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Gustavo Cabral

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Em 2022, é necessário atualizar as vacinas contra a covid-19; entenda

Eric Gaillard/Reuters
Imagem: Eric Gaillard/Reuters
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Gustavo Cabral

Gustavo Cabral é imunologista PhD pela USP (Universidade de São Paulo), pós-doutorado pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e pela Universidade de Berna (Suíça), e pesquisador da USP/Fapesp

Colunista do UOL

10/01/2022 04h00

2020 foi o ano que tivemos de lidar com o desconhecido, com uma doença que se alastrou por todos os continentes do planeta. Porém, 2021 foi o ano das vacinas, que geraram uma enorme esperança para a humanidade.

Ao mesmo tempo, o Brasil demorou muito para obter as vacinas contra a covid-19 e não encarou o problema como deveria, repetindo os erros de 2020, com isso, tivemos o ano de maior fatalidade provocada por essa terrível doença.

Apesar de tudo, por termos um PNI (Programa Nacional de Imunização) muito bom e um povo que adere em massa às campanhas de vacinação, conseguimos fazer a imunização completa de dois terços da população.

Com isso, conseguimos reduzir o número de mortes de forma significativa. Não custa nada lembrar que, em abril de 2021, a gente chegou a bater a marca de 4.000 mortes em 24 horas, hoje estamos diminuindo para menos de 100 mortes por dia, mesmo com o surgimento de diversas variantes.

Dessa forma, o ano de 2022 tem que ser o ano de controle, em definitivo, das mortes provocadas pela covid-19, pois temos todas as armas para isso, mas precisamos saber usá-las, pois as vacinas estão segurando as mortes, mas até quando?

As vacinas desenvolvidas usando as informações genéticas do vírus isolado primeiramente em Wuhan, na China, são menos eficazes contra as novas variantes, em especial contra a ômicron, e isso precisa mudar, as vacinas precisam ser atualizadas.

A gente sempre discute sobre algumas variantes, mas existem milhares de variantes do coronavírus circulando na população, e "apenas" cinco são as chamadas variantes preocupantes: alfa, beta, gama, delta e ômicron.

Todas essas variantes quando identificadas e classificadas como variantes de preocupação, geraram uma série de restrições de viagens e afetaram drasticamente a economia mundial, além do prejuízo humano incalculável.

Todas essas variantes carregam mutações que geram características que favorecem o vírus, como o aumento da transmissibilidade. Para além disso, a variante ômicron tem conseguido um parcial escape imunológico gerado pelas vacinas.

Com isso, há a necessidade de mais uma dose de reforço para que as atuais vacinas consigam estimular o sistema imunológico a nos proteger contra a doença em estado moderado a grave.

Vale ressaltar que, com a aplicação de reforços, as vacinas continuarão funcionando, mesmo que parcialmente, contra as novas variantes, pois ao dar um reforço vacinal, acontece o estímulo de todo o sistema imune, além da produção de anticorpos que sempre falamos.

Mas, a humanidade não tem que passar por isso por muito mais tempo, sendo que o reforço com vacinas atualizadas ajuda a diminuir a quantidade de doses necessárias, além de aumentar a eficácia das vacinas e, consequentemente, favorece a aplicação de mais doses em países que mal tem vacinado sua população.

Além de não precisar expor a sociedade a todo esse transtorno de uma multiplicidade de vacinação, nem os efeitos colaterais que elas podem causar, mesmo que sejam geralmente "apenas" dores no local da aplicação e um certo mal-estar.

Ao citar essa questão de levar vacinas para toda a população mundial, levanto a questão de que, ou faremos isso, ou viveremos sob o medo constante do surgimento de novas variantes que consigam escapar ainda mais das vacinas e/ou serem mais letais.

Além, claro, da covid-19 continuar matando em países que não conseguem vacinar sua população como deve ser. Mas, essa parte é "fácil de esconder", pois com os números de morte caindo e a doença tornando-se periférica, a "população" vai manter a calma e seguir em frente, ao mesmo tempo que continuamos consumindo as vacinas para suprir a falta de controle da doença em países "pobres".

Dessa forma, acabamos com toda e qualquer ideia de que a ciência é para servir a vida, algo que acredito e trabalho com afinco! Porém, com as ações financeiras sobrepondo a vida, fica mais claro que a ciência é para servir aos negócios.

Seguindo nessa linha, quero levantar uma questão sobre a produção do conhecimento para desenvolver as vacinas, pois nenhuma das vacinas que as empresas vendem foram criadas por elas, mas, sim, em centros de pesquisa em diversas partes do planeta.

O que as empresas fazem é utilizar do conhecimento produzido por nós, cientistas, e publicado em revistas científicas, para aprimorar as tecnologias, patentear e produzi-las. Por exemplo, as pessoas falam que a tecnologia de mRNA para produzir vacinas é uma tecnologia nova.

Sinto informar, mas os primeiros artigos científicos publicados com essa tecnologia foram no começo dos anos 1990. Mas, como o mRNA era degradado ao aplicar no corpo, essa tecnologia ficou descrente por bastante tempo, até surgirem diversos trabalhos para colocar o mRNA em cápsulas de gordura e carregá-lo até as células do corpo para produzir as proteínas de interesse.

Com isso, as empresas utilizaram desse conhecimento, aprimoraram as técnicas de produzir mRNA e encapsular nas bolinhas de gordura e hoje ganham bilhões com isso. Então, utilizem esses bilhões para atualizar as vacinas e devolver para a sociedade!

Isso se aplica para todas as outras vacinas, desde as de vetores virais como a AstraZeneca/Oxford e Janssen, assim como as de vírus inativado, como a CoronaVac, ou qualquer outra tecnologia que estudamos.

Caro leitor, para concluirmos, queria perguntar por que vocês acham que isso ainda não aconteceu? Por que não estamos aplicando vacinas atualizadas? Poderíamos pensar que é porque as mutações estão acontecendo de forma muito rápida, e essa seria uma explicação razoável, mas muito simplista, pois tem o fator econômico que fala muito forte.

Por exemplo, em termos de conhecimento para atualizar as vacinas, isso não leva muito tempo, pois em boas condições de trabalho, nós, cientistas, fazemos isso rapidamente. Um fator que pesa muito é a produção dos IFAs (Insumos Farmacêuticos Ativos) para produzir as vacinas.

A quantidade de IFA produzido utilizando as informações genéticas dos primeiros vírus identificados, como o vírus de Wuhan, é muito alta. Dessa forma, nenhuma empresa vai querer dispensar esses IFAs e perder os bilhões que eles podem gerar.

Outro fator que poderia explicar é relacionado ao "gargalo" de produzir uma quantidade global de vacinas. Seria também uma explicação razoável, mas depois de dois anos de pandemia e os bilhões de dólares gerados para as produtoras de vacinas, essas teriam condições de produzir vacinas para toda população do planeta, no entanto, a produção de vacinas é para quem pode pagar, não para quem precisa.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL