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Gustavo Cabral

Como controlaremos a pandemia com a eficácia das vacinas que teremos?

Vacinas contra covid-19 têm o objetivo principal de proteger o corpo contra doença - Getty Images
Vacinas contra covid-19 têm o objetivo principal de proteger o corpo contra doença Imagem: Getty Images
Gustavo Cabral

Gustavo Cabral é imunologista PhD pela USP (Universidade de São Paulo), pós-doutorado pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e pela Universidade de Berna (Suíça), e pesquisador da USP/Fapesp

Colunista do VivaBem

28/12/2020 13h25

Vez ou outra recebo perguntas do tipo: se uma vacina não tiver 100% de eficácia, como vai dar certo controlar uma pandemia? O senhor falou que a OMS (Organização Mundial da Saúde) recomenda uma vacina com 70% de eficácia. Desta forma, como ficarão os outros 30% que essas vacinas não "protegerão"?

Esse tipo de questionamento é muito comum e justo vindo da sociedade. E aproveitando o afastamento que há entre a sociedade com a ciência, junto com a habilidade em jogar com a mídia, muitas empresas e centros de pesquisas entraram numa "briga" acirrada sobre números de eficácia de suas vacinas. Há uma semana, certa empresa que tinha anunciado sua vacina com 90% de eficácia "mudou" para 95% na semana seguinte, "coincidentemente", logo após outras empresas e centros de pesquisas anunciarem números maiores.

Certo tempo depois, a Astrazeneca/Oxford anunciou a eficiência de sua vacina numa média de 70% (todos anúncios com dados preliminares e na mídia, mas não em revistas científicas). E estamos na expectativa da eficácia da Coronavac, que já foi dita por representantes do Instituto Butantan que sua eficácia responde a solicitação da OMS. Ou seja, as perguntas continuam sobre a possibilidade de como controlar uma pandemia com uma vacina que gire em torno de 70%, pois é uma eficácia que tenho repetido ser muito boa.

Quero aproveitar e ressaltar alguns números de outras vacinas licenciadas para uso humano, como a vacina da gripe, que entra no PNI (Plano Nacional de Imunização) anualmente, com uma eficácia que gira em torno de 40% a 60% de proteção. Outra vacina que vale a pena citar pela sua alta eficiência é aquela contra a hepatite B, que tem uma média de 95% de proteção. A proteção desses dois exemplos de vacinas que citei varia bastante, não é? Bom, sabe como compensamos isso? Com um excelente PNI e uma alta participação social.

Mas claro que, no caso das vacinas anticovid-19, como citei em outro texto em minha coluna no VivaBem, elas têm o principal objetivo de proteger o corpo contra a doença (covid-19), não necessariamente contra o patógeno, ou seja, o agente causador da doença, nesse caso, o novo coronavírus (Sars-CoV-2).

Pois bem, vamos focar nessa possível proteção de 70% contra a covid-19, brincando em fazer uma pequena sopa de números. Bem simples, claro!

Vamos pensar que, se as vacinas oferecerem uma média de 70% de proteção e, hipoteticamente, vacinarmos toda a população brasileira, ou seja, mais de 210 milhões de pessoas, quer dizer que as outras 30% que a vacina não funcionou será uma média de 63 milhões de pessoas. Então, para que serve essas vacinas que deixam tanta gente desprotegida?

Vamos colocar os pontos nos "is" fazendo mais uma sopinha de números e brincando de imunologista.

Vale ressaltar que mais de 80% da população que é infectada com o novo coronavírus não desenvolve nenhum sintoma da doença, pois o próprio sistema imune dá cabo do vírus. Aqueles que desenvolvem sintomas variam de 1% a 16% e sua periculosidade depende do grau de vulnerabilidade do infectado. Desta forma, vamos pensar nos 16%, considerando o maior número, embora seja exagero. De 63 milhões das pessoas que a vacina "não protegeu", os 16% representam uma média de 10 milhões. Ainda é muito, não é?

Nem tanto assim, sabe por quê? Pois mesmo exagerando, levando em consideração os 16%, ou seja, aproximadamente 10 milhões de pessoas "expostas", isso também quer dizer que mais de 200 milhões de brasileiros estarão protegidos, se tivermos uma vacinação em massa.

Há outros fatores importantes que valem a pena ressaltar. Neste momento, onde estamos no ápice do caos, estamos com menos de 10 milhões de infectados, muita gente, mas menos de 5% da população brasileira. Desta forma, com a vacinação em massa, esse número de 10% vai cair drasticamente, pois a grande maioria estará protegida, além disso, com o passar do tempo o próprio sistema imune desenvolve estratégia para se proteger do vírus com maior eficácia. E a ciência terá tempo para testar e desenvolver medicamentos que realmente funcionem contra esse novo vírus, podendo assim, tratar aquelas pessoas que possam vir a desenvolver a doença. Mas claro que, quanto mais adiamos essa discussão, e proporcionamos a capacidade do vírus em dispersar e gerar novas cepas mais virulentas, com possibilidade de se tornarem mais fatais, o controle da pandemia se tornará ainda mais complicado.

Por fim, queremos mesmo ter o controle da pandemia?

Vamos apostar na vacinação em massa! Sem esquecer do estímulo às ações sociais, pois precisamos reduzir a transmissão desse vírus e, consequentemente, evitar ainda mais o número de mortes. Mas não pensemos que apenas com a vacina, uma ou dez, conseguiremos controlar essa pandemia, pois a politização de vacinas e o negacionismo adentrou na sociedade como um vírus devastador.

Desta forma, se não houver ações reais de harmonização, como atos políticos de união, engajamento da mídia (que tem sido feito muito bem pela grande maioria), o suporte da ciência (que é a base de todos essa resposta positiva), não conseguiremos chegar ao social. E sem o engajamento social, a vacinação em massa se torna uma ilusão, ou seja, não teremos o controle da pandemia tão cedo. E como citei anteriormente, quanto mais adiamos e perdemos tempo, maior a possibilidade do vírus gerar novas cepas com potencial de transmissão e possivelmente mais mortal e/ou que afete a eficácia da vacina. Embora, eu como uma pessoa de muita fé, acredito na força da população, da ciência e do sistema imune!