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Gustavo Cabral

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Artigo denuncia erros em pesquisa da vacina da Pfizer; é preciso investigar

Aloísio Maurício/Fotoarena/Estadão Conteúdo
Imagem: Aloísio Maurício/Fotoarena/Estadão Conteúdo
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Gustavo Cabral

Gustavo Cabral é imunologista PhD pela USP (Universidade de São Paulo), pós-doutorado pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e pela Universidade de Berna (Suíça), e pesquisador da USP/Fapesp

Colunista do VivaBem

03/11/2021 14h04

Ontem (2), foi publicado no prestigiado período científico BMJ (British Medical Journal) um artigo que faz denúncias de que práticas científicas inadequadas foram adotadas em testes da vacina da Pfizer e também houve falsificação de dados. Segundo o artigo, isso poderia ter prejudicado a integridade dos resultados obtidos na pesquisa e até mesmo a segurança dos pacientes.

As acusações foram feitas por Brook Jackson, ex-diretora regional da Ventavia Research Group —empresa que conduziu testes da vacina nos EUA. Ela alegou que a companhia falsificou dados, usou pacientes "não cegos" (os pesquisadores e/ou quem recebeu a dose sabiam se estavam tomando vacina ou placebo), empregou vacinadores sem treinamento adequado e demorou para acompanhar eventos adversos relatados no estudo principal de fase III.

Essas denúncias são extremamente graves, principalmente por terem sido publicadas em um jornal muito respeitado na área médica. Vale explicar que o BMJ não faz parte de uma mídia convencional e sem rigores editoriais. O periódico é considerado fonte confiável de literatura médica, extremamente influente e conceituado no mundo quando o assunto é saúde pública.

Porém, é importante frisar que quem escreveu o artigo foi Paul Thacker, uma figura esdrúxula que tem trabalhado amplamente para dar visibilidade aos grupos antivacinas e atacado veementemente os comunicadores científicos de respeito, ao mesmo tempo em que se coloca como um comunicador científico e investigativo, além de ter sido foi vacinado contra a covid-19 (ou seja, atua contra as vacinas, mas fez questão de ser imunizado).

Mas vamos focar no que foi publicado, pois há muitas coisas ali que precisam ser investigadas e explicadas para a população. Historicamente, as vacinas são essenciais para garantir a saúde pública e não podemos deixar que ações possivelmente inadequadas de uma empresa ou que o artigo de um comunicador anti-vax que produz conteúdo duvidoso prejudiquem a reputação que a vacinação conquistou ao longo do tempo.

As acusações são extremamente graves e é preciso investigar o quanto antes se realmente houve falsificação de dados mesmo ou se as acusações são falsas.

A vacina é segura

Diversas outras pesquisas já foram feitas ao redor do mundo e as acusações não devem colocar em xeque a eficácia e segurança da vacina, muito menos fazer alguém mudar de ideia e deixar de tomar sua dose. Isso precisa ficar claro.

Porém, estou cobrando que as acusações sejam investigadas pois elas falam de erros graves nos dados do estudo, que devem ser esclarecidos. Durante a pesquisa, por mais leves que sejam os sintomas gerados, quando eles não são corretamente acompanhados e não há notificação precisa de possíveis efeitos adversos gerados, os resultados de eficácia e segurança da vacina podem não ser corretos —o que pode, inclusive, prejudicar estratégias de saúde pública e de distribuição das vacinas.

Por isso, no meio científico chamamos tanto a atenção para que os estudos sejam duplo cego —ou seja, nem os voluntários nem os profissionais saibam o que estão injetando. Isso impede que ações de interesse pessoal prejudiquem os resultados do estudo (alguém que é anti-vax e na pesquisa sabe que recebeu a vacina e não placebo, por exemplo, poderia se colocar em situações de risco para ser infectado, o que derrubaria o percentual de eficácia do imunizante). Ou que os dados sejam falsificados (por exemplo, cientistas não notificarem que pessoas vacinadas ficaram doentes, o que faz com que os percentuais de eficácia do imunizante aumentem).

Todos os estudos para uso de uma vacina na população devem seguir a metodologia científica à risca, incluindo a questão da pesquisa ser duplo-cega. Por isso é preciso investigar se a pesquisa não manteve os rigores científicos e punir os responsáveis.

Por que denúncias não foram feitas antes?

O artigo do BMJ diz que Brook Jackson notificou a Ventavia várias vezes sobre os problemas no estudo. Depois, enviou uma reclamação por email ao FDA (Food and Drug Administration, órgão americano similar à nossa Anvisa). No dia em que fez isso, Jackson foi demitida. Então, a diretora forneceu ao BMJ dezenas de documentos internos da empresa, fotos, gravações de áudio e emails.

Jackson tirou várias fotos com o telefone celular que mostram agulhas descartadas em um saco plástico de risco biológico, em vez de uma caixa de contêiner para perfurocortantes, que é a forma correta de descartar esse tipo de material. Outro exemplo foi fotografias que mostram materiais de embalagem de vacina com os números de identificação dos voluntários da pesquisa deixados em aberto, potencialmente revelando quem eram os participantes.

A questão dos erros técnicos no local de aplicação é preocupante, mas não compromete tanto os dados do estudo —porém, se realmente aconteceu, colocou em risco a saúde dos participantes. Agora, o fato de terem achado sacos identificação dos voluntários, caso seja real, é uma acusação gravíssima.

Isso precisa ser investigado, pois não poderia acontecer de forma alguma. Quando solicitamos a assinatura do documento de participação de cada voluntario, garantimos que a identidade deles será preservada. Ao mesmo tempo, se não houver cuidado com as informações, elas podem ser usadas para manipular os resultados —com já expliquei acima.

Outra coisa extremamente preocupante é sobre a ação do FDA. Se a agência foi notificada por uma diretora da Ventavia sobre esses casos de possíveis falsificações de dados, acompanhamento incorreto de possíveis efeitos colaterais provocados pela vacina e métodos inadequados de aplicação, deveria ter feito imediatamente uma inspeção surpresa no local.

Pessoas e empresas ordinárias passam, mas agências reguladoras ficam e precisam manter a credibilidade, para que não entremos em um caos social, pois praticamente tudo que consumimos tem avaliação de agências reguladoras.

Repito: todas essas questões devem ser investigadas e, se as acusações forem verdadeiras, os responsáveis punidos. Mas reforço que uma empresa ou pessoas mal-intencionadas, por mais perversas que sejam, não podem afetar nossa luta contra a pandemia e dar munição aos anti-vax.

As vacinas estão funcionando muito bem no combate e controle de mortes provocadas pela covid-19 e, em breve, vão permitir que a gente volte a viver com segurança, sem medo de ir trabalhar, estudar e buscar uma vida digna socialmente. Ao mesmo tempo, temos que cair em cima dessas ações tenebrosas, venham de onde vier!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL