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Gustavo Cabral

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

"Gabinete das Trevas" atrasa vacinação e é mais uma ameaça à nossa ciência

Brasil, pandemia, coronavírus - iStock
Brasil, pandemia, coronavírus Imagem: iStock
Gustavo Cabral

Gustavo Cabral é imunologista PhD pela USP (Universidade de São Paulo), pós-doutorado pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e pela Universidade de Berna (Suíça), e pesquisador da USP/Fapesp

Colunista do VivaBem

08/06/2021 04h00

Ao assistir ao vídeo vazado sobre a formação do "gabinete paralelo" —ou das trevas, como alguns estão chamando— veio em minha mente diversas outras ações negacionistas e anticientíficas do nosso governo, pois ao lado do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) está o famoso deputado Osmar Terra (Plana), que falou que não haveria mais de 800 mortes aqui no Brasil por causa do coronavírus. Além dele, vemos médicos e "cientistas" defensores de tratamentos sem eficácia contra a covid-19, mas que podem levar a diversos efeitos colaterais extremamente perigosos —tudo isso já foi cientificamente comprovado por diversos estudos.

Bom, apesar de a "linha de pensamento" desse grupo, por si só, representar um grande perigo para a população, tem muitos outros pontos preocupantes nesse vídeo, principalmente nesse momento sombrio que a ciência do Brasil enfrenta, em que percebemos e sentimos muita dificuldade para desenvolver projetos de pesquisa de ponta no país.

No encontro do "Gabinete das Trevas", um dos pesquisadores diz que, na véspera, estava em uma mesa com cinco pessoas, sendo que quatro delas estavam sendo processadas pelas instituições (provavelmente hospitais e universidades) que dirigem e/ou atuam, inclusive ele. Disse também que poderia contratar os melhores pesquisadores do Brasil para desenvolver coisas importantes, mas às sombras.

Será que essas pessoas que ele poderia contratar estavam juntas na mesa e sendo processadas? A que tipos de processo essas pessoas estão respondendo? Será que houve alguém que foi expulso de alguma instituição por sérias irregularidades financeiras? Ou algo do tipo? Esses são os melhores pesquisadores do país que ele fala? Em seguida, ele diz que a guerra é tremenda, mas guerra contra quem? Contra quem discorda dessas pessoas que usurpam a intelectualidade nossa de cada dia? Enfim, surgem muitas questões além do negacionismo que tanto falamos.

Esse tipo de gabinete pode ir muito além de dificultar a compra de vacinas para combater a pandemia aqui no Brasil, ou de dar suporte a tratamentos ineficientes. O "Gabinete das Trevas" pode passar a selecionar projetos apenas de pesquisadores que apoiem o governo federal, ou que, no mínimo, não façam críticas abertamente a qualquer coisa vinculada a Jair Bolsonaro.

E sabe os conselhos que recebi recentemente de pesquisadores amigos e mais experiente? "Por favor, Gustavo, não faça críticas ao Presidente, pelo menos, não em público, pois isso pode afetar sua carreira, você não vai conseguir aprovação de qualquer projeto vinculado ao CNPq e CAPES." Também ouvi muito: "Gustavo, você precisa ser low profile"? E assim vai!

Mas as pessoas desistiram de me dar esse tipo de conselho simplesmente porque eu já tinha feito muitas críticas ao governo e, o mais importante, perceberam que jamais vou me calar diante de tantas barbaridades. Claro que não vou expor os amigos que me deram esses tipos de conselho, até para que eles não fiquem em situações desconfortáveis.

Temos um exemplo clássico e recente que é o da médica Luana Araujo, que foi chamada para assumir uma pasta importante no ministério da saúde, porém, mesmo já estando envolvida nas atividades, não chegou a ser nomeada, pois não teve a validação política. Por que será que isso aconteceu?

Agora, imaginem se os projetos de pesquisa encaminhados para avaliação dos programas do governo federal passarem inicialmente por esse "Gabinete das Trevas" antes de ter o crivo científico e serem avaliados pelos pares —ou seja, pessoas especializadas na área do projeto proposto? Vocês conseguem imaginar o quanto isso afeta a pesquisa nacional? Em vez de buscar os melhores projetos e pesquisadores, os representantes do gabinete podem preferir projetos elaborados por quem os apoie politicamente!?

Pelas declarações no vídeo, parece que para fazer pesquisa de ponta no Brasil, com suporte federal, nós pesquisadores precisamos ficar nas sombras, ou aparecer apenas para tirar dúvidas técnicas, sem falar de política —a não ser que seja para dizer que o Ministro X, o Presidente ou qualquer representante do governo esteja fazendo excelente trabalho.

E se algum pesquisador de ponta no Brasil estiver fora desse grupo das sombras —ou discordar abertamente do governo federal— será punido? Vai deixar de receber aprovação para mais projetos? Ou não vai receber o financiamento já aprovado?

Para encarar o governo federal e dar a cara a tapa ao mesmo tempo que faz pesquisa no Brasil, a gente tem que ter algumas estratégias. Por exemplo, ter financiamento apenas estadual e desistir, enquanto esse governo permanecer no poder, de tentar conseguir financiamento federal; ou pior, desistir de tentar liderar grupos de pesquisa e focar apenas em comunicação científica como forma de manter a vida, mesmo tendo um grande potencial para desenvolver grandes projetos.

Aí, como é importante colocar o nome "pesquisador" para divulgação midiática, muitos acabam fazendo algum vínculo superficial em algum projeto de pesquisa —e nos bastidores os líderes de pesquisa falam que é apenas uma contribuição simples. Isso porque, se nomes que criticam o governo estiverem liderando a pesquisa, podem perder muita coisa, principalmente se estiverem iniciando ou tentando decolar uma baita carreira científica. Ou, simplesmente, o pesquisador "chute o balde" e vai embora do país. Nesse caso, o prejuízo é ainda maior para a nação, pois gastamos tanto para formar a pessoa e outros países que vão usufruir de todo seu conhecimento.

Por fim, aos poucos tudo isso vai saindo das sombras e tentaremos iluminar nossas vidas, porque essa escuridão há de passar, para que a gente possa ter uma vida mais leve e com ciência da vida, em nosso dia a dia, pois é com ciência que podemos fazer desse país uma nação de luz e fora dessa escuridão que nos atormenta e nos atrasa socialmente, educacionalmente e financeiramente,

Sem ciência, estamos fadados a derrota nos diversos aspectos que nos rodeiam. Por isso, precisamos abrir os olhos e arrancar esse tipo de gente do poder, inclusive esses pesquisadores sombrios e elitistas que dominam a ciência nacional há décadas, mas que afortunam apenas a si próprio e aos seus, em vez de atuarem com o objetivo da lei cientifica, que é servir a vida.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL