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Gustavo Cabral

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Pobreza menstrual é afetada pela pobreza mental e humana de Bolsonaro

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Gustavo Cabral

Gustavo Cabral é imunologista PhD pela USP (Universidade de São Paulo), pós-doutorado pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e pela Universidade de Berna (Suíça), e pesquisador da USP/Fapesp

Colunista do UOL

11/10/2021 11h58

Na semana em que chegamos à triste marca de 600 mil mortes provocadas pela covid-19 devido à má administração e combate a esse mal que expôs todo o planeta a um verdadeiro caos, nós, brasileiros, ainda precisamos conviver com uma soma de asneiras ditas e feitas pelo presidente da República.

Com isso, passamos a "normalizar" essas questões, pois sabemos que sempre aparecerá algo fora do comum. O problema de normalizar é que muitas dessas ações têm levado a um verdadeiro genocídio, em que os grupos afetados são aqueles mais vulneráveis.

No entanto, precisamos falar em "genocídios", no plural e de forma atemporal, pois temos associado essa expressão ao "genocídio" causado pelas ações equivocadas e irresponsáveis no combate a pandemia.

Temos que pluralizar essa palavra, pois existem outras ações que levam a mesma população vulnerável a situações como fome extrema, doença e morte em massa.

A mais recente foi a ação de Bolsonaro em vetar a distribuição de absorventes para as mulheres mais vulneráveis. Mas o que isso pode acarretar na sociedade, em termos de saúde pública?

Embora não tenha nenhuma dificuldade em interpretar dados científicos biomédicos, pelo contrário, é uma das coisas que mais faço na vida, resolvi conversar com profissionais da área que têm uma vasta e importante formação e atuação nesse assunto.

Conversei com Juliana Sperandio, médica com residência em ginecologia e obstetrícia pelo Hospital das Clínicas da FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), assim como endoscopia ginecológica também pelo HC-FMUSP. Também fez aprofundamentos e cursos em medicina do estilo de vida: "Applying Health Coaching in Patient Care", na Doane University (EUA) e "The Herbert Benson MD Course in Mind and Body Medicine, 2020", na Harvard Medical School (EUA).

Além de Juliana, busquei uma segunda opinião, com outra profissional maravilhosa, Patrícia Carvalho, que é médica formada pela Escola Paulista de Medicina da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), onde também fez residência em ginecologia e obstetrícia. Patrícia luta para garantir à mulher a leveza de gestar, o direito sobre seu corpo e a liberdade de parir.

Acredita numa assistência pautada na evidência científica, na segurança da intervenção apenas se estritamente necessária e no compartilhar de olhares e experiências complementares, oferecendo às pacientes uma atenção humanizada e fisiológica à gestação, seja ela de alto risco ou risco habitual.

Minha primeira pergunta é superbásica: o que é pobreza menstrual?

Juliana Sperandio - A pobreza menstrual é definida como a impossibilidade de acesso a recursos, higiene, infraestrutura e conhecimento para que pessoas que menstruam possam cuidar de si durante o período menstrual.

Quanto da população sofre de pobreza menstrual?

Juliana - Os dados mostram que mais de 4 milhões de jovens não têm itens de higiene na escola quando estão menstruadas. Delas, 713 mil não têm acesso a chuveiro em suas residências e 1 em cada 4 brasileiras já faltou às aulas por não ter absorvente. Esses dados incidem mais em adolescentes de 12 a 15 anos.

Essa questão começa a seguir para um papel educacional muito forte que pode afetar o futuro dessas estudantes. Mas o que elas fazem quando não tem absorvente?

Juliana - Usam papel higiênico, jornal e miolo de pão no lugar dos absorventes!

Essa questão é extremamente complexa, pois afeta várias vertentes, desde educação, saúde publica e preconceitos, certo?

Juliana - Sim, trata-se de um problema de saúde pública, de carência de conhecimento, de falta de estímulo ao conhecimento do próprio corpo, de desmistificar tabus envolvendo a menstruação e proporcionar dignidade para pessoas que menstruam. E imagine como toda essa situação toma um rumo ainda pior em proporções, quando o próprio presidente veta a distribuição gratuita de um item de higiene pessoal, que permite dignidade para quem menstrua.

Depois desse diálogo com Juliana, busquei me aprofundar ainda mais sobre as questões de saúde pública e individual dessa população. Por isso, trago o papo que tive com Patrícia Carvalho.

Patrícia, podemos adentrar e exemplificar como essas ações do presidente da República podem afetar a saúde da mulher, por exemplo, os tipos de doenças às quais elas podem estar expostas? E se isso pode causar a morte?

Patrícia Carvalho - Do ponto de vista ginecológico e de saúde sexual e reprodutiva da mulher, a ausência de métodos adequados de higiene para o período menstrual expõe essas mulheres à maior incidência de DIPA (doença inflamatória pélvica aguda), desde cervicite, endometrite, abcesso tubo-ovariano e acometimento da cavidade pélvica.

São doenças que podem levar à necessidade de abordagem cirúrgica, impactam no futuro reprodutivo e aumentam os riscos de gestação ectópica inclusive, estando diretamente relacionadas a risco de morte. Isso tudo porque elas utilizam de outros métodos contaminados para tamponar o sangramento, intravaginal mesmo.

Surge assim outra questão de extrema importância individual e social, que são os fatores psicológicos e possíveis buscas para uma melhora econômica, certo?

Patrícia - Do ponto de vista psicológico, a menstruação, para nós, pessoas com vagina, em maior ou menor grau é um tabu, numa sociedade em que a virilidade, masculinidade e potência são ditas como regra. Então menstruar já é uma questão para a maioria das pessoas.

Naquelas que não podem esconder que estão "naqueles dias", mas, pelo contrário, são de fato expostas por isso, certamente teremos um agravo psicológico na história desse indivíduo. Assim, elas estarão mais exclusas do convívio social, de acesso a educação, a empregos fixos etc.

Por fim caro leitores, caso você seja um defensor desajuizado desse indivíduo letal chamado Jair Bolsonaro, você pode estar pensando: "Mas outros governos não distribuíam, por que cobrar apenas dele?"

Bom, te digo que se pensarmos numa evolução e melhora social e de conhecimento, precisamos entender que hoje temos muito mais informações dos problemas que isso pode causar e, por isso, temos lutado tanto para que as ações de saúde pública sigam num caminho para melhorar a vida da sociedade, em especial das mais pessoas mais vulneráveis.

Dessa forma, precisamos seguir buscando maneiras disso acontecer, não retrocedendo aos acontecimentos anteriores, caso contrário, vamos chegar a um ponto (se é que já não estamos) de achar que o genocídio indígena foi normal, ou que a escravidão era necessária, ou que a mulher deve ser subalterna ao homem, enfim, essas atrocidades históricas.

Por fim, vamos parar de buscar desculpas para defender esse atroz, e vamos buscar maneiras de melhorar as condições sociais, em especial para as pessoas mais vulneráveis, pois elas não têm tempo para discutir sobre a sua ou a minha opinião, elas precisam de assistência para ontem e por tempo indeterminado, até que passemos gerações lutando e conseguindo trazer essas pessoas para o lugar de direito, o lugar com dignidade humana.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL