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Gustavo Cabral

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A pandemia está provocando um prejuízo que pode ser irreversível no futuro

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Gustavo Cabral

Gustavo Cabral é imunologista PhD pela USP (Universidade de São Paulo), pós-doutorado pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e pela Universidade de Berna (Suíça), e pesquisador da USP/Fapesp

Colunista do VivaBem

06/04/2021 04h00

O prejuízo que a pandemia provocada pelo coronavírus tem gerado é algo complicado de calcular, pois isso afeta muitos setores, desde a economia, a saúde, a educação e, principalmente, a vida humana.

Mas temos que enfrentar tudo isso, mesmo não sendo fácil.

Por que estou falando isso? Não é um assunto tão óbvio e bem discutido?

Pode até ser bastante discutido e aparentemente óbvio, mas estamos longe de chegar a uma solução e precisamos discutir isso por muito mais tempo, pois todos estamos sofrendo, embora a parte mais suscetível a esse desastre seja a classe mais pobre do Brasil.

O prejuízo é imediato, com a falta de emprego e a fome que têm aumentado no Brasil, mas vai além, pois estamos gerando um prejuízo futuro irreversível, principalmente com a agressão na educação daqueles que têm menos condições de obter uma formação escolar.

Vamos a exemplos práticos? Pense o quanto é complicado ter nossas crianças em casa, acompanhá-las nas aulas online, ver que a formação delas não está sendo a mesma, quando comparado com as aulas presenciais. Agora, imagine isso somado à falta de condições de alimentar e manter as crianças em casa e sem um aparelho eletrônico e/ou sem acesso à internet para assistir às aulas online!? Pois é, muita gente está passando por isso...

Esta semana eu recebi um apelo de uma diretora de uma escola no interior da Bahia que foi de cortar o coração. O desespero de alguém que quer buscar uma maneira de levar a educação para as crianças que não estão conseguindo assistir às aulas

Vou colocar aqui a mensagem que recebi:

"Doutor, boa noite. Virei sua fã desde sua participação no Caldeirão do Huck e tenho acompanhado como você tem inspirado pessoas. Preciso de sua ajuda, estou como diretora de uma escola no interiorzinho da Bahia, num distrito a 30 minutos de Senhor do Bonfim, chamado Juacema.

Estou de fato desesperada, pois com essa pandemia a realidade da educação pública brasileira realmente mostrou o quanto é falha.
Estou lhe implorando que, se possível for, me ajude a levantar um projeto para conseguir aparelhos eletrônicos para que meus alunos consigam assistir às aulas.

Tenho 211 alunos ao todo, e gostaria também que o senhor pudesse falar de sua vida e de como a educação transformou seu futuro
Uma mãe de três alunos maravilhosos me disse com lágrimas que seus filhos não estão assistindo as aulas por não ter um celular em casa.

Aguardo ansiosa e com muito carinho."

Bom, como reagir a isso? Tem outra opção que não seja a tristeza e o desespero? Se não tem, precisamos criar outra opção!

Apesar da tristeza que senti, pois quem me conhece sabe da importância da educação como transformação de minha vida, do menino que cresceu no interior da Bahia, trabalhando na roça e em feiras públicas desde os 7 anos, que concluiu o ensino médio aos 22 anos e, pela educação, consegui me tornar um imunologista PhD na USP (Universidade de São Paulo) e obter três pós-doutorados no exterior, em universidades de prestígio, como a de Oxford (Inglaterra) e de Berna (Suíça).

Devido à minha história, muita gente acaba entrando em contato pedindo ajuda e orientação. E assim eu tento estar presente.

Porém, precisamos ser proativos e certeiros nas ações.

Em atitudes que respondam a situações como essas, precisamos entender que ajudar apenas a uma escola —apesar de ser extremamente importante— não é a ação mais precisa, pois no mesmo município temos várias outras escolas passando pela mesma necessidade.

Dessa forma, precisamos trazer o máximo de pessoas para colaborar de forma organizada. Para isso, precisamos antes da organização da gestão publica.

Por exemplo: não teríamos como conseguir obter aparelhos eletrônicos para todos e todas estudantes, pois apenas nessa escola de Juacema são 211 alunos. Dessa maneira, a gestão municipal terá que ter uma lista de estudantes que não têm nenhuma condição de ter um aparelho eletrônico em casa, nem internet, assim como listar as famílias que podem obter apenas parte dessas necessidades, para com isso, classificar os padrões de necessidades e direcionar as ações de forma mais organizadas. Mais: em quanto o município pode ajudar? E o Estado, qual sua participação? Depois, podemos buscar apoio nos setores privados e ação social, de forma a combater e suprir as necessidades reais.

Mas nós temos um grande problema no Brasil: a política é ocupada por pessoas, em sua grande maioria, sem compreensão de como elaborar um projeto que tenha bem delineado e ranqueado os principais problemas, que tracem os objetivos a serem alcançados —para com isso isso montar as metodologias que aplicarão e, consequentemente, obter os resultados esperados. E, mesmo quando não obtiver os resultados esperados, serem capazes de analisar os dados e refazer os projetos, sem repetir os erros, até que os objetivos sejam alcançados como um todo.

Não temos como fugir desse pensamento, pois a população é refém do que a política faz. Sem uma profissionalização, sem pessoas capazes de ver a sociedade de maneira a sentir seus desejos e necessidades e que atuem tecnicamente, as coisas tendem a piorar.

Apesar de acharmos que não é possível isso, a pandemia está mostrando que sim, é possível e capaz de as coisas piorarem e precisamos atuar com responsabilidade e profissionalismo, para podermos passar por essa grande crise e encarar um futuro próspero, tendo como base a educação desse grande país, chamado Brasil.

Para concluir, precisamos olhar para esse caso de desespero de uma escola no sertão baiano, responder de forma apropriada e organizada e ter como exemplo para atuarmos em diversas outras situações delicadas de pessoas que estão penando pelo Brasil, em especial nas classes pobres.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL