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Gustavo Cabral

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Vacina AstraZeneca em grávidas: mais uma bobagem do Ministério da Saúde

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Imagem: iStock
Gustavo Cabral

Gustavo Cabral é imunologista PhD pela USP (Universidade de São Paulo), pós-doutorado pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e pela Universidade de Berna (Suíça), e pesquisador da USP/Fapesp

Colunista do VivaBem

12/05/2021 04h00

O título deste artigo tem uma frase que já ficou repetitiva nesta pandemia: "mais uma bobagem do Ministério da Saúde". E o erro cometido não é nada surpreendente. Afinal, desse governo federal a gente só fica surpreso quando algo bom ou correto é feito, já que só cometem equívocos atrás de equívocos.

Mas vamos esclarecer alguns pontos para as futuras mamães que receberam o imunizante da AstraZeneca/Oxford/Fiocruz.

Ao dizer que foi um erro aplicar essa vacina em gestantes, fica parecendo que as grávidas imunizadas vão sofrer algum mal. Esse provavelmente não vai acontecer. O erro é que, para recomendar qualquer vacina ou remédio, precisamos ter suporte de dados científicos robustos, algo que não temos referente à vacina da AstraZeneca aplicada em grávidas.

Tudo começou em abril, com a recomendação do MS (Ministério da Saúde) em incluir nos grupos de vacinação as mulheres grávidas e puérperas que apresentem comorbidades que possam agravar a covid-19 (diabetes e pressão alta, por exemplo). Ao fazerem isso, deixaram de levar em consideração a própria recomendação da bula de uma das vacinas aplicadas aqui, que não inclui esse grupo entre os que podem receber o imunizante.

O que a AstraZeneca ressalta é que, em testes com animais, a vacina não prejudicou a gestação e não afetou nem a mãe nem o feto. Porém, o fabricante não relata experimentos em seres humanos, algo crucial para que uma vacina seja levada para vacinação em larga escala.

Você pode perguntar: "Mas os Estados Unidos não estão vacinando grávidas e puérperas?". Sim, estão. Porém, estão usando a vacina da Moderna e a da Pfizer/BiOnTech, que já têm dados com milhares de grávidas imunizadas e que não sofreram nenhum efeito colateral —ou seja, têm o suporte científico que traz segurança para a população.

Pode surgir outra pergunta: "E a vacinação com a CoronaVac, por que ninguém fala sobre isso, já que estão aplicando essa também?". Nesse caso, temos uma questão de segurança prévia. Podemos dizer que o uso do imunizante é seguro pelo fato de usar um vírus inativado ("morto"), mesma tecnologia usada para o desenvolvimento da vacina da gripe, por exemplo, e que aplicamos em grávidas e puérperas há anos.

Isso nos traz segurança para incluirmos a CoronaVac nesse grupo populacional. Mas, claro que, mesmo assim, temos que ter uma atenção para qualquer efeito colateral e, caso isso aconteça, investigar o ocorrido e contorná-lo rapidamente.

Mas, volto a falar, dados de vacinas anteriores nos dão alguma segurança em relação à CoronaVac. Já a tecnologia aplicada no desenvolvimento da vacina da AstraZeneca/Oxford, antes da pandemia, só era utilizada em humanos na vacina contra o ebola. Agora que temos outros três imunizantes com essa tecnologia (AstraZeneca, Janssen e Sputnik).

Doutor, as mulheres que estão grávidas e tomaram essa vacina estão em risco? Respondo que sim, mas não por causa da vacina e, sim, por morarem em um país gerido por um governo federal que em vez de priorizar a vida desrespeita a ciência e dá suporte à proliferação do coronavírus

Quanto à segunda dose, as mulheres grávidas que tomaram a vacina da AstraZeneca devem aguardar orientações do Ministério da Saúde para saber o que fazer. Irônico, não? Ter de aguardar orientação de quem errou... Jesus amado! Mas o correto é isso, pessoal. Precisamos agora que o Ministério da Saúde assuma sua responsabilidade. A pasta tem que entender que ciência não é opinião sem fundamento!

Meu conselho para as grávidas que tomaram a vacina é que fiquem tranquilas, pois vacinas são seguras. Mas é importante estarem atentas a qualquer efeito adverso. Caso tenha algum sintoma incomum, é preciso buscar acompanhamento médico, que irá observar as individualidades da paciente e tomar a melhor decisão de tratamento.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL