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Gustavo Cabral

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

CoronaVac não pode ser dispensada, ela é estratégica para os mais novos

Amanda Perobelli/Reuters
Imagem: Amanda Perobelli/Reuters
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Gustavo Cabral

Gustavo Cabral é imunologista PhD pela USP (Universidade de São Paulo), pós-doutorado pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e pela Universidade de Berna (Suíça), e pesquisador da USP/Fapesp

Colunista do UOL

13/12/2021 04h00

Estamos vivendo um momento extremamente complicado provocado pela pandemia da covid-19. Além disso, temos um governo federal com raízes anticientíficas, negacionistas e com ações políticas que dificultam o controle da pandemia.

Uma delas é que o Ministério da Saúde tem informado que não contará com o Instituto Butantan para fornecer a CoronaVac para 2022. E isso é um erro absurdo!

Acho justo quando ouço pessoas dizendo que a Sinovac, através do Butantan, solicite o registro definitivo junto a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Acho que isso deve acontecer o mais breve possível!

Eu ainda reforço que o Butantan deve insistir no licenciamento desta vacina junto a Anvisa para ser aplicada em adolescentes, como esta acontecendo em países com Chile e Colômbia, que tem agências reguladoras respeitadas.

Ainda insisto que não deve parar apenas para adolescentes, mas, sim, para crianças a partir de 6 meses. E vou explicar o porquê, antes que as agressões e ameaças surjam, embora as explicações científicas não impeçam muito isso de acontecer. Mas não importa, vamos discutir ciência e deixar quem não se preocupa com a vida de lado.

Recentemente publiquei um texto aqui em VivaBem sobre a importância de vacinarmos crianças e adolescentes, em que cito dados publicados pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) mostrando que quase metade das crianças e adolescentes mortas pela covid-19 em 2020 tinham até 2 anos de idade. E com a dispersão do vírus e adaptação ao corpo humano, isso tem se tornado mais perigoso. Dessa forma, temos que considerar esse público para ser vacinado.

Quero brincar um pouco de imunologia e vida, para que entendamos os motivos de vacinar crianças, daí fica mais fácil falar da CoronaVac. Vale ressaltar que a criança que nasce de mães vacinadas com a vacina contra a covid-19, tem em sua circulação anticorpos IgG, que são passados pelo cordão umbilical.

Além disso, durante a amamentação, a mãe passa outro anticorpo muito importante chamado IgA, que são anticorpos encontrados nos tecidos de mucosas, e são primordiais para combater infecções respiratórias, por exemplo, a infecção pelo coronavírus.

Porém, esse tipo de imunização, chamada passiva, em que os anticorpos são passados para, nesse caso, o bebê, tem durabilidade muito curta. Diferentemente da imunização ativa, quando ativamos o sistema imunológico a produzir os próprios anticorpos.

Além disso, imunidade passiva não gera memória, e os anticorpos logo irão desaparecer. Enquanto a imunidade ativa, pela vacina, ativa o sistema imune e gera memória nas células que produzem os anticorpos. Sendo assim, precisamos vacinar as crianças o mais cedo possível.

Mas aí surgem os vários movimentos antivaxx que vem dizendo que essas vacinas foram produzidas muito rapidamente e que não confiam na segurança e tal. Já expliquei isso várias vezes, mas parece que não querem ouvir!

Porém, hoje quero chamar a atenção para a vacina CoronaVac, pois quando as pessoas vêm com palavras agressivas falando que nunca deixarão vacinar seus bebês com essa vacina, eu pergunto: "Vocês vacinaram contra a poliomielite? Aquela vacina que evita que seus bebês não desenvolvam a paralisia infantil, caso seja infectados com os vírus da pólio tipos 1, 2 ou 3?"

Então queria lembrar que essa vacina usa a tecnologia do vírus inativado ("morto") logo nas três primeiras doses, que começa a partir dos 2 meses de vida e completa a imunização com doses aos 4 e 6 meses de vida.

Pois é, é a mesma tecnologia usada para desenvolver a CoronaVac: vírus inativado ("morto"). E ainda tem mais reforços entre 15 e 18 meses e aos 5 anos de idade, mas nesse caso nem é com o vírus "morto", mas, sim, enfraquecido. Vale lembrar que a vacina não causa a doença!

Mas, aí você pode falar, e os efeitos colaterais que causam a CoronaVac? Tipo febre, mal-estar, diarreia e dor de cabeça. Esses efeitos colaterais que citei são os efeitos colaterais que podem ser provocados pela vacina contra a pólio. São os mesmos.

Esse foi um exemplo clássico para chamar atenção para a importância de mantermos a CoronaVac no calendário vacinal brasileiro e que essa vacina pode ajudar a salvar muitas vidas, em especial das crianças e adolescentes, além do grupo adulto.

Pode surgir outra pergunta: sera que ela terá a mesma eficácia nas crianças que tem nos grupos mais velhos?
Até o momento são apenas previsões, pois precisamos de dados para afirmar algo. Mas, assim como falei anteriormente que essa tecnologia não era uma que poderíamos esperar uma eficácia muito alta para proteção de casos leves, ela pode gerar uma proteção significativamente alta nos grupos mais jovens.

O motivo é porque quando somos jovens temos o órgão que matura as células T do sistema imune, e que são muito importantes no combate a covid-19, bastante robusto e ativo. Esse órgão, chamado timo, é encontrado na parte anterior do tórax, entre os pulmões e o coração, e bastante vigoroso do nascimento até a adolescência, fazendo assim com que o sistema imunológico atue de forma plena. Apesar de que, enquanto bebês, o sistema imune ainda está em maturação.

No entanto, quando vamos envelhecendo, o timo tende a reduzir de tamanho e eficácia, chegando a quase desaparecer durante a velhice. Claro que, vale ressaltar, ainda temos bastante células T maduras circulando em nossos corpos, em especial nos órgãos lifoides, principais locais que acontecem a resposta imunológica.

Mas a produção baixa bastante. Sendo assim, o uso da CoronaVac nesse grupo que tem o sistema imunológico pleno pode ser mais uma arma extremamente eficiente no combate a pandemia da covid-19.

Além disso, depender apenas de uma vacina, como a da Pfizer, que é licenciada para adolescentes e solicitada para aplicar em criança, é uma aposta muito arriscada, pois caso tenhamos algum problema com essa vacina e não possamos distribui-la para toda população, pode dificultar o combate a covid-19.

Ou seja, vamos exigir que o Ministério da Saúde largue de idiotice e priorize a vida através da vacinação. E que respeitem a CoronaVac, pois é uma dessas armas que não podemos dispensar.