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Gustavo Cabral

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Aumento de casos de covid na China não é porque lá 'só usaram CoronaVac'

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Gustavo Cabral

Gustavo Cabral é imunologista PhD pela USP (Universidade de São Paulo), pós-doutorado pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e pela Universidade de Berna (Suíça), e pesquisador da USP/Fapesp

Colunista de VivaBem

18/04/2022 04h00

Muita gente ficou em estado de alerta quando, há cerca de 15 dias, um lockdown foi anunciado na China para conter um pico de infecções pelo coronavírus (Sars-CoV-2).

E não demorou muito para que negacionistas e pessoas que vivem compartilhando besteiras no WhatsApp concluíssem que o país asiático enfrenta uma nova onda de covid-19 pois aplicou na população "somente a CoronaVac" —entre aspas, pois o programa de imunização chinês também conta com a Sinovac (vacina de vírus inativado, mesma tecnologia da CoronaVac) e a vacina da CanSino (Convidencia), que usa um adenovírus como vetor viral (mesma tecnologia da AstraZeneca).

Antes de tudo, vamos colocar os pingos nos "is". O lockdown foi decretado na China pois lá eles adotaram a política de "covid zero" —isto é, por menor que seja, qualquer aumento de casos ou de mortes leva ao fechamento de determinados locais.

O país tem mais de 1,4 bilhões de habitantes e o novo pico que ocorreu por lá teve uma média de duas mortes diárias e de cerca de 25 mil casos por dia. Situação bem diferente e mais tranquila do que a do Brasil, por exemplo, em que políticos consideram a covid-19 praticamente controlada, mas temos uma média de 130 mortes e de quase 29 mil casos diários, para uma população de 210 milhões.

Comparando os números, vocês acham mesmo que a China está numa situação pior do que o Brasil? E que o lockdown lá ocorreu porque o país "só usou" CoronaVac, enquanto aqui foram aplicadas vacinas com outras tecnologias? O assunto já poderia ser encerrado por aqui, pois está claro que a covid-19 está muito mais controlada na China. Mas vamos aprofundar um pouco mais a discussão.

Lá, os casos estão sendo diagnosticados principalmente em idosos e o problema maior é em Hong Kong, onde o percentual de vacinação é baixíssimo. Como publicado em reportagem da Reuters, as próprias autoridades chinesas estão intensificando as campanhas para que idosos busquem se imunizar contra a covid, e citam o problema em Hong Kong como lição para que não aconteça o mesmo em toda a China.

O vice-diretor da Comissão Nacional de Saúde, Wang Hesheng, disse em uma coletiva de imprensa: "O surto em Hong Kong é uma lição particularmente profunda para nós, um exemplo de que, se a taxa de vacinação para idosos for baixa, a taxa de casos graves e mortes será alta". Ele completou: "Não devemos nos arrepender (somente) quando for tarde demais".

Os dados de vacinação no país são alarmantes, pois, até 17 de março, apenas 19,7% das pessoas com 80 anos ou mais havia recebido reforço da vacina contra a covid. E somente 50,7% dos idosos nessa faixa etária completaram a vacinação primária (tomaram duas ou uma dose, dependendo do imunizante).

Sendo assim, fica claro que o problema não é as vacinas de vírus inativado, como a CoronaVac, e sim a falta da imunização. Não podemos ser negligentes e trazer dados soltos, para reviver aquela história dos sommelier de vacinas, depois de tudo que já passamos. Não dá, né, pessoal?

Dose de reforço é essencial

Uma coisa é fato, depois da variante ômicron, apenas duas doses da CoronaVac não são suficientes para garantir proteção. E, no caso de idosos e imunodeprimidos, dependendo do tempo que tomaram a dose de reforço, já existem campanhas para a segunda dose de reforço (quarta dose). Porém, sinto dizer que não é apenas a CoronaVac que não é suficiente contra a ômicron, pois todas as demais vacinas precisam da dose de reforço.

Quero aproveitar para reforçar que estudos científicos publicados são muito importantes, mas dificilmente você verá muitos estudos tão bons como o feito em Serrana (SP). O "Projeto S" foi o primeiro estudo clínico controlado, com uma vacina sendo levada para todos os moradores maiores de 18 anos, para avaliar a eficiência vacinal no mundo real durante uma pandemia, sem impedir que as pessoas pudessem ir e vir para qualquer outro município —ou seja, podiam se infectar em outros locais em que a taxa de vacinação não era alta, o que permitiu avaliar a efetividade real da vacina. E, em Serrana, a CoronaVac funcionou muito bem: teve 94,9% de efetividade contra mortes.

Portanto, não entre em discussões que analisam a efetividade vacinal em estudos que coletam amostras de pacientes vacinados e que avaliam se há anticorpos capazes de neutralizar o vírus. Isso não é a vida real, não leva em consideração a memória imunológica num todo, que é capaz de acordar e responder rapidamente após o estímulo de uma infecção, por exemplo, mesmo que em exames os anticorpos não apareçam.

Vacinas funcionam

O fato é que, mesmo com as ações arriscadas no Brasil, como a excessiva liberação das máscaras, as aglomerações em shows e bares e a não vacinação de crianças de 0 a 4 anos, a imunização contra a covid-19 na maioria da população está ajudando a controlar a pandemia e, esperamos que, em breve, o controle seja total.

Por fim, não importa a vacina que a gente toma, o importante é estarmos imunizados. Quero concluir com uma reflexão:

Como vocês acham que controlamos todas as outras pandemias de doenças infecciosas que têm vacinas? Com vacinas modernas? Ou com vacinas de vírus inativado ("morto") e/ou atenuados? Pois é! Essa tecnologia é usada desde o século passado e sempre se mostrou muito eficaz.

Quero ressaltar que, para mim, que sou desenvolvedor de vacinas com novas tecnologias, seria até um "interesse pessoal" atacar vacinas com tecnologia "antiga", pois eu ganharia mais trabalho para criar novas vacinas. Mas isso seria vil social e humanamente!

Então, se alguém for criticar a CoronaVac ou qualquer outra vacina, que faça isso com propriedade científica, não com argumentos vazios, pois eu sempre defenderei todas as vacinas que se mostraram eficazes nos estudos e na vida real.