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Gustavo Cabral

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Atrasar 2ª dose da vacina é perigoso à saúde e irresponsabilidade social

Anadolu Agency/Colaborador Getty Images
Imagem: Anadolu Agency/Colaborador Getty Images
Gustavo Cabral

Gustavo Cabral é imunologista PhD pela USP (Universidade de São Paulo), pós-doutorado pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e pela Universidade de Berna (Suíça), e pesquisador da USP/Fapesp

Colunista do VivaBem

19/04/2021 12h31

A vacinação é a melhor arma para combater doenças infecciosas como a covid-19, que nesse momento gera um número absurdo de mortes no Brasil. E, diante da tragédia sanitária, humana, social, educacional e econômica que o país enfrenta, recebemos notícias trágicas. Por desorganização do Ministério da Saúde, não há vacina suficiente para aplicar a primeira ou a segunda dose na população. Além disso, 1,5 milhão de pessoas não voltaram para receber a segunda dose dentro do prazo estipulado.

É natural imaginar a culpa principal é de quem não foi ao posto de vacinação tomar a segunda dose e, consequentemente, obter a proteção contra a doença. Mas não é bem assim.

Recentemente, fiquei sabendo da história de uma senhora de 72 anos que mora em Nhandeara, interior de São Paulo. Obesa, ela tem diversas comorbidades —artrite reumatoide, por exemplo—, está em remissão de um câncer de mama e não consegue mais andar. Essa mulher não estava conseguindo receber a segunda pois não compareceu ao posto após receber uma ligação de que deveria antecipar a imunização.

Mas o não comparecimento foi devido ao tratamento para doenças crônicas que essa senhora segue. Ela foi aconselhada por sua médica a não tomar a vacina naquele dia que a chamaram, pois os medicamentos que ela usa para tratar uma doença autoimune poderiam diminuir a resposta do sistema imunológico à vacinação. Seu tratamento estava todo organizado para ser realizado no intervalo entre uma dose e outra. Porém, o posto de saúde alterou o calendário que ele mesmo definiu inicialmente.

A médica e a filha dessa senhora, uma grande pesquisadora da área de imunologia, entraram em contato com os responsáveis do posto de saúde para explicar por que não foi possível levar a idosa para se vacinar naquele dia que ligaram, mas que ela iria na data marcada em seu cartão de vacinação. Mas, infelizmente, os profissionais "responsáveis" pelo do posto de saúde, assim como da secretaria de saúde municipal, informaram que ela não teria data para receber a segunda dose, pois não compareceu após a ligação que fizeram. Informaram que entrariam em contato com a mulher apenas quando sobrasse alguma dose.

Essa decisão foi absurda e irresponsável. Se essa mulher demorasse mais de quatro semanas após a primeira dose para receber a segunda, como tomou a CoronaVac, não saberíamos os efeitos da imunização e se ela, uma pessoa com vários fatores de risco, estaria realmente protegida.

A filha, após ouvir que o plano do município agora era imunizar a mãe "só quando sobrasse alguma vacina no posto" quase surtou. Entrou em contato com muita gente, inclusive comigo, buscando orientação e procurou até a polícia para fazer um BO (boletim de ocorrência). Foi uma baita confusão!

Com todas as informações que obtive, entrei em contato com o secretário da Saúde do Estado de São Paulo, Jean Gorinchteyn, que prontamente compreendeu que a situação estava sendo mal conduzida e imediatamente buscou resolver o caso. Dessa forma, após tudo isso, a senhora foi vacinada. Na conversa com Gorinchteyn, ressaltei também que outras pessoas estão reclamando de dificuldades parecidas para receber a segunda dose, o que é muito preocupante, já que nem todos conhecem alguém que pode contatar o secretário para resolver o problema —e ele também não seria capaz de solucionar caso a caso em uma população tão grande como a de São Paulo.

Como tinha resolvido o problema dessa senhora de Nhandeara e o secretário estava ciente de que atrasos na segunda dose como o desse caso poderiam atrapalhar a imunização da população, resolvi que não precisaria publicar esse texto. Porém, ao ver o crescente número de pessoas não recebendo a segunda imunização, decidi que precisaria levar o assunto ao público, pois muitos casos semelhantes podem estar acontecendo pelo Brasil e isso precisa ser visto —e resolvido!

Atrasar a segunda dose, seja por decisão do posto de saúde, seja porque a pessoa não foi receber a imunização por falta de conhecimento, falta de comunicação ou esquecimento, é algo muito perigoso à saúde e uma irresponsabilidade social.

Com os fatores de risco (idade, comorbidades etc.) que têm as pessoas que estão sendo imunizadas nesse momento, se não receberem a segunda dose corretamente, elas correm sérios risco de morrer caso sejam infectadas pelo coronavírus

Daí surge a pergunta: se alguém morrer pois não recebeu a vacina, quem vai explicar isso para a família?! Faz sentido responsáveis por um posto de saúde afirmarem que não puderam vacinar uma idosa pois os planos de imunização mudaram e a senhora que vive sob tratamento deveria se adaptar, por exemplo, parando o tratamento que fazia, mas que a secretaria não levou em consideração a particularidade dessa e de outras senhoras pelo Brasil?

Enfim, precisamos demais profissionalizar quem cuida da área da saúde na política, pois todos sabemos que quando um prefeito ou uma prefeita de muitos interiores (e de capitais) entram para administrar um município, muitas vezes esses gestores escolhem as pessoas próximas, como amigos ou família, assim como indicação política, para assumir cargos, como os de secretaria, mas não levam em consideração a questão "capacidade em assumir o cargo que ocupa". Isso pode gerar negligências que podem levar pessoas com problemas de saúde à morte, entre outros problemas históricos que vivemos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL