, apesar de os vírus da dengue e da zika serem conhecidos desde a primeira metade do século passado.

Portanto, ou o Brasil assume a responsabilidade de lutar para ser um país potente cientificamente e buscar soluções para essas doenças, ou nos conformemos com essas mazelas de países pequenos e insignificante cientificamente, em que exportamos os cérebros e importamos produtos.

E a vacina contra a dengue que já existe?

Para resolvermos o problema da dengue, precisamos de vacinas. Inclusive, já existe uma, a Dengvaxia®, licenciada para uso humano e que oferece boa proteção contra os quatro sorotipos de dengue (1, 2, 3 e 4).

Essa vacina utiliza uma tecnologia de vírus atenuado, enfraquecido. Além disso, é uma vacina quimérica tetravalente, ou seja, com modificações em sua estrutura, para conseguir induzir uma resposta do sistema imune contra os quatro sorotipos viral, como supracitado.

No entanto, quando falamos de vacinas para esse tipo de vírus, os chamados flavivírus, gênero de vírus que o causador da dengue pertence, a gente precisa ter uma atenção a mais. Esses vírus podem causar um fenômeno chamado de antibody-dependent enhancement (ADE), que em português é a piora da doença causada pelos próprios anticorpos gerados pela vacina contra partes do vírus.

Isso pode acontecer pois algumas partes do vírus induzem a produção de anticorpos, mas esses não conseguem neutralizar o vírus, embora se liguem a algumas regiões virais. No entanto, a partir do momento que esses anticorpos se ligam no vírus e não o neutralizam, eles favorecem a entrada do vírus em células que antes não seriam infectadas, por falta de receptores para o vírus, ou seja, que não tinham porta de entrada.

Em palavras simples, é colocar um "bandido perigoso" dentro de casa ou da própria delegacia, sem que ele esteja algemado corretamente. Bom, com isso, o vírus vai poder se replicar em mais células do corpo e a viremia vai aumentar ainda mais. Isso vai gerar uma resposta sistêmica, com cascatas de resposta imunológica que vai acabar prejudicando nosso organismo, como acontece na tão temerosa dengue hemorrágica.

Dessa forma, nós precisamos ser muito cuidadosos em selecionar a parte do vírus que utilizaremos para desenvolver a vacina, para que isso não gere resposta inespecífica, ou seja, que produza anticorpos que não sejam neutralizantes.

Essa é a explicação mais plausível para os problemas que a vacina Dengvaxia® causou, o que levou a restrições de seu uso, pois ela usa o vírus inteiro. Isso foi descoberto porque, durante um programa de vacinação nas Filipinas, percebeu-se que crianças que não tinham sido previamente infectadas naturalmente com o vírus poderiam desenvolver complicações. Por isso, antes de nos vacinarmos, precisamos de uma pré-triagem para sabermos se já fomos infectados, para assim podermos nos vacinar sem o acometimento de complicações com a vacina.

Ou seja, para ser vacinada, a pessoa precisa antes ser examinada. Dessa forma, fica inviável aplicar essa vacina em larga escala em países de baixo poder aquisitivo, pois isso requer um alto investimento na vacina e no teste, além de uma logística muito bem feita e dispendiosa. Ou seja, quem tem condições vai ter a vacina, mas a população "pobre", que é a que mais sofre com esse tipo de vírus, vai continuar vulnerável.

Esse é um dos motivos para a minha equipe de pesquisa estar trabalhando com um pedaço pequeno da proteína do envelope dos vírus da dengue e do zika, que foi testado extensivamente sem gerar qualquer complicação para a saúde. Além da questão científica laboratorial e de saúde pública, tem o fator científico que envolve a questão política e econômica, pois precisamos desenvolver nossos produtos aqui no Brasil.

Como foi visto durante a pandemia da covid-19, nós temos uma dependência enorme de importação de insumos farmacêuticos, ao mesmo tempo que temos institutos de pesquisas maravilhosos, como o Instituto Butantan e a Fiocruz (Fundação Osvaldo Cruz).

Por fim, se quisermos nos tornar competitivos internacionalmente, precisamos olhar e trabalhar com ciência fora da caixinha, precisamos vê-la como o motor propulsor da economia nacional, como estratégia de saúde pública e que precisa de caminhos factíveis para a revolução educacional, pois com a educação destroçada, é fantasia achar que teremos ciência de ponta.