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Gustavo Cabral

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Enquanto Brasil veta vacina para adolescentes, Pfizer anuncia para crianças

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Imagem: Getty Images
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Gustavo Cabral

Gustavo Cabral é imunologista PhD pela USP (Universidade de São Paulo), pós-doutorado pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e pela Universidade de Berna (Suíça), e pesquisador da USP/Fapesp

Colunista do VivaBem

21/09/2021 04h00

Enquanto enfrentamos uma verdadeira confusão gerada pelo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga —que suspendeu a vacinação de adolescentes com idade entre 12 e 17 anos no Brasil, colocando em xeque a eficácia e segurança da vacina da Pfizer/BioNTech—, as empresas que fabricam essa vacina divulgaram que ela é segura não apenas para adolescentes, como também para crianças de 5 a 11 anos.

Essa é uma ótima notícia pois, nos últimos dias, após a decisão de Queiroga, muitos pais ficaram desesperados por não saberem o que poderia acontecer com os filhos adolescentes que já tinham sido vacinados. Com o anúncio da Pfizer/BioNTech de que a vacina é segura, vem a tranquilidade de que os adolescentes não correm risco de ter problemas graves e fica a dúvida: quando a vacina poderá ser aplicada em nossas crianças?

Bom, isso é outro passo. Em primeiro lugar, os fabricantes precisam ter a autorização dos órgãos reguladores responsáveis de cada país (como a nossa Anvisa). Depois, precisamos de vacinas suficientes para levarmos para as crianças, sem prejudicar a aplicação da segunda dose nos adultos.

Não faz sentido termos alguns estados com a vacinação ainda restrita a adultos, sofrendo com a falta de doses, e outros vacinando crianças. O Brasil é um país em que a vacinação tradicionalmente funciona porque seguimos o Programa Nacional de Imunização (PNI). Ele tem o princípio básico de equidade, em que o país segue uma linha de imunização sem um estado se sobressair nem levar vantagem sobre outros, seja por força política, seja por força econômica.

A Pfizer e a BioNTech anunciaram que, ainda neste mês, vão buscar autorização para o uso emergencial da sua vacina em crianças nos EUA e na União Europeia. A consequência natural é que solicitem, também, para o uso no Reino Unido, Brasil e outros em países que fazem uso dessa vacina.

Vale ressaltar que o anúncio da Pfizer/BioNTech não foi após a publicação de dados em revista científica. Inclusive, as empresas ainda nem providenciaram dados de eficácia da vacina. A divulgação foi sobre a segurança e a capacidade da vacina em estimular o sistema imunológico, gerando, assim, uma perspectiva para que esse imunizante tenha uma ampla cobertura vacinal.

Os dados encaminhados para as agências reguladoras são muito mais completos e trazem muito mais detalhes do que os divulgados à sociedade ou até mesmo os publicados em revistas científicas. Portanto, se os dados apresentados não forem suficientes, o pedido de uso da vacina nesse grupo pode ser reprovado. Mas devemos lembrar que a Pfizer e BioNTech têm seguido uma linha muito correta com o que anunciam e o que apresentam para as agências reguladoras, consequentemente, têm conseguido as aprovações para aplicação da vacina nos mais amplos grupos de pessoas.

Como será o esquema de vacinação?

Em relação à forma de imunização, o anunciado foi que a injeção será em duas doses, como ocorre em adolescentes e adultos, mas a dose aplicada (quantidade do produto) em crianças será menor.

Porém, até que essas aplicações sejam definitivamente autorizadas pelas agências reguladoras, pelo amor de Deus, não vamos imaginar que podemos pegar a metade de uma vacina aplicada em adultos e injetar em crianças. Como falei, todas as ações que tomamos devem ser, primeiramente, avaliadas e permitidas pelas autoridades técnicas, por exemplo, a Anvisa aqui no Brasil.

Mesmo com uma dose menor, pelo que foi divulgado, as vacinas aplicadas em crianças devem gerar níveis de anticorpos semelhantes ou melhores do que em adultos, pois o sistema imunológico da garotada, assim como todo o sistema funcional do organismo jovem, é simplesmente formidável e conta com uma capacidade de resposta muito boa.

Vacina para todos!

Ao mesmo tempo que temos a alegria de saber que podemos contar com vacinas que podem ser aplicadas em todas as pessoas —a Pfizer já anunciou que em breve vai divulgar dados que mostram que sua vacina é segura para crianças que têm entre 6 meses até 5 anos—, temos também uma questão moral humana, que é o fato de que mais de dois terços das vacinas produzidas no mundo estão sendo mantidos em apenas 10 países, enquanto muitos países estão apenas iniciando a vacinação.

Recentemente, saiu um estudo mostrando que os países detentores da maioria das vacinas devem descartar centenas de milhões de doses que vão sair do prazo de validade. Isso é um absurdo!

Logo, vai chegar o momento em que a pandemia estará controlada em alguns lugares, enquanto o restante do mundo sofrerá com a covid-19. Se isso acontecer, nunca teremos paz por completo, pois além da moral humana em vermos carnificinas em diversos países pobres, isso pode gerar novas variantes que têm o poder de arrebentar diversos programas de controle da covid-19 em diversos países, incluindo os mais ricos.

Tanto aqui no Brasil quanto no restante do planeta, devemos pensar de maneira global, por meio de ações locais: ou seja, vamos nos vacinar e exigir que as vacinas sejam distribuídas de maneira ampla, sem permitir que nenhum estado ou município queira vacinar mais do que os outros. Para voltarmos a ter uma vida social com segurança, o mundo precisa trabalhar em parceria.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL