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Gustavo Cabral

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Imunização com vacina vencida: irresponsabilidade, incompetência ou crime?

 Matthew Horwood Colaborador Getty Images
Imagem: Matthew Horwood Colaborador Getty Images
Gustavo Cabral

Gustavo Cabral é imunologista PhD pela USP (Universidade de São Paulo), pós-doutorado pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e pela Universidade de Berna (Suíça), e pesquisador da USP/Fapesp

Colunista do VivaBem

26/04/2021 12h36

Na última semana, surgiram notícias de que pessoas foram vacinadas com doses vencidas do imunizante da Oxford/AstraZeneca. Mas como uma falhas desse tipo pode acontecer e quais os perigos disso para quem recebeu a vacina?

O erro é de dar um nó em nossas cabeças, inadmissível, pois todos as embalagens contendo os imunizantes têm a data de validade das vacinas. Esse tipo de falha é uma soma de falta de atenção, incompetência e/ou crime, pois jamais um município poderia aplicar na população uma vacina que esteja fora do prazo de validade. Porém, por mais que a falha seja dos municípios, o vencimento das vacinas é um problema que não é provocado só por eles.

A logística de distribuição das vacinas começa no Ministério da Saúde, que administra o PNI (Programa Nacional de Imunização) e deve garantir a entrega dos imunizantes aos estados cerca de três meses antes da data de vencimento, para haver tempo hábil de as vacinas serem distribuídas para os municípios e disponibilizadas à população. Caso estados e/ou municípios recebam vacinas muito próximas de perder a validade, eles deveriam denunciar a falha do Ministério, pois um bom planejamento da distribuição e aplicação das vacinas é a chave para controlar a pandemia e, consequentemente, evitar que mais vidas sejam perdidas e todos possam voltar a rotina normal no futuro.

A dificuldade em distribuir essas vacinas três meses antes do vencimento começa por toda essa burocracia para o licenciamento das vacinas contra a covid-19, além da produção em larga escala sem parar e importação de outros países. Com tantos processos, é natural que levem meses para as vacinas chegarem ao Brasil e serem distribuídas. Portanto, só mesmo com equipes técnicas competentes e responsáveis, que entendam de logística e conheçam o país além de seus escritórios confortáveis, os imunizantes podem chegar aos municípios com um prazo de validade aceitável.

Outro grande complicador é a falta de vacinas no Brasil. Os municípios precisam aplicar a primeira dose e guardar parte do lote de vacinas para garantir a aplicação da segunda dose —e qualquer erro de controle do estoque ou de cálculo pode fazer com que os imunizantes percam a validade. E, repito, a falha não está em guardar os lotes para a segunda dose, mas sim na falta de mais vacinas.

Infelizmente, os municípios são obrigados a estocar parte dos lotes pois, se não receberam mais vacinas para segunda dose, o imunizante pode não ser aplicado no tempo limite —e não sabemos o que acontece se a segunda dose não for aplicada no momento certo (que é de três a quatro semanas para a CoronaVac e de quatro a doze semanas para vacina da AstraZeneca).

É fundamental que o governo federal garanta o encaminhamento suficiente de vacinas para que as segundas doses sejam aplicadas no tempo correto e, ao mesmo tempo, entregue mais vacinas para a população receber a primeira dose. Porém, infelizmente, aparentemente o que o governo federal mais faz é gerar desorientação social e política, em vez de se preocupar em ações para controlar a covid-19.

Obviamente, como já falei no início, um erro não justifica o outro. Por isso, não podemos colocar toda a culpa no ministério da Saúde e tirar a responsabilidade de quem está na "ponta da agulha", ou seja, das secretarias de Saúde, que não averiguaram a validade das vacinas e aplicaram na população imunizantes vencidos. Ou pior, será que averiguaram e vacinaram mesmo assim? Estranho pensar nisso, não é? Será que municípios poderiam estar mais preocupados com a repercussão negativa em deixar vacinas vencerem do que na proteção da sociedade? Pensariam que não seriam descobertos?

Outra questão: quem não conhece uma ou várias pessoas que ocupam cargos políticos estratégicos e estão ali por serem primo, cunhado ou amigo do prefeito? Ou assumiram, por indicação política, um cargo que não têm condições de ocuparem?! Enfim, são assuntos complexos que fazem o sistema organizacional brasileiro estar como está, doente!

O que pode acontecer com quem tomou vacina vencida?

Os estudos científicos não trazem resposta para isso, até porque ninguém no mundo deveria receber uma imunização fora do prazo de validade. Mas, basicamente, a vacina pode não funcionar ou, pior ainda, gerar efeitos colaterais indesejados e graves.

A formulação de uma vacina pode conter um vírus inativado ("morto"), enfraquecido ou apenas pedaços dos vírus, além de substâncias que geram estabilidade nas formulações vacinais e outros componentes que ajudam a estimular o sistema imunológico. Tudo isso feito em boas práticas laboratoriais e com tempo muito bem definido para que as formulações vacinais continuem em condições práticas de imunização. Dessa forma, perder a validade da vacina é perder todo o rigor científico dela —e expor a sociedade a algo que ninguém merece: a insegurança, a ineficácia vacinal e/ou algum efeito colateral que não podemos prever.

Por fim, quero ressaltar que, embora o cartão de vacinas não traga a data de validade do imunizante, ele registra o lote da vacina que a pessoa recebeu. Dessa forma, ao saber que algum lote vencido foi aplicado, olhe o cartão de vacina de quem foi vacinado e verifique se a pessoa foi imunizada com um produto vencido. Caso sim, procure imediatamente os responsáveis em seus municípios e busque orientação.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL