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Gustavo Cabral

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Negacionismo do presidente é mais perigoso que as mutações do coronavírus

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Gustavo Cabral

Gustavo Cabral é imunologista PhD pela USP (Universidade de São Paulo), pós-doutorado pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e pela Universidade de Berna (Suíça), e pesquisador da USP/Fapesp

Colunista do VivaBem

08/02/2021 04h00

Desde o final de 2020 temos uma nova preocupação no Brasil relacionada à pandemia: o surgimento de variantes do coronavírus com um maior poder de transmissão. Quando foi identificada em setembro, no Reino Unido, uma dessas novas variantes gerou uma preocupação enorme. Em novembro, ela já era responsável por um quarto da população infectada na Inglaterra e, em dezembro, por dois terços.

Em 31 de dezembro, a variante britânica foi encontrada no Brasil. Em seguida, apareceu a da África do Sul, ainda mais transmissível e, mais recentemente, uma aqui no Norte do Brasil —conhecida como P1 e que já começa a ser identificada em alguns casos em São Paulo.

Essas novas variantes têm assustado o mundo, principalmente pela alta capacidade de transmissão que apresentam, além da possibilidade de as vacinas já desenvolvidas não funcionarem tão bem devido a mutações que ocorrem no vírus. Mas, vale a pena ressaltar que mutações são muito comuns e caso tenha necessidade de reajustar as vacinas, isso pode ser feito em, no máximo, alguns meses, sem precisar passar por toda essa bateria de testes que acontecem quando estamos desenvolvendo uma nova vacina.

E a boa notícia é que, até o momento, as vacinas têm demonstrado eficácia inclusive contra as novas variantes. De qualquer forma, a atenção precisa aumentar ainda mais quanto ao trabalho de contenção do coronavírus, para que não surjam outras mutações que produzam variantes virais que consigam escapar das vacinas e, o pior, que sejam mais letais, virando uma grande bola de neve.

Com um bom programa de conscientização social, além de excelentes estratégias de vacinação em larga escala, podemos conter a pandemia e evitar que o desastre seja ainda maior

E nós temos condições de fazer isso, pois temos muito mais conhecimento do vírus e da pandemia atualmente, além de diversos projetos de conscientização social organizados pela mídia nacional, como o Vacina Sim —encabeçado pelo UOL e outros grandes veículos—, e projetos ligados à ONU (Organização das Nações Unidas), como o projeto Halo.

Temos ainda, além de vacinas, novas perspectivas de combate ao vírus, como os soros anti-coronavírus patenteados e em testes clínicos pelo Instituto Vital Brasil. Enfim, com tudo isso e uma união social, tendemos a conseguir controlar a pandemia. Embora esse desastre que está acontecendo em Manaus, que inclusive está sendo investigado para punir os possíveis responsáveis, como o Ministro da Saúde do Presidente da república.

Neste ponto, quero iniciar falando do quanto o governo federal e sua má gestão no combate à pandemia gera maiores danos do que as novas variantes virais. Primeiramente, se o presidente não tivesse esnobado a capacidade destrutiva do vírus e adotasse uma postura correta no combate à pandemia desde o início, não teríamos mais de 225 mil mortes provocadas pela covid-19, nem o vírus teria se espalhado como aconteceu, diminuindo, assim, a possibilidade de gerar mutações que tornassem o vírus mais transmissível.

Seria menos pior se a gente pudesse falar que toda esse negação ocorreu apenas no início da pandemia, quando pouco se conhecia do vírus. Mas não foi. Ela dura quase um ano e é contínua por parte do presidente da república, que já defendeu remédio que a ciência provou diversas vezes ser ineficaz e foi contra a vacina.

Para além desse negacionismo, mesmo com a pandemia mostrando o quando o investimento em ciência e tecnologia é importante, o Governo Federal tem feito o oposto. Por exemplo, como escrevi aqui em minha coluna no VivaBem, o governo federal tem sucateado intensivamente o desenvolvimento científico e tecnológico do Brasil. Por exemplo, só para 2021, houve o corte de 70% dos benefícios fiscais para importação de equipamentos e insumos para uso científico; a retirada de R$ 4,8 bilhões do FNDCT (Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico); o veto da lei que proibia o contingenciamento de verbas no FNDCT que foi aprovado pelos Senadores e Deputados federais, que poderia, também, desbloquear R$ 9 bilhões para os investimentos em ciência, tecnologia e inovação no país que foram represados em 2020.

Enfim, de longe, o governo Bolsonaro é muito mais danoso do que as variantes do coronavírus que tem surgido, além de dialogar com o caos social.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL