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Gustavo Cabral

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Vacina da Pfizer protege de variantes; isso é animador para outras vacinas

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Imagem: Divulgação
Gustavo Cabral

Gustavo Cabral é imunologista PhD pela USP (Universidade de São Paulo), pós-doutorado pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e pela Universidade de Berna (Suíça), e pesquisador da USP/Fapesp

Colunista do VivaBem

09/03/2021 12h00

Estamos vivendo o pior momento da pandemia no Brasil, com seguidos recordes de mortes, o sistema de saúde em colapso e a falta de perspectiva para controlar a covid-19. Isso, por si só, é um grande desastre. Para piorar a situação, ocorreram mutações virais e apareceram as novas variantes, mais transmissíveis.

Porém, uma notícia animadora foi publicada na revista The New England Journal of Medicine nesta segunda (8). O artigo mostra que os anticorpos induzidos pela vacina da Pfizer/BiOnTech (BNT162b2) são capazes de neutralizar não só o Sars-Cov-2, como também suas novas variantes demonstraram ter maior capacidade de infecção —que são as mutações detectadas pela primeira vez no Reino Unido (linhagem B.1.1.7), África do Sul (linhagem B.1.351) e no Brasil (linhagem P.1).

Esses dados, embora preliminares, são muito importantes para além da própria vacina da Pfizer. Embora a estratégia para desenvolver a imunização (ela usa a tecnologia mRNA) seja diferente das demais vacinas licenciadas para uso humano, o alvo é o mesmo para a grande maioria das vacinas: a proteína Spike (que recobre o vírus e tem forma de coroa) e é a a chave para a entrada do coronavírus em nossas células.

Um estudo preliminar, inclusive, já demonstrou que a CoronaVac (vacina da Sinovac/Butantan) e a produzida pela Universidade de Oxford também são capazes de neutralizar a variante brasileira (P.1). Por isso, com certeza, as demais vacinas seguirão o mesmo caminho, já que as informações que estão na vacina da Pfizer, na de Oxford, na Moderna, J&J, Sputinik V, por exemplo, são as mesmas.

Em relação à estratégia utilizada pela CoronaVac, essa utiliza o vírus inteiro e inativado ("morto"), sendo assim, além de manter as informações contidas na proteína Spike, também tem outros componentes virais que podem colaborar para a manutenção da eficácia da vacina contra as novas variantes.

Mas pode surgir uma pergunta: por que as vacinas contêm as mesmas informações, mas apresentam percentual de eficácia diferente?

Bom, o motivo é a maneira que montamos as vacinas e o que há em sua composição para gerar um efeito adjuvante, ou seja, o que que estimula o sistema imunológico a produzir anticorpos. Esse é um dos maiores gargalos para o desenvolvimento de vacinas. Mas, como falei, as informações contidas nas vacinas são as mesmas.

Ao mesmo tempo que isso nos dá esperança, nos abre os olhos para unirmos forças para controlar essa pandemia o mais rapidamente possível, pois quanto mais dispersamos o vírus, maior o risco de surgir novas variantes que possam escapar das vacinas, mesmo que parcialmente —ou de aparecer variantes ainda mais letais e que se adaptem a novos grupos de indivíduos que, teoricamente, eram mais resistentes ao vírus, como pessoas jovens e sem comorbidades.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL