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Gustavo Cabral

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Resultado da redação do Enem preocupa, pois sem educação ciência não avança

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Gustavo Cabral

Gustavo Cabral é imunologista PhD pela USP (Universidade de São Paulo), pós-doutorado pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e pela Universidade de Berna (Suíça), e pesquisador da USP/Fapesp

Colunista do VivaBem

30/03/2021 16h26

Qualquer nação que deseja se tornar competitiva economicamente em médio e longo prazo necessariamente precisa ter a ciência, tecnologia e inovação muito bem alinhadas, assistidas de forma estáveis. Só assim é possível gerar um arcabouço de conhecimento extremamente útil para que o país desenvolva produtos que abasteçam a população de origem, assim como fornecer ao mundo esses produtos e também conhecimento.

Porém, não há ciência de alto nível, sem uma educação de base com qualidade. Pode até ser chato, mas temos que repetir esse assunto e buscar maneiras de fazer disso um projeto nacional. Quem me conhece sabe da importância da educação e da ciência em minha vida, o que consegui por causa disso.

Venho de uma família financeiramente pobre, do sertão da Bahia, tive que trabalhar desde os sete anos de idade e conclui o ensino médio apenas aos 22 anos. Graças à educação e a ciência, consegui me tornar um PhD na melhor universidade do Brasil, a USP (Universidade de São Paulo), fiz três pós-doutorados no exterior, em universidades superconceituadas, como a Universidade de Oxford, Inglaterra, e a Universidade de Berna, na Suíça.

Mas não espero que isso acabe num "Eu consegui". O Brasil precisa ter muito mais que algumas conquistas individuais, elas precisam ser um processo coletivo. O que faz a humanidade evoluir é a união. E para conseguir isso precisamos repetir e repetir a importância da ciência e educação em nossa nação. Fazer ecoar nos diversos lugares desse país, falando de política, de sociedade, do projeto nacional para o desenvolvimento científico e social (ou da falta dele, como acontece atualmente). Todos e todas nós precisamos nos tornar ferrenhos defensores e defensoras da popularização da ciência como estratégia de vida, estratégia de saúde e de econômica, pois um país competitivo e estável precisa da ciência como motor propulsor.

E, ao abrir o jornal hoje fiquei impressionado e assustado ao ver os resultados do Enem. Eles deixam claro o quanto precisamos evoluir no quesito educação de base. Entre as 2,7 milhões de redações dos alunos que fizeram a prova, apenas 28 alcançaram a nota máxima. Além disso, mais de 87 mil obtiveram nota zero. Isso é mais um dado assustador para a nossa educação e nosso futuro.

Precisamos entender que as coisas estão muito bem entrelaçadas. Com uma educação de base de qualidade e o investimento em ciência da forma que dever ser feito e melhorado, as universidades e centros de pesquisas tendem a progredir na produção de conhecimento, pois a "alma" disso tudo são os estudantes.

Exemplo claro de evolução e crescimento econômico vem da Coreia do Sul, que nos últimos 30 anos tem sido espetacular. Passou de um país competitivamente insignificante para potência tecnológica e social. Isso se deve ao projeto ousado para o desenvolvimento humano, por meio da educação de base e do investimento pesado e estável sobre a ciência.

Se observarmos a história recente, temos muitos outros países que saíram de países devastados, por exemplo após a segunda Guerra mundial (1939-1945), a líderes mundiais no desenvolvimento científico e tecnológico, como a Alemanha, Inglaterra, França e Japão. Porém, muita gente não gosta de usar o exterior como exemplo, embora seja necessário para aprendermos o que podemos projetar.

Então, vamos falar do Brasil, onde o Ceará, um dos estados com menos giro de recursos financeiro do país, consegue ter a melhor educação de base. Isso se deve a projetos de médio e longo prazo que são muito bem delineados e aplicados! Pode surgir outra pergunta, mas porque o Ceará não é uma potência científica? Bom, esse projeto está em andamento e, com certeza o estado vai conseguir se tornar uma potência na área.

Hoje, o estado já "exporta" mentes brilhantes para todo o Brasil, em especial para os principais centros de pesquisa nacional. E vale lembrar que, sim, o Ceará já faz pesquisa científica de altíssimo nível.

Também é importante saber que 60% da ciência produzida nas universidades brasileiras se concentra em apenas 15 universidades. Estamos falando de um país com 27 unidades federativas, onde cada estado e o Distrito Federal têm múltiplos centros de pesquisa universitária. Ou seja, nesse projeto de nação, precisamos incluir a ampliação e descentralização cientifica, para poder explorar mais e mais o potencial dos brasileiros e brasileiras.

Ainda precisamos investir em projetos que falem as diversas línguas brasileiras, pois uma metodologia aplicada no Sul ou Sudeste do país não pode ser a mesma aplicada nas demais regiões. Nem mesmo a estratégia de ensino aplicada dentro de estados tão heterogêneos pode ser igual.

O Brasil fala várias línguas sociais e precisamos compreender e nos tornarmos poliglotas da língua brasileira. O exemplo bem claro é a falta de aceitação de parte da população no combate à pandemia. Muita gente, muitos grupos, diversas áreas populacionais não aderem ao combate ao coronavírus, em parte, por falta de um projeto nacional de orientação social que fale a língua que cada grupo populacional consiga compreender e interpretar o que queremos transmitir.

Sim, esses são projetos complexos, que exigem longo prazo para ter resultados duradouros. Mas não pense que nossa geração não vai usufruir o retorno do investimento na educação e ciência. Nós vamos usufruir, sim, de alguma forma de cada ação em prol da educação e ciência nesse país, seja através de ganhos para nós mesmos, seja por meio da felicidade de ver as novas gerações tendo um suporte educacional e social melhor que o nosso.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL