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Gustavo Cabral

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Variantes do coronavírus: Brasil faz pouca coisa certa para controlá-las

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Gustavo Cabral

Gustavo Cabral é imunologista PhD pela USP (Universidade de São Paulo), pós-doutorado pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e pela Universidade de Berna (Suíça), e pesquisador da USP/Fapesp

Colunista do VivaBem

12/02/2021 04h00

Infelizmente, a falta de planejamento do Ministério da Saúde para obter vacinas contra a covid-19 nos levou a uma situação bem complicada de administrar, pois "temos vacinas aprovadas para uso humano", mas não temos vacinas suficientes para vacinar a população massivamente. Sem falar de outro grande problema que temos: a falta de um programa nacional de conscientização para a sociedade entender que a vacina é a forma mais eficiente para o controle da pandemia, além de que os cuidados como usar máscara e higienizar as mãos devem continuar após a vacinação, até que a pandemia seja controlada.

O que tudo isso tem a ver com mutações do coronavírus? Com a dispersão do vírus ocorrendo de forma exacerbada no nosso país, as mutações tendem a se ampliar ao ponto de surgirem novas variantes mais contagiosas, como aconteceu na Inglaterra, África do Sul e aqui no Brasil. Embora essas variantes ainda não tenham afetado a capacidade das vacinas desenvolvidas para prevenir a covid-19, na África do Sul decidiram interromper a aplicação da vacina de Oxford/AstraZeneca após um teste com número pequeno de pacientes para avaliar a capacidade de proteção do imunizante contra a variante do vírus dominante por lá.

Vale ressaltar que a OMS anunciou que todas as vacinas, incluindo a de Oxford, são capazes de proteger o desenvolvimento da covid-19, mesmo que a pessoa contraia uma das variantes já conhecidas.

Mas é compreensível que uma nação tome a decisão que a África do Sul tomou, que foi parar com a aplicação de uma vacina que eles não têm "certeza" de sua eficácia. Ao mesmo tempo, vale a pena ressaltar da responsabilidade no quesito de prevenção de dispersão do vírus. Ao tomar uma ação como essa, os gestores devem ter outras opções de vacinas que sejam capazes de suprir as necessidades da vacinação em massa, além de aprenderem que a forma de combate à disseminação do coronavírus foi falha.

Esses são os principais aprendizados que devemos tirar dessa situação. Compreender que nossa estratégia de vacinação foi e é um desastre, desde a obtenção de vacinas até a sua distribuição, assim como o controle da dispersão do vírus. Além das variantes anteriores que se dispersaram rapidamente pelo mundo, essa mutação que surgiu no Norte do Brasil já está se espalhando pelo país, com casos confirmados na Bahia, em São Paulo e em outros estados.

Hoje, somos referência do que deu e continua dando errado no controle da covid-19. Nossa 'falta de cérebro' para administrar a pandemia favorece o surgimento de novas variantes, que podem inclusive ser mais letais, além de mais infecciosas, como a que surgiu no Amazonas

Embora seja repetitiva essa crítica, não tem como parar de clamar por ações mais efetivas, como uma maior intensificação para obter o máximo de vacinas possíveis e levar ao máximo de pessoas o mais rápido possível. Também precisamos de um projeto nacional de conscientização, para poder controlar a dispersão do coronavírus e, por consequência, não termos mais variantes com maior potencial de infecção e possivelmente mais letais.

Além disso, outro grande medo é que essas novas variantes consigam driblar a ação das vacinas em prevenir a covid-19. Isso pode nos jogar para trás no combate e controle da pandemia e, consequentemente, ampliar os prejuízos humanos e financeiros de forma significativa.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL