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Gustavo Cabral

Papéis invertidos: o Butantan (CoronaVac) não precisa do Brasil, é o oposto

Tiago Queiroz/Estadão Conteúdo
Imagem: Tiago Queiroz/Estadão Conteúdo
Gustavo Cabral

Gustavo Cabral é imunologista PhD pela USP (Universidade de São Paulo), pós-doutorado pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e pela Universidade de Berna (Suíça), e pesquisador da USP/Fapesp

Colunista do UOL

07/12/2020 09h15

Estamos vivendo um momento de pandemia pelo novo coronavírus (Sars-CoV-2) que provoca a covid-19 e que já causou mais de 175 mil mortes apenas aqui no Brasil. Enquanto isso, tudo tem ficado confuso, desde a compreensão de que há cura, como dizem os defensores da cloroquina, mesmo não havendo, até o movimento anti-CoronaVac, por ter "origem" chinesa e, para a maioria, por achar que é a "vacina do Doria".

Bom, apesar de certas razões em haver um incômodo por muitas pessoas devido a ação e aproveitamento político do governo do estado de São Paulo em relação ao desenvolvimento da CoronaVac, e a clara demonstração do governador João Doria em usar isso como um trampolim para chegar a Presidência, tem o fator mais importante nisso tudo, que é a participação de um dos maiores e mais respeitados institutos de pesquisa do planeta, o Butantan.

Vale ressaltar que a aquisição de uma ou mais vacinas que possam ajudar a controlar essa pandemia é a busca de todas as nações do planeta. Desta forma, quando há uma total negação do Ministério da Saúde e do governo federal para com uma vacina que está em andamento e que tem demonstrado bons resultados preliminares de eficácia e segurança, isso demonstra uma total falta de compreensão de estratégia de vacinação e saúde pública, ou o pior, não tem interesse algum em sanar a situação da pandemia no país.

Durante esta semana, o ministro da Saúde, Pazuello, fez uma reunião com a imprensa para apresentar a estratégia de vacinação contra a covid-19 no Brasil. Até então, não há muito o que se discutir quanto a estratégia e como sera feita a distribuição das vacinas. Com uma pequena observação, de onde virão as vacinas?

O ministro citou que precisaria de vacinas com baixo custo, eficácia, segurança, fácil armazenamento e distribuição. Perfeito! Volta a pergunta, de onde virão essas vacinas?

Citou as vacinas a base de mRNA —como a da Pfizer—, a de Oxford e outras que podem ser negociadas e adquiridas. Mas em nenhum momento citou a possibilidade de obtenção da CoronaVac. Como assim?

A CoronaVac não usa a estratégia mais moderna para o desenvolvimento de vacinas, mas é uma estratégia bem conhecida e que demonstra eficácia e segurança, como outras vacinas licenciadas para uso humano, por exemplo as vacinas para gripe e raiva, como explico bem em outro texto aqui em minha coluna do VivaBem.

Alem disso, o acordo entre o Instituto Butantan e a empresa chinesa nos favorece a produção em larga escala desta vacina aqui no Brasil e, devido as condições de estoque (em temperatura de geladeira comum), nos favorece a usar toda a estrutura que temos em aplicar estratégias de vacinação para outros alvos, como fazemos anualmente no programa de vacinação para a gripe, alem de usar toda a infraestrutura do SUS para que isso aconteça.

Desta forma, unindo essa condição que o Butantan favorece e o acordo com a empresa chinesa, e somando a possibilidade de obter a vacina de Oxford e negociar com as outras companhias que estão desenvolvendo vacinas anti-covid-19, surge uma grande esperança para controlar essa pandemia.

Mas, se o governo federal não quer obter a CoronaVac, quem vai perder nessa "quebra de braço entre Doria e Bolsonaro"?

Definitivamente seremos todos nós, brasileiros, pois qualquer nação do planeta está ansiosa para comprar qualquer vacina que demonstre eficácia e segurança. Não importando se vem da China, Alemanha, Estados Unidos ou qualquer lugar. Com isso, caso o Instituto Butantan demonstre interesse em produzir e exportar a CoronaVac, aparecerão filas de interessados em obter esta vacina.

Desta forma vamos compreender bem a situação. Quando alguém diz que não quer a "vacina chinesa", pode ter certeza que haverá várias outras nações, não apenas pessoas, querendo o acesso a esse produto extremamente valioso.

Então vamos parar de nos envolver no que não nos interessa, que é tomar lado de Doria ou Bolsonaro, e assumir a responsabilidade e respeito pelas nossas instituições, como Butantan e Fiocruz, e acreditar na capacidade dessas relíquias que nos pertencem e que tem contribuído para a saúde pública nacional há mais de um século.