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Gustavo Cabral

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Contrair o coronavírus em superfícies parece ser raro, mas pode acontecer

Apesar da contaminação em superfície ser rara, cuidados básicos devem ser mantidos - iStock
Apesar da contaminação em superfície ser rara, cuidados básicos devem ser mantidos Imagem: iStock
Gustavo Cabral

Gustavo Cabral é imunologista PhD pela USP (Universidade de São Paulo), pós-doutorado pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e pela Universidade de Berna (Suíça), e pesquisador da USP/Fapesp

Colunista do VivaBem

05/02/2021 04h00

Recentemente, a revista Nature (uma das mais conceituadas no mundo científico) publicou um artigo com uma atualização sobre as formas de disseminação do novo coronavírus (SARS-CoV-2). A publicação diz que é raro contrair o vírus em superfícies e objetos e que a OMS (Organização Mundial da Saúde) e outras agências de saúde pública precisam rever suas orientações sobre o assunto.

Embora seja muita audácia fazer uma recomendação desse tipo em um artigo simples e resumido, sem trazer dados experimentais sólidos, esse é um assunto que devemos discutir, por ter grande interesse público no que se refere às formas de prevenção da covid-19.

Após quase um ano do início da pandemia, nós sabemos muito mais sobre como o SARS-CoV-2 se dissemina. Dessa forma, hoje conseguimos ter mais clareza ao orientar a sociedade. Por exemplo, algo que o texto da Nature deixa claro é que as agências de saúde devem dedicar mais recursos e esforços para enfatizar a importância do uso de máscaras e investigar medidas para melhorar a ventilação em lugares fechados, além de instalar purificadores de ar rigorosamente testados. O artigo ainda é bem claro ao afirmar que o coronavírus é transmitido predominantemente pelo ar —em secreções expelidas por pessoas falando, expirando, tossindo, espirrando. E que ser infectado pelo vírus em superfícies parece ser raro, todavia possível.

Embora seja compreensível a crítica feita nesse artigo da Nature sobre como alguns órgãos de saúde pública ainda enfatizam que as superfícies representam uma ameaça e devem ser desinfectadas com frequência, o que essa publicação chama mais atenção é para os gastos que são feitos com excesso de limpeza de superfícies, e que esse dinheiro poderia ser mais direcionado ao uso de máscaras e medidas para melhorar a ventilação em lugares fechados.

A exigência do artigo é que exista uma mensagem pública mais clara, mas ao mesmo tempo, eles são bastante confusos em suas recomendações.

O modo como citam que existe muitos gastos com descontaminação de superfícies demonstra uma preocupação muito mais com o quesito financeiro do que com a saúde pública

Isso porque, como eles mesmo dizem, sim é possível acontecer infecção pelo SARS-CoV-2 por meio de superfícies, apesar de ser muito menos provável do que pelo ar. Portanto, todos os cuidados são importantes.

Apesar do tom agressivo com a OMS e outras organizações de saúde pública, esse trabalho enfatiza bem que, realmente a dispersão do vírus por superfície solida é incomparavelmente menor do que a disseminação pelo ar. Portanto, o distanciamento social e o uso de máscara devem ser o foco dos órgãos de saúde público na orientação da população sobre como se prevenir da covid-19. Porém, mesmo que o risco de contaminação em superfícies seja raro, ele existe e também devemos manter a higiene básica, lavando as mãos e usando álcool em gel.