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Gustavo Cabral

É possível usar 2 vacinas diferentes na mesma pessoa? Como controlar?

Ettore Chiereguini/AGIF/Estadão Conteúdo
Imagem: Ettore Chiereguini/AGIF/Estadão Conteúdo
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Gustavo Cabral

Gustavo Cabral é imunologista PhD pela USP (Universidade de São Paulo), pós-doutorado pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e pela Universidade de Berna (Suíça), e pesquisador da USP/Fapesp

Colunista do UOL

26/01/2021 04h00

Com tantas dúvidas surgidas sobre as vacinas nesse período de pandemia, uma delas foi a possibilidade de usar duas vacinas diferentes contra a covid-19 na mesma pessoa. Inicialmente achei que fossem brincadeiras, principalmente quando escutei perguntas do tipo:

Se uma vacina tem eficácia de 50% e outra 70%, se tomarmos as duas, passaremos dos 100% de proteção?

Claro que entendi como brincadeira. Porém, as perguntas referentes ao uso de duas vacinas diferentes, como a CoronaVac e a vacina de Oxford/AstraZeneca, têm surgido repetitivamente, inclusive por jornalistas. Desta forma, vale a pena ressaltar algumas questões que envolvem esse assunto.

Primeiramente, por conta própria ninguém deve fazer isso, por alguns motivos.

Por exemplo, não existe nenhum estudo que mostre uma melhor eficácia quando juntamos as vacinas ou quando damos a primeira dose de uma e a segunda dose de outra diferente.

Outra questão é que biologicamente não sabemos como o corpo vai reagir com a união desssa vacinas, pois não temos estudos sobre isso.

E caso tenha algum efeito collateral, como saberemos se foi uma vacina ou a outra? Enfim, levando em questão a biologia, neste momento não há recomendação para que isso aconteça.

Apesar disso, surgiram nos jornais que estariam ocorrendo testes com as vacinas de Oxford/AstraZeneca e a Sputnik., da Rússia. Neste caso, após os estudos, se houver resultados positivos, isso poderá ser levado para a população.

Mas entra uma questão: Por que a vacina de Oxford e a Sputnik juntas?

Neste caso há uma questão científica importante que pode favorecer a união. Ambas são produzidas a partir de vetores virais, como explicado em outro texto aqui em minha coluna no VivaBem.

Enquanto a vacina de Oxford usa o vetor viral de macaco, a Sputnik usa o humano. Mas ambos usam o "vírus vivo" chamado adenovirus, que pode gerar, no máximo, um resfriado.

Nesse adenovírus é colocado um pedaço da infomação genética do coronavírus (Sars-CoV-2), mais especificamente a parte que ajuda o vírus a entrar em nossas células, que é a chamada proteína Spike. Com isso, esses adenovírus carregam essa informação genética do Sars-CoV-2 para nossas células e produzem a proteína que será reconhecida pelo sistema imunológico e, consequentemente, vai ativá-lo e prepará-lo para quando o coronavírus entrar em nosso corpo.

Porém, vale ressaltar que o sistema imunológico não reconhece apenas a proteína do coronavírus como estranha, ele reconhece o adenovírus também como algo estranho, desta forma vai produzir anticorpos contra o adenovírus também.

Como essas vacinas precisam de duas doses para produzir uma boa eficácia e o adenovírus precisa chegar em nossas células para produzir a proteína do coronavírus, pode acontecer dos anticorpos contra o adenovírus impedirem grande parte desses vetores de chegar em nossas células na segunda dose, pois vai reconhecê-lo e então neutralizá-lo.

Sendo assim, se usarmos dois vetores diferentes, um de macaco (Oxford/AstraZeneca) e um de humano (Sputnik), pode acontecer de a eficácia se tornar maior, pois na segunda dose não haverá anticorpos contra esses vetores, consequentemente haverá mais produção de proteína do coronavírus e uma melhor ativação e maturação do sistema imunolígico contra o coronavírus.

Deixando a biologia de lado, vamos entender tambem que quando nós formos tomar a vacina contra a covid-19, seremos cadastrados no DataSUS, que é o setor eletrônico e informatizado do SUS, que cadastra quem tomou a vacina, quando e qual tipo foi aplicada.

Essa é uma gestão estratégica do Ministério da Saúde para coletar, processar e disseminar as informações para todo o Brasil sobre saúde, incluindo esse processo de vacinação. Essa é a maneira mais responsável e eficiente de controle da vacinação.

Daí surgem outras questões: caso a pessoa decida se mudar e no novo local onde residirá não tenha a vacina que foi recebida previamente, o que deverá fazer?

Bom, essas questões devem ser organizadas previamente, pois não há estudos que provem a eficácia da união de duas vacinas e nem efeitos colaterais causados, caso isso aconteca.

Além disso, o sistema de controle, o DataSUS, não vai permitir que isso aconteça. Mas sabemos que falando de Brasil, onde vacinas desaparecem, pessoas com melhores condições financeiras pulam fila, entre outras injustiças, é possivel que alguém consiga burlar esse sistema de controle, seja através de amigos ou sabe-se lá como.

Mas saibam que efeitos adversos podem acontecer e, desta forma, além de praticar um crime burlando a estratégia de vacinação, a pessoa poderá praticar um crime contra o próprio corpo.